Entrevista

Entrevista

“Sou uma mulher realizada pelo que construí até hoje”

Sampaio Júnior (*) | Benguela

Jornalista

É, seguramente, um exemplo para as mulheres angolanas e africanas. Falamos de Alexandra Lima, que, há alguns anos, se tornou na primeira senhora a pilotar um avião no país e no continente. Divorciada e mãe de dois filhos, teve ainda a proeza de ser a primeira mulher africana a pilotar um Boeing 777-300ER, o maior avião bi-motor do mundo, de que é hoje comandante. “Sou uma mulher realizada pela carreira que construí e pelo respeito que as pessoas têm por mim”, afirma a comandante. É com esta “heroína dos céus” que o Jornal de Angola teve o prazer de conversar

13/12/2020  Última atualização 15H25
Alexandra Maria Chaves Pinto Gomes Lima © Fotografia por: Edições Novembro
Para início de conversa gostávamos que nos falasse detalhadamente da sua carreira profissional, especialmente depois da formação que fez na ex-Jugoslávia, tornando-se daí a primeira mulher a tripular uma aeronave no país e em África.

Comecei a trabalhar na Transportadora Aérea Angolana (TAAG) em 1982, na altura com apenas 18 anos, e depois fiz formação para assistente de bordo. Três anos mais tarde fui para a ex-Jugoslávia, mais concretamente na cidade que atendia pelo nome de Vrsac, actualmente região de Banat do Sul, província sérvia de Vojvodina, onde aprendi as técnicas de aviação na academia de pilotos local e acabei apta, na lista dos 15 melhores estudantes.

Conte-nos da sua experiência na pilotagem, depois que regressou ao país até tripular todas as aeronaves da companhia aérea de Bandeira Nacional...

Depois que regressei ao país, comecei a voar como piloto de Fokker 27 (F27). O meu primeiro voo oficial como piloto comercial foi para Benguela e fui co-piloto por cerca de duas décadas. Após esse período, em que voei como co-piloto, fiz outro curso nos Estados Unidos, pela Boeing, tendo depois tripulado sucessivamente os Boeing 737-200, 747-300,  até atingir o 777-300ER, de que sou hoje comandante e que, nos dias que correm, ostenta o estatuto de maior avião bi-motor do mundo, com capacidade para transportar perto de 300 passageiros.

Sabemos que antes da ida para a ex-Jugoslávia passou por uma formação como assistente de bordo. Como surge a ideia de se mudar depois para a pilotagem?

A ideia de me mudar de assistente de bordo para piloto nasce da vontade de progredir profissionalmente e da curiosidade. Talvez por ser ainda muito jovem, na altura, tenha olhado para a mudança como um desafio. Aliás, na aviação o aprendizado e a evolução no dia-a-dia representam sempre uma mais-valia. É sublime realçar também aqui o facto de que nas últimas décadas a aviação evoluiu de forma exponencial. Nada hoje é mais como no tempo em que abracei esta profissão.

Sendo mulher, que sabor representa tudo isso na sua vida, pois no país e no continente até então apenas homens haviam abraçado essa profissão?

Acredito que a minha actividade profissional representa algo muito especial para as mulheres não só em Angola como em África. A pilotagem é um ramo desafiante e pode motivar as mulheres a novos horizontes, demonstrando que, efectivamente, podem ocupar posições de destaque e onde bem entenderem.

O que ganhou ao longo desses anos lhe permitiu tornar-se uma mulher realizada, refiro-me particularmente ao âmbito profissional?

Sim, profissionalmente sou uma mulher realizada pela carreira que construí até hoje e pelo respeito que as pessoas têm por mim nesse campo de intervenção.

Tem ainda ideia da data e momentos que marcaram a sua primeira viagem, no caso quando pilotou o Fokker 27 da TAAG?

Não me lembro exactamente do dia do meu primeiro voo comercial. Lembro-me apenas que foi para a província de Benguela, na companhia do comandante Arsénio Ferreira e da assistente de bordo Joaquina Sofia Rosa. Foi um momento sublime na minha vida.

Já agora, onde reside a chave do segredo do sucesso que caracteriza o seu percurso nesta profissão, pois fala-se nos bastidores que já pilotou todo o tipo de aviões da TAAG?

Acho que a chave do segredo reside na humildade e no respeito que tenho até hoje por tudo que faço neste ramo desafiante, aliando isso sempre à fé em Deus.

Sendo a pilotagem essa actividade desafiante e que pelo meio envolve alguns riscos, ao longo da sua carreira enfrentou dissabores em pleno voo de cruzeiro?

Angola passou por anos de guerra e nós, profissionalmente, nunca paramos. Houve nessa fase alguns sustos e tivemos que aterrar em aeroportos em que comercialmente não aterrávamos por causa da característica de alguns voos. Apesar de tudo isso, tecnicamente nunca tive sustos de maior, talvez pela fiabilidade dos aviões modernos.

Já agora, o que é, de facto, mais difícil na pilotagem, desde a descolagem até o momento do poiso ou aterragem?

Tudo na aviação é muito importante, tanto a descolagem, como o cruzeiro ou a aterragem. Resumidamente, é uma profissão que nos obriga a muita concentração, muito estudo e acima de tudo respeito no seu exercício quotidiano. Por exemplo, durante o período de guerra que o país enfrentou, voávamos em "ene” situações com o coração nas mãos. Em muitos casos tínhamos de efectuar descidas em espiral, sobretudo nas zonas de conflito, e esses voos afectavam, sobremaneira, a nossa saúde.

E como é a sensação lá em cima, no ar, passe a redundância, depois de vencer os obstáculos da descolagem e rasgar os céus por diferentes latitudes?

A sensação é maravilhosa em qualquer fase do voo. Todos os dias a nossa vista é diferente. Mesmo voando para um destino semelhante há sempre algo que vai diferenciar do voo anterior. Isso é evidente, porque em cada voo salta à vista uma fotografia diferente, uma nova paisagem, outros passageiros. Enfim, no voo de cruzeiro experimenta-se sempre uma sensação agradável e diferente um do outro.

O que dizer dos encantos de cada uma das viagens? Devem ser fabulosos...

De facto, isso é uma realidade. É sempre agradável chegar a destinos como Salvador da Baía ou ao Rio de Janeiro, no Brasil; Porto, em Portugal, é um ponto que me agrada sempre que para lá viajo; Cidade do Cabo e rotas como China, e outras que experimentei ao longo destes 35 anos de carreira, representam algo incomensurável.

Já agora, que significado teve para si o facto de se tornar a primeira mulher a pilotar uma aeronave no país e em África?

Ter-me tornado a primeira mulher piloto em Angola e em África envaidece-me pelo factor social. Por essa razão, acho que a minha pátria tem essa vaidade comigo.

Na faixa etária em que se encontra, o que tem ainda como ambição atingir na carreira de pilotagem ao serviço da TAAG?

Nesta altura da vida, tudo que espero realizar profissionalmente são os desafios que a companhia aérea nacional tiver para mim. Os pilotos só se aposentam aos 65 anos de idade e eu ainda tenho pela frente mais nove anos para realizar tudo o que me pedirem.

Como vê a ascensão, hoje por hoje, de outras mulheres nessa actividade?

A ascensão profissional, tanto para homens como para mulheres hoje está mais facilitada. A companhia aérea de bandeira do nosso país cresceu e hoje tem mais necessidade de pilotos. Por isso abrem-se horizontes para quem espreita, igualmente, chegar a essa actividade desafiante que representa a pilotagem.

Num mundo em que os homens assumem o domínio nas diferentes actividades profissionais, não se sentiu inibida quando abraçou esse ramo?

O meu pai faleceu muito cedo. Eu tinha apenas quatro anos quando o perdi. Em consequência disso cresci com a minha mãe e a minha avó. Como não senti a presença masculina no meu crescimento habituei-me a não me sentir inibida nunca por esse factor. A minha avó era muito dura e não dava tempo para frescuras (risos)...

Se não optasse pela pilotagem, que outra actividade eventualmente julga que poderia abraçar como carreira?

Essa pergunta para mim não tem razão de ser hoje, porque acho que ser piloto representa uma realização. E quando estamos realizados, como é óbvio, o resto é resto.

Importância do descanso


Por tudo o que descreveu atrás, é consensual a ideia de que a pilotagem obriga a optar por uma vida muito regrada?

Não deixa de ser real. Eu, particularmente, durmo quanto baste, pois o descanso é muito importante na profissão de piloto.

Quer com isso dizer que não há, sequer, espaço para recrear ou desanuviar um pouco pelo eventual cansaço que pode provocar uma viagem?

Não é bem assim como o senhor jornalista pinta o quadro. É claro que há espaço para recrear e desanuviar após uma viagem. Eu, por exemplo, depois de um voo, dispo-me da indumentária de comandante, pego em trajes de passeio e vou rua afora conhecer o mundo. Enfim, gosto de viajar durante as minhas férias, optando, sempre que possível, por uma ilha e carregando comigo dois, três ou quatro bons livros, dado que gosto de ler nos tempos livres, ouvir uma boa música e fazer outras coisas que me apeteçam. No fundo, fora das lides da aviação, vamos gerindo o tempo como é conveniente fazer. Há tempo para tudo (risos)…

Mãe presente e carinhosa 

Como se viu ao longo de vários anos no papel duplo de educadora dos seus filhos e dos demais membros do seu agregado familiar?

Tal como disse há pouco, perdi o meu progenitor muito cedo e habituei-me a não me sentir inibida pela falta da presença masculina no meu crescimento e o mesmo diria em relação à educação que passei aos meus filhos. Resumindo, sou divorciada há muitos anos, tenho dois filhos e um neto (mas o segundo já está a caminho). Portanto, já sou mãe há 29 anos e procurei, sempre, ser uma mãe presente, carinhosa e isto porque adoro a minha família. A minha família assume um papel relevante na minha vida.

E de que forma gere o tempo no tocante ao convívio familiar, já que acaba por ser uma mulher com múltiplas responsabilidades? 

Adoro sentir-me cidadã do mundo. De uma forma geral, agora que os meus filhos cresceram, vou me despindo um pouco mais da responsabilidade de mãe. Daí, aproveito da melhor forma possível os meus tempos livres  fazendo o que me apetecer.

Então declina já essa responsabilidade, ou seja, o papel de mãe?

Nem por isso. Os momentos de lazer também procuro passar em casa no convívio com a família, sobrinhos, filhos e netos. Adoro! Preencho ainda esses momentos cozinhando, conversando e brincando com os mais pequenos. Reitero aqui o facto de que cozinho e gosto muito de cozinhar. É, para mim, bastante relaxante (risos)…

Hoje por hoje a aviação continua a ocupar um lugar de destaque na vida de Alexandra Lima? Ou nem por isso?

É inequívoco. Sempre vivi da minha profissão.

PERFIL

Nome
 
Alexandra Maria Chaves Pinto Gomes Lima


Data
de nascimento

5 de Abril de 1964


Naturalidade
Luanda


Filiação
Eugénio Hermínio Gomes Lima
e Luciana Chaves Pinto  


Estado civil
Divorciada


Filhos
Dois (um rapaz
e uma menina)


Formação
Cursos de Pilotagem
(ex-Jugoslávia
e Estados Unidos da América)


Gostos
Boa música
e paz interior


Indumentária
Roupas simples  


Perfume
Desde que seja leve


Cor preferida
Vermelha


Línguas
Português, inglês
e francês


Assédio
Coisa baixa


Homossexualidade
Nada contra


Mentira
Odeio

Corrupção
Prefiro nem falar


Amor
Significa respeito
e muito mais


Sonho
O de todos os angolanos: vida melhor

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