Entrevista

“Somos obrigados a transformar o Huambo numa cidade ecológica”

Victória Quintas / Huambo

Jornalista

O administrador do Huambo diz que o município tem tudo para crescer. No dia em que a cidade completa 110 anos, Fernando Ferreira Vicente reiterou o desejo de transformar a cidade na capital ecológica do país. O responsável destacou os projectos executados no quadro do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e manifestou a vontade de se fazer no Huambo um centro de rendimento desportivo.

21/09/2022  Última atualização 07H50
Administrador, Fernando Vicente, disse ser preciso preparar a criança a manter a cidade limpa, não atirando lixo à rua © Fotografia por: Francisco Lopes | Edições Novembro | Huambo

Como vê hoje a cidade do Huambo? Que projectos foram desenvolvidos nos últimos anos? 

A cidade tem crescido bastante. Nos últimos 5 anos, cada aniversário é completamente diferente, e este ano coincide com o fim e o princípio de uma Legislatura. Do ponto de vista de infra-estruturas, podemos destacar a implementação de vários projectos, no quadro do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios  (PIIM), como a construção de centros de saúde e escolas. 

 

Qual é o número de infra-estruturas construídas no âmbito do PIIM?  

São nove obras. Uma das escolas foi construída na comuna da Chipipa, onde também há um centro de saúde e uma central eléctrica. Os mesmos projectos também foram erguidos na comuna da Calima e outras na sede do município. Fez-se um exercício de gestão de modo a não se pensar apenas na sede, mas também nas outras comunas, para reduzir a distância e criar condições de base, quer no que respeita ao atendimento hospitalar,  quer na educação. 

 

Quanto às acções de combate à pobreza, o que nos pode dizer?

Além do PIIM, há as acções ligadas ao combate à pobreza. Apoiamos os mais vulneráveis, sobretudo nas comunidades rurais, na aquisição de imputs agrícolas como fertilizantes e sementes. De lembrar que, em relação a estes dois programas, além dos constrangimentos financeiros, houve, também, o problema da seca e a Covid-19, que reduziram o impacto das acções. Temos de dizer que se conseguiu-se a aplicaçãodo Decreto Presidencial que caracteriza o município do Huambo dentro da escala A. Município com um administrador e três adjuntos.

 

O que isso representa? 

Representa uma dinâmica diferente porque, se temos os programas de combate à pobreza e o PIIM, os municípios têm que sobreviver por si só, o que quer dizer que a cultura da arrecadação de receitas, os chamados recursos próprios, depende da capacidade, da iniciativa ou da habilidade que cada um tiver. Quer dizer que,  além do administrador e dos administradores adjuntos, as várias direcções municipais têm que ir buscar todo um conjunto de responsabilidades. 

 

Pode dar exemplo?  

Vamos falar da construção de infra-estruturas, em relação às licenças de publicidade e realização de actos. Este é um processo de consciencialização, porque não basta dar competência, é preciso que quem o dá tenha noção do que está a fazer, mas quem recebe, também tem que justificar por que a recebe. Ao longo destes cinco anos conseguiu-se incutir nos munícipes do Huambo a consciência de que eles próprios  têm que comparticipar. Um exemplo claro tem que ver com a questão do saneamento da cidade, que deixou de ser uma responsabilidade só da administração municipal. O consumidor poluidor está consciente de que se faz lixo, tem que contribuir na manutenção da higiene.

 

Existem meios para que os munícipes participem no saneamento?

A Direcção Municipal do Ambiente e Saneamento colocou à disposição motorizadas de três rodas para que os utentes participem de forma directa na recolha dos resíduos. 

 

Como estão em termos de receitas arrecadadas? 

A nossa arrecadação de receitas não é constante. Posso dizer que o Huambo é o principal arrecadador de receitas que se revertem para o município.

 

Estamos a falar de quanto por mês?

Há dois anos, tínhamos uma meta de 6 a 9 milhões. Hoje estamos entre 14 e 20 milhões de kwanzas por mês. Motivados pelas festas da cidade do Huambo, este mês vamos reparar semáforos que não funcionam, rever a sinalização horizontal e vertical, os repuxos dos jardins, além do saneamento básico e recolha de resíduos, limpeza das sarjetas, que serão feitos com recursos arrecadados pelo próprio município.

 

Quais são os grandes desafios?

Neste momento, estamos com cerca de 999 mil habitantes, há uma projecção de 1,5 milhões de habitantes, o que quer dizer que um outro desafio que a administração conseguiu ter é o alocamento de espaço no ordenamento do território. Conseguimos recuperar um espaço que já esteve infra-estruturado, que será distribuído para a auto-construção dirigida. Trata-se do espaço da localidade do Lufefena, onde já se fez o loteamento para a distribuição e também no bairro de São Tarcisio. Queremos criar espaços infra-estruturados, não só para residências, mas pensar-se em escolas, supermercados, igrejas entre outras infra-estruturas.

 

Quê ganhos pode avançar?

Temos muitos ganhos, com a construção, já na fase final, do Centro Cultural do Huambo, da Fábrica de Vacinas para Animais, as obras em curso da Cinfotec e do estádio do Mambroa. São projectos em curso que representam desenvolvimento da cidade do Huambo. Felizmente, há um alinhamento com o Gabinete Provincial de Infra-estruturas. 

 

Existe algum projecto de recuperação das salas de cinema?

No âmbito da descentralização, estamos com as atenções viradas para os cines São João, Estúdio 404 e Ruacaná, alguns dos quais ficaram adstritos à Igreja, mas o processo de expropriação é complexo. Adormecemos um pouco, pois isso, não depende só da vontade de um ou de outro. Mesmo com o Centro Cultural, cujas obras estão em curso, há necessidade de recuperação das salas de cinema, por causa da caracterização demográfica da cidade. Por exemplo, para quem vai ao bairro R 21, há um crescimento exponencial. Em vez de movimentar as pessoas daquela localidade para assistir a um filme na cidade, porque não levar para lá uma sala de cinema?

 

Já que falou do bairro R 21, sabe-se que está a crescer, mas carece de condições básicas, como vias de acesso e energia eléctrica. O que se está a fazer neste sentido? 

Em relação aos acessos, a brigada mecanizada do INEA está a fazer o levantamento das principais vias no que toca à asfaltagem e terraplanagem. O acesso ao bairro R21, com ou sem chuva, será prioridade. Em relação à energia, adquirimos oito transformadores que vão mitigar os problemas de energia daquele e de outros sete bairros. Estamos à espera da assinatura do acordo de financiamento para desbloquear o processo. O equipamento já está no Huambo, são três geradores de 259 KVA, dois de 400 e outros três de 650. É muita energia, mas, mais do que sonhar, é necessário acreditar. Aliás, temos estado a trabalhar com a comissão dos moradores.  

 

Como está o projecto de transformação do Huambo em capital ecológica?

Somos obrigados, ou melhor, qualquer munícipe é obrigado a fazer tudo para que o Huambo seja, efectivamente, a cidade ecológica, em homenagem ao governador Paulo Cassoma, que começou com o projecto. Por isso, estamos a pensar numa escola inclusiva que obrigue o munícipe a ter em conta que é parte. É preciso que a criança seja preparada para manter a cidade limpa, não pode atirar lixo à rua, as plantas não podem secar. Também é necessário ensinar que cuspir, urinar, defecar, deitar o resto do cigarro na rua é proibido. Queremos jovens que digam não ao álcool, não às drogas, não à delinquência, mas sim ao desporto, porque o desporto faz saúde e não há nada melhor do que a saúde comunitária. Se cada munícipe, onde estiver, souber que tem uma quota de responsabilidade para a ecologia do nosso habitat, teremos ganho um contributo para o Huambo se tornar em capital ecológica. Até porque está em curso a recuperação da orla do rio Calombula, que separa a Cidade Alta da Cidade Baixa, a recuperação da orla do Cuando e fazer com que o Huambo seja um lugar bom para se viver. 

"É uma grande preocupação a província não estar no Girabola”

O Huambo não está representado no Girabola. Isso não o preocupa?  

Para quem viveu um bocado a era do Mambroa, do Petro do Huambo e do Sporting e lembra o quanto o Huambo brilhou, é uma grande preocupação. Actualmente, a Direcção Municipal dos Desportos está a trabalhar no sentido de juntar as vontades de cada representante citado e outros para reavivar o nosso futebol. Está em curso a construção do Estádio do Mambroa, mas é preciso ver quem vai jogar nele. Dar uma palavra de encorajamento às direcções do Clube Ferrovia, do Petro do Huambo, do Sporting, por via da END ou não, que despertem. Precisamos de encontrar soluções para recuperar o campo do Sporting. Repare que há uma forte ligação com o Girabairro.

 

Em relação às outras modalidades desportivas,

Huambo já trabalhou noutras modalidades como em Hóquei em Patins. Estamos a trabalhar com o núcleo para poder avançar, a nível do basquetebol masculino e feminino, bem como o Andebol. Se vamos buscar uma sala de cultura com dança, música, canto, teatro entre outras, o mesmo devemos fazer no desporto; rebuscar os trabalhos do Pedro Luciano, no Atletismo; do Lutukuta, no futebol; do Marques Molusi, Frederico Cachiquengue, Nelito Constantino. Pensamos que, se juntarmos as capacidades instaladas na educação, a nível do desporto escolar, se buscarmos resposta na capacidade que temos no sector da Saúde, como elemento fundamental para isso, associado às nossas condições climáticas, podemos fazer aqui um centro de rendimento desportivo com todas as modalidades. Temos dois pavilhões, por isso, o desporto de salão pode ser bem desenvolvido. No Huambo temos tudo para crescer.

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