Reportagem

Somiluana aposta na renovação do parque mineiro

Leonel Kassana

Jornalista

Presidente do Conselho da Administração diz que investimento em equipamentos de reposição para remoção de material estéril e tratamento do minério pode levar à recuperação de até 20.000 quilates por mês.

16/08/2021  Última atualização 08H10
© Fotografia por: Agostinho Narciso| Edições Novembro
A cerca de 70 quilometros da vila do Lucapa, Lunda Norte, está a concessão do Projecto Somiluana, que se estende por um território de 444 quilómetros quadrados e considerado, por pessoas com conhecimento apropriado, como um dos mais relevantes no sector de exploração de diamantes secundários.

De passagem pelos projectos mineiros no Nordeste de Angola, um grupo de jornalistas nacionais pode constatar as operações desenvolvidas nesse projecto, desenvolvido em diversas áreas ao longo do espaço que conforma a bacia hidrográfica do Rio Luana, no sentido Centro/Sul para o Norte do município do Lucapa, onde se acham várias ocorrências de diamantes aluvionares.

A região de implantação da Sociedade Mineira do Luana tem um histórico de intensa actividade de garimpo, como disseram responsáveis da companhia diamantífera. Era, no limite, uma espécie de "el dourado” e só na zona conhecida por Ferme, próximo do rio Fige, chegaram a estar concentrados mais de 6.000 garimpeiros, sobretudo da República Democrática do Congo e Senegal.
A partir de 2010, esse projecto passou a denominar-se por Sociedade Minera do Luana, tendo como accionistas principais a Endiama, com 39 por cento, Trans-Hex grupo THG, com 33 por cento e os outros 28 repartidos pela Wenji, Zakufuna e Caxinge.

Hoje é, também, das empresas que correspondem à estratégia seguida pela Endiama, para reverter a situação de muitos dos projectos diamantiferos, que se apresentavam, em anos sucessivos, com pouca ou quase nenhuma rentabilidade, pois já traz dividendos para a companhia estatal e garante o desejado fluxo de recursos financeiros para o Estado.

Da pandemia da Covid-19, que afectou todas as empresas diamantíferas, em particular e as economias à escala planetária, a Somiluana não saiu imune, sendo levada a reduzir, de forma significativa, os custos operacionais para o que era considerado o limite mínimo sustentável para a sobrevivência do projecto.
Num quadro adverso, a prioridade foi direccionada às tarefas mais ligadas à produção para mitigar os danos ao fluxo de caixa da empresa.

Um informe partilhado com os jornalistas que estiveram no Somiluana não deixa dúvidas: "Nestas circunstâncias (poucos lucros), as actividades de produção foram mantidas em "stand by” de forma a resistir ao período de sobrevivência e manter o projecto de sustentabilidade aceitável, até que o mercado mundial se normalize e a empresa tenha condições de prosseguir com o programa de prospecção na concessão mineira”.


  Recuperação    a vista
O engenheiro Guilherme Raimundo é o director-adjunto da Sociedade Mineira do Luana. Nosso principal cicerone na mina, foi dele que soubemos que, apesar dos enormes constrangimentos provocados pela pandemia, entre Janeiro e Dezembro, a Somiluana demonstrou uma "economia em fase de recuperação” .

Ele defendeu uma maior aposta numa exploração em zonas com o histórico de pedras de maior tamanho, face às oscilações do preço dos diamantes no mercado internacional, algo que permitiria uma melhor receita e equilíbrio dos custos de produção.

Guilherme Raimundo precisou, em declarações ao Jornal de Angola, que o ano passado foram movimentados, em trabalhos de preparação prévia, 8.674.793 metros cúbicos de estéril, removidos 10.347.445 metros de estéril, extraídos 366. 057 metros cúbicos de minério, do que resultou a recuperação mensal de 6.500 quilates.

Já no primeiro semestre deste ano, a recuperação de diamantes na Somiluana andou à volta dos 5.300 quilates, como resultado da movimentação, em trabalhos de preparação prévia, de 4.369.255 metros cúbicos de estéril, remoção de 6.147.495 metros de estéril e extracção de 225. 322 metros cúbicos de minério.

"Houve uma baixa na produção devido à crise no mercado mundial, provocada pela Pandemia da Covid-19”, explicou Guilherme Raimundo, insistindo, contudo, que tem havido sinais de recuperação dos preços, "embora lenta, devido à escassez do produto no mercado, comprometido por incertezas do mercado mundial”.

Quando perguntado sobre as perspectivas de recuperação de diamantes até final do que resta deste ano,  Guilherme Raiumndo, licenciado em engenharia de minas no Instituto Superior Mineiro Metalurigo em Cuba, prefere ser cauteloso, ao assinalar que "enquanto permanecer o período de incertezas no mercado mundial, não temos outras alternativas, até que a proposta de investimentos seja executado, para aquisição de novas máquinas e equipamentos de produção”.

Em concreto, o director-geral adjunto da Somiluana refere-se a investimentos para a substituição de cerca de 47 por cento das máquinas que garantem as operações nas várias frentes de exploração mineira. "Esses equipamentos encontram-se no limite para substituição, pois atingiram acima de 25.000 a 30.000 horas”.

O responsável da Sociedade Mineira do Luana mostrou os números que reflectem o actual estado dos equipamentos de mineração, que atingiram o limite de tempo de vida útil. São 17 camiões, 10 pás carregadoras e uma moto niveladora, que estão com 25.000 horas de serviço. Doze escavadoras e nove buldozers, totalizam, cada, 30.000 horas. Esses são números relevantes, que mostram o estado do parque da empresa, numa actividade de elevado desgaste de meios técnicos.

As fotos não mentem. Em algumas das frentes, a objectiva de Agostinho Narciso acabaria por registar parte desses veículos pesados do parque mineiro, preparados para actuar em territórios quantas vezes inóspitos, mas algo inevitável na actividade diamantífera. São esses meios que desmatam vastos terrenos, fazem profundas escavações, movimentam o estéril, cascalho e minério.

"A frota da mina, na sua maioria, encontra-se em condições ruins para garantir uma operação adequada”, adiantou o director-geral adjunto da Somiluanda, acrescentando que existem poucas áreas abaixo de 20 metros nas formações calonda (um dos tipos de formação geológica mais importante no Nordeste de Angola), o que causou restrições nos planos mineiro e de exploração.

Guilherme Raimundo adiantou que, devido ao surgimento da pandemia, os investimentos propostos para serem implementados em 2020, para alavancar e melhorar os níveis de produção ficaram comprometidos.
"Houve um retrocesso, não foi possível a sua execução”, palavras do homem que passa mais tempo na mina, como fez questão de sublinhar, enquanto mostrava aos jornalistas as várias frentes, actualmente a produzir a 35 por cento, em resultado das actuais condições de trabalho.

Já em Luanda, o presidente do Conselho de Administração da Sociedade Mineira do Luana, Rosalino Caetano, "abriu o jogo”, ao Jornal de Angola, referindo-se a investimentos em curso e em perspectiva, avaliados em 13 milhões de dólares, esses para a desejada melhoria das operações nas minas. Trata-se de um indicador de que os números de  produção desta companhia diamantífera podem crescer nos próximos tempos.


  Prospecção parada

Como se diz noutro espaço desta peça, o impacto da pandemia foi brutal. As actividades de prospecção encontram-se em stand by. Assim como outras empresas do sector diamantífero, a Somiluana teve de cortar, de forma acentuada, nos custos operacionais, como garantia para a sobrevivência da mina.

Entre provados e remanescentes, em diamantes, a mina Somiluana tem um potencial para ser explorada por um período superior a 20 anos, segundo o engenheiro Guilherme Raimundo, doutorando em "Métodos de exploração -metodologia para a redução das perdas e empobrecimento durante a extracção do minério a céu aberto”.

O especialista está convencido de que "esse é um período razoável de serviço, que permitiria essa mina contribuir, de forma significativa, para o Orçamento Geral do Estado e a melhoraria das condições sociais das populações que vivem próximo do projecto, sobretudo com a disponibilidade de mais empregos”.

Actualmente, essa companhia diamantífera tem um universo de 765 trabalhadores, maioritariamente residentes nas proximidades da área de implantação da concessão, algo muito valorizado pela Somiluana, na esteira da sua responsabilidade social, para o qual destina anualmente 500 mil dólares, segundo Rosalino Caetano.

A exploração mineira é uma actividade particularmente frenética. Na Somiluana não poderia ser diferente. Sobre a sustentabilidade desta mina, Guilherme Raimundo acentua o controlo dos custos operacionais, maximizando os lucros, bem como os parâmetros e índices de produção, evitando a morosidade das máquinas durante a remoção do estéril e extracção de minério.

Há, também, preocupações com a redução das distâncias de transporte e deposição de estéril e local de sctock do minério, bem como o aperfeiçoamento do sistema de organização das frentes de trabalho e melhoria da disciplina, numa actividade que carrega, sempre, algum melindre. Fomos levados a testemunhar obras de construção de uma ponte dentro da concessão, para encurtar as distâncias entre as áreas de extracção do minério e as lavarias.

"Para obter melhores resultados, é fundamental a contínua mobilização dos trabalhadores, para melhoria do seu desempenho, responsabilidade, assiduidade e harmonia”, como adiantou o mineiro, que revelou em seguida, a estratégia adoptada, para lidar com o garimpo dentro da área de concessão da Somiluana.

Referiu, a propósito, que o combate ao garimpo de diamantes no extenso perímetro da concessão conta com o concurso de efectivos de segurança da AF- 5 e segurança industrial, seguindo um plano estratégico, desenvolvido nos arredores da Somiluana. "Com esse trabalho tem sido possível impedir que acções desta natureza tenham sucesso aqui. Quando apanhados, os garimpeiros são apresentados às autoridades policiais do município de Lucapa”, esclareceu, sem dar mais detalhares.

Investimento social A companhia diamantífera procura, permanentemente, aperfeiçoar o seu programa de integração com as comunidades em que está inserido, algo que é feito através de "políticas concretas”, no quadro da crescente responsabilidade social. Em bairros, como o de Satchindele, próximo do acampamento, foram construídos fontenários de água, um posto de saúde para os trabalhadores da mina e outro para os seus dependentes.

Às autoridades tradicionais (sobas, sobetas e regedores) é distribuída mensalmente um cabaz alimentar, depois de terem recebido motorizadas, como revelou Guilherme Raimundo, adiantando que a pintura do Hospital Municipal do Lucapa contou, tambem, com o apoio dessa diamantífera.
Mas não é tudo, pois existem outros apoios pontuais, como combustível e bens para autoridades do Lucapa, que minimizam as dificuldades na reabilitação de algumas infra-estruturas, sobretudo vias de acesso.


Números da somiluana

Os números disponibilizados, em Luanda, pelo seu presidente do Conselho da Administração, mostram uma Somiluana num processo de resiliência, a ter como referência os resultados do primeiro semestre de 2021. São, a bem dizer, cifras "interessantes”. Se durante todo o ano de 2020, a receita ficou em 44 milhões de dólares e prejuízos na ordem dos três milhões, até Junho estavam já contabilizados 31 milhões.

Cauteloso e porque "vai depender de muitos factores”, como o próprio referiu, Rosalino Caetano evitou falar da receita esperada do que resta deste ano. Indicou, contudo, que a estimativa para 2021 é de 72 milhões de dólares, muito acima da receita do ano precedente, a traduzir franca recuperação.

As últimas três vendas confirmaram a valorização dos diamantes da Somiluana, com o preço a fixar-se em 822 dólares por quilate. São dados avançados pelo PCA desta sociedade, que desde a sua constituição, em 2010, fez investimentos sucessivos que totalizam 57 milhões de dólares.
Mais optimista, o líder da Somiluana referiu que, com a reposição dos equipamentos fora do prazo, para a remoção de material estéril e tratamento do minério, em linha com o plano de investimentos, a recuperação de diamantes pode chegar, progressivamente, aos 20.000 quilates por mês.


 Plano Ambiental

Na Sociedade Mineira do Luana, a protecção ambiental nas áreas de exploração é permanente, com a reposição da flora. Nesta altura, mais de 1.600 árvores de fruta estão disponíveis próximo das zonas de intensa actividade mineira, mas o director-geral adjunto da Somiluana indicou que a ambição é chegar as 3.000, num espaço de tempo razoável, na esteira da política ambiental, traçada pela empresa.

Como que a sustentar essa ambição, Guilherme Raimundo explicou que o Conselho de Administração da Somiluana aprovou um Plano Director Ambiental, que contempla acções de curto, médio e longo prazo.
O mineiro referiu-se, nomeadamente, primeiro, a acções para retornar os rios ao seu traçado original, terraplanagem dos caminhos para as áreas exploradas e a reposição do material retirado dos diferentes espaços, com o que se evita o surgimento de ravinas, muito frequentes na regiao Leste.

A revegetação natural dos diques centrais, plantação de mudas da região ou daquelas com melhor adaptação, para o possível retorno de algumas espécies animais são outras tarefas a desenvolver num período até cinco anos, enquanto a longo prazo (10 anos), projecta-se, sobretudo, o retorno de espécies aquáticas, melhoramento da paisagem, bem como a protecção da flora e fauna.

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