Reportagem

“Sou apaixonada por Química e não me vejo a fazer outra coisa senão estudar e ensinar esta ciência”

Alexa Sonhi

Jornalista

Chegar ao nível de professora catedrática é o grande objectivo de Kátia Gabriel, que aconselha as mulheres a não desistirem dos seus sonhos e remata: "podem ter a plena certeza de que o vosso lugar não é apenas na cozinha ou em frente de um tanque cheio de roupa, o vosso lugar é onde vocês quiserem estar”

08/03/2022  Última atualização 09H40
© Fotografia por: Vigas da Purificação| Edições Novembro

Desde pequena, Kátia Cristina Gabriel sonhava em ser professora, mas não sabia, exactamente, que disciplina iria leccionar. Mas, o ano de 1997 marca uma viragem na sua vida, ao se deparar com um professor de Química que explicava de forma profunda e fácil ao mesmo tempo.  

"Não tinha tanta inclinação à Química, mas o professor que tive na 7ª classe me fez perceber que ela tem explicações para vários fenómenos que acontecem na natureza e me apaixonei logo por esta grande ciência", diz Kátia Cristina Gabriel.  

Acrescenta que, ao ingressar no Instituto Médio Industrial de Luanda (IMIL), em 1999, não teve dúvidas sobre que curso escolher. Desde aquela data, a jovem mulher confessa que não se vê a fazer outra coisa que não seja estudar e ensinar Química. 

Ao terminar a formação média e cada vez mais consciente dos seus sonhos, em 2004 Kátia ingressou na Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto e matriculou-se no curso superior de Química, tendo concluído a formação com distinção.    

Enquanto estudante, por ter sido uma aluna aplicada, Kátia dava explicações de Química a colegas que solicitavam. Conta que fazia isso com naturalidade, quer fosse sábado ou domingo, porque o seu principal objectivo era ganhar experiência, para um dia ser professora no ensino superior.  

"Ao concluir a licenciatura não fui logo dar aulas, porque sempre acreditei que para estar no ensino superior precisava de ter mais preparo académico e profissional, para ter bagagem sólida para poder ensinar com mais confiança".  

Kátia diz que aceitou preencher a vaga que existia num Laboratório de Investigação, na área de Química Analítica, isso em 2009 até princípios de 2011, onde ganhou experiência do ponto de vista de investigação Química. Mas, como o seu grande sonho era ensinar Química tal como aprendeu, deixou de trabalhar no Laboratório de Investigação e aceitou o convite para dar aulas na Universidade Católica de Angola, no curso de Engenharia de Petróleos, na disciplina de Química, em 2011. 

No final de 2012, Kátia vê, no Jornal de Angola, um anúncio de vagas para docência no Instituto Superior Politécnico de Tecnologia e Ciências (ISPTEC). Sem pensar duas vezes, a jovem apaixonada por Química se candidatou a uma das vagas e foi seleccionada sem grandes constrangimentos. 

"Fiquei feliz ao ver o meu nome na lista dos apurados e senti que podia realizar o meu sonho, trabalhar num instituto dedicado às ciências, onde a Química tem grande relevância, tendo em conta os cursos ministrados".    

Aos 28 anos, Kátia Gabriel começou a dar aulas no ISPTEC, na disciplina de Química e diz que o primeiro contacto com os alunos, na sala de aula, pareceu estranho, porque "muitos não acreditavam que uma mulher tão jovem e bonita lhes pudesse ensinar Química, com tanta leveza e profundidade". 

Tendo em conta a sua dedicação profissional, a direcção do ISPTEC achou por bem atribuir-lhe, além da docência, a responsabilidade de coordenar os cursos profissionais de curta duração e liderar a equipa que cuidava dos laboratórios da instituição. 

Nestas duas últimas grandes tarefas, Kátia Gabriel desempenhou a sua função com afinco durante cinco anos, tempo que lhe permitiu conhecer um pouco mais a instituição, do ponto de vista de gestão de laboratórios. 

Nomeação para decana 

Como a direcção do ISPTEC sempre esteve atenta às valências dos seus quadros, em 2019 Kátia, na altura com 35 anos, foi nomeada directora do Departamento de Engenharia e Ciências (equivalente a decana de uma Faculdade), funções que desempenha até hoje, com muita responsabilidade. 

"Quando fui nomeada, tive algum medo dada a responsabilidade que me estavam a atribuir, tendo em conta que havia outras pessoas mais velhas e um pouco mais antigas no departamento”, lembrou a docente.  

Dificuldades na carreira 

Logo depois da sua nomeação, o mundo todo se fechou por causa da pandemia da Covid-19. Nesta altura, apesar das suas competências, o medo de Kátia aumentou, porque, como a vida toda não podia parar, tinha de criar novas regras de trabalho.  

"Posso dizer que não foi fácil, porque, por ser jovem e mulher, no início houve alguns problemas de aceitação. Como se sabe, as pessoas têm alguma dificuldade em aceitar ter como líder uma mulher e se for jovem então é bem mais complicado”, disse.  

Tendo em conta a idade e o facto de ser mulher, muitos pensavam que Kátia não teria capacidade para gerir o departamento pelo qual fui nomeada, pelo facto de ter aceite num período tão fechado e com tantas incertezas, como foi o ano de 2019, devido à pandemia da Covid-19.  

Outra dificuldade que Kátia Gabriel enfrentou foi a complexidade do trabalho e a dimensão do mesmo, porque o Departamento de Engenheira tem seis cursos técnicos e possui uma comunidade estudantil e de professores muito grande. 

Hoje, com 37 anos, Kátia Gabriel gere, com afinco, o Departamento de Engenharia e Tecnologia do ISPTEC, que possui 97 trabalhadores com altas qualificações académicas e profissionais, dos quais, apenas, sete mulheres. 

Resiliência  

Para a jovem determinada, que almeja atingir o cadeirão máximo da docência universitária, as mulheres devem continuar a trabalhar para se imporem como seres humanos capazes e, se estiverem devidamente formadas tal como os homens, merecerem as mesmas oportunidades. 

Kátia Gabriel defende que as mulheres devem ser resilientes e, apesar de terem filhos ou marido, não devem desistir de realizar os seus sonhos, quer seja no campo académico como profissional. "Devem acreditar que conseguem e que é sim possível ir-se mais longe, porque se ela não o fizer ninguém fará por ela".  

"Consegui chegar onde estou graças ao apoio dos meus pais, que sempre estiveram ao meu lado. Só tenho a agradecer, porque sem a ajuda deles não teria conseguido alcançar estas metas”, diz, acrescentando que existem pessoas que não tiveram apoio, mas, com muito esforço, conseguiram alcançar os seus objectivos. 

Kátia Gabriel aconselha as mulheres a não desistirem dos seus sonhos e remata: "podem ter a plena certeza de que o vosso lugar não é apenas na cozinha ou em frente de um tanque cheio de roupa, o vosso lugar é onde vocês quiserem estar”.

Mais sonhos  a alcançar 

A par das suas funções como docente e directora do Departamento de Engenharia e Tecnologia do ISPTEC, Kátia frequentou o curso de mestrado da Universidade de Lisboa na área de Química Pura e é investigadora científica na área de Desenvolvimento de Processos de Produção de Biocombustíveis e de Economia Circular. 

Kátia Gabriel disse à nossa reportagem que tem uma agenda muito apertada, mas arranja sempre tempo para as pesquisas, porque, na sua visão académica, "para ser um bom professor não basta dar aulas é preciso investir na investigação científica, porque o ensino superior possui três dimensões: ensino, investigação e extensão universitária". 

Garantiu que continua apostada na formação contínua e que, actualmente, está a fazer o doutoramento em Química Aplicada, também na Universidade de Lisboa. 

Apesar da responsabilidade de trabalho e obrigações académicas na Universidade de Lisboa, Kátia Gabriel nunca pensou em desistir, porque sempre sonhou em ser professora universitária e a sua grande meta é chegar ao nível de professor catedrático, grau máximo da docência no ensino superior. 

"Para se chegar aí é preciso muito trabalho, publicar livros e orientar teses, mas sei que se me dedicar mais e impor maior disciplina chegarei lá, porque, para mim, ser professor catedrático é a posição mais honrosa que um professor universitário pode atingir”.   

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