Entrevista

“Sou um contador de dias”

Isaquiel Cori

Jornalista

É impossível num 11 de Novembro não pensar no escritor Manuel Rui. Afinal ele é o autor do Hino Nacional. Mas este ano, por ocasião do aniversário da Dipanda, Manuel Rui é também notícia porque, com a chancela da editora Mayamba, publicou o livro “11 Poemas em Novembro – Ano 8”, continuação da série de poemas alusivos à Independência Nacional. A propósito, e a despropósito, atrevemo-nos a enviar uma bateria de perguntas ao escritor, que ele amavelmente respondeu em tempo útil.

13/11/2022  Última atualização 14H35
© Fotografia por: Edições Novembro

Aos 81 anos sente-se no "cume” da vida? Como Pablo Neruda, está em condições de dizer "Confeso que he vivido”?

Não vivi tudo. Perdi muito tempo a fazer outras coisas. Neruda estava no exílio e dedicava o tempo a escrever. Adoro o filme "O Carteiro de Neruda”.

 

"11 Poemas em Novembro – Ano 8”.  Aqui "Ano 8” é relativo ao oitavo volume da série de poemas ou ao ano oitavo da Independência?

É o 8º ano. Houve anos que não publiquei. Também houve um ano em que publiquei 2 (um dedicado ao passamento de Agostinho Neto).

 

Num ou noutro caso diria que este poemário já deveria ter sido publicado há algum tempo. Por quê que só sai agora?

Deixa cair o poemário. Não é uma coleção de poemas… Podia ter sido publicado antes ou depois. Tem intemporalidade como amar ou roubar. Mas vários condicionalismos desempatizaram a ocasião.

 

São poemas escritos rigorosamente em Novembro? Ou aqui Novembro transcende o mês de calendário e vai mais para Dipanda?

São poemas de celebração do 11 de Novembro. O 11 de Novembro como entidade poética.Repara. Se fossem escritos rigorosamente em Novembro eu só tinha dez dias para escrever! Valha-me nossa senhora da poesia!

 

O que é que o leva a escrever poemas em vez de um romance e vice-versa? Que circunstâncias da vida ou que estados de alma o fazem optar por um género literário ou pelo outro?

É a minha vontade. Até podia escrever anedotas melhores que muita pseudo-literatura que circula por aí. Tenho peças de teatro para serem representadas. Um filme. Um romance recentemente acabado… e por aí.

 

Tem algum romance em processo de escrita?

Acabei um e vou à gaveta para acabar textos de ficção (conto e novela).

 

Atrevo-me a considerar cada um dos seus romances como biografias de cada um dos seus personagens principais. Biografias fictícias. O escritor Manuel Rui tem páginas escritas, inéditas, que possam ser consideradas como fragmentos da sua autobiografia?

Bem, não foi referido um só romance lido. Estamos nas abstrações, Mas não são. Vá lá, é a primeira pergunta de antropologia literária. Eu crio um personagem e tem momentos em que ele me foge e começa uma trajetória como se ele próprio me esteja a descrever-se. Aliás (até tenho um ensaio sobre a matéria) que eu procuro enganar o leitor, dando-lhe a sensação de que não está a  ler mas que lhe estou a contar, é a tentativa de oraturizar a escritafazendo uma aproximação com a tradição oral. 

 

Ou ao invés de autobiografia deveríamos falar em livro de memórias?

Não. Posso falar em memória mas não em livro de memórias. Quase as minhas crónicas.

 

De tudo quanto até aqui já fez, no âmbito da vida de relação com os outros, com o país e com o mundo, de quê que mais se orgulha?

De ser felizmente infeliz.

 

E no estrito campo da criação literária, de tudo quanto até aqui escreveu, o que é que mais o orgulha?

Do que me falta fazer.

 

Como é a sua relação com o Huambo, com os lugares da sua infância? Sente necessidade de os revisitar? Tem memória dos seus amigos de infância?

Relembro tudo. Revisito em pensamento. A antropologia cultural é imensa. Outro dia, no lançamento do livro do saudoso Jaka Jamba, emocionei-me com lágrimas de alegria. Os corais de improviso. A resistência do Huambo e do Bailundo, são coisas que estão afaltar ser escritas, pelo menos, em romance histórico que não é a minha vocação.

 

Lê os novos autores? Tem contacto com os mesmos? O que acha da qualidade dos novos autores?

Leio Ondjaki e gente da Brigada que é o grande futuro da nossa literatura.

 

E o que tem a dizer da prestação da comunicação social no âmbito cultural? O que está bem? O que está mal?

Não há um jornalismo cultural como o desportivo. Os jornalistas vão a eventos, filmam a abertura e vão-se embora. Não escutam o resto. E depois? Anda um delinquente a fazer programas (lusofonias?) para a juventude e largou uma bojarda que eu e o Segadães teríamos alugado uma casa para onde Agostinho Neto foi viver. Isto devia dar procedimento disciplinar e ou despedimentoquiça até comarcã, incluindo o redactor responsável. Você repare neste pormenor: peço para não tirarem os negritos ou itálicos nas minhas crónicas. Vivemos entre pequenos ditadores e o revisor elimina-me itálico e negritos, porque ele manda. Uma vez escrevi cambriquite (cobertor barato que se trocava por um boi com os nómadas do sul). Vai daí o revisor, em vez de me telefonar, usou da sua sabedoria e em vez de cambriquite emendou para cabrito… para trocar por um boi…

Seria bom um seminário sobre comunicação social, cultura e arte.

Quando olha para este "vasto mundo” o que é que mais o preocupa? Acha que as pessoas da sua geração fizeram o necessário e suficiente para as gerações mais novas viverem melhor?

Não. No princípio, fizemos o possível. É uma geração que ajudou à queda do fascismo em Portugal. Viveu a ascenção de Fidel e o idealismo de Che. Conseguimos a unidade nacional. Formaram-se quadros filhos de camponeses. Depois, com a inútil guerra fomentada pela guerra fria. O pior foi a UNIVERSIDADE DA ROUBALHEIRA com marimbondos a picar a torto e a direito. Agora despiorou…

 

Qual é o país africano pelo qual tem um carinho muito especial? E outro que não africano?

Cabo Verde. Já quis viver lá por causa da morabeza. País onde não viveria… Guiné Equatorial… entre outros.

 

Considera-se um velho jovem ou um jovem velho?

Nem uma coisa nem outra mas um contador de dias.

 

Nestes tempos que vivemos o que é que o torna profundamente feliz? E infeliz?

O nascer do Sol. Infeliz: crianças na rua com fome.

 

Vamos supor que acredita na reencarnação. Em que é que gostaria de se reencarnar?

Elefante, hipopótamo ou jacaré… para não me chatearem!

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