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Só um país cumpre as metas do Acordo de Paris, a Gâmbia

A poucos dias da cimeira do clima de Glasgow, onde é esperado que os países anunciem cortes nas emissões de gases com efeito de estufa, apenas um, a Gâmbia, nação africana, cumpre o acordo de Paris sobre redução de emissões.

01/11/2021  Última atualização 09H40
© Fotografia por: DR
De acordo com estimativas independentes e científicas, referentes a este mês, das organizações que elaboram o índice Climate Action Tracker (CAT), só o pequeno país africano está no caminho de cumprir as metas definidas no Acordo de Paris, alcançado em 2015, para evitar um aquecimento do planeta superior a 1,5 graus celsius (ºC), acima dos valores da era pré-industrial.

Há dois anos, a Gâmbia já estava na linha da frente da luta contra as alterações climáticas, a par de Marrocos, que está agora no grupo de países com metas quase suficientes para cumprir o acordo de Paris, a par da Costa Rica, Etiópia, Quénia, Nepal, Nigéria e Reino Unido.

A União Europeia - na escala de cores do CAT em que a verde aparece apenas a Gâmbia e os "quase lá” estão a amarelo - aparece no grupo dos países cor de laranja, com metas insuficientes e no mesmo grupo de países como o Chile, o Japão, o Peru, a África do Sul ou os Estados Unidos, entre outros. Os Estados Unidos estavam há dois anos na lista negra, que representa os piores países do mundo em termos de metas para evitar um aquecimento global, que os cientistas consideram catastrófico para a humanidade.

O CAT é produzido por duas organizações, a Climate Analytics e o New Climate Institute, e rastreia as promessas e políticas climáticas de 37 países/regiões, cobrindo cerca de 80% das emissões globais de gases com efeito de estufa.
O Acordo de Paris, assinado por praticamente todos os países do mundo em 12 de Dezembro de 2015, pretende ser um plano de acção, assente em compromissos concretos dos países, para limitar o aquecimento global a menos de 2ºC, de preferência menos de 1,5ºC, acima dos valores médios da era pré-industrial.

Segundo o CAT, as medidas da União Europeia são insuficientes, permitem um aumento de temperatura que ultrapassa os 2ºC, mas ainda assim o bloco está no bom caminho.

A vermelho, com medidas altamente insuficientes, estão 15 países, entre eles grandes economias e grandes emissores de gases com efeito de estufa, como a Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, China, Índia, Indonésia, México ou Ucrânia, cujos compromissos de redução de emissões resultam num aumento do aquecimento global que ultrapassa os 3ºC.
Em situação crítica, na lista negra do CAT, estão seis países, praticamente sem medidas para conter as emissões de gases com efeito de estufa. A Federação Russa, Arábia Saudita, Irão, Singapura, Tailândia e Turquia estão neste grupo e, pelas suas políticas, diz o CAT, e a temperatura global aumentaria 4ºC.

O CAT foi actualizado há menos de duas semanas, mas a Climate Analytics e o New Climate Institute dizem que desde Maio, quando foi feita a última actualização, quase nada mudou em relação às promessas de redução de emissões de gases com efeito de estufa. Desde Novembro do ano passado, um reduzido número de países concluiu as suas propostas de redução de emissões para 2030.

Por isso, as duas organizações consideram ser "absolutamente necessário” que mais Governos aumentem as chamadas "contribuições nacionalmente determinadas” (NDC na sigla original) de redução de gases com efeito de estufa.
"Há demasiados, especialmente entre os grandes emissores e países desenvolvidos, que ainda não o fizeram. Cerca de 70 países não actualizaram de todo as suas NDC”, segundo a organização.

O esquema de classificação do CAT foi alterado e tornado mais abrangente, juntando as políticas, a acção e as metas de cada país/região, classificando agora 37 países/regiões, mais quatro do que anteriormente: Nigéria, Irão, Tailândia e Colômbia.

Dos 37, apenas a Gâmbia tem uma acção climática global compatível com o Acordo de Paris. Em sete países, a acção climática global é quase suficiente, o que significa que ainda não são compatíveis com o limite de 1,5ºC, mas podem alcançar esse patamar com pequenas melhorias, e os restantes três quartos dos países analisados têm "lacunas significativas” na acção climática.

No CAT a União Europeia deu "grandes passos” na mitigação das alterações climáticas em 2020, como o chamado "Green Deal”, ou a aprovação já este ano da Lei Europeia do Clima.

No entanto, a acção climática da União Europeia, segundo as organizações que compilam o índice, ainda pode melhorar, "especialmente em torno da aceleração da eliminação gradual do carvão, aumentando o financiamento da acção climática no estrangeiro, e indo além do actual objectivo de redução das emissões” de gases com efeito de estufa em 55% até 2030.

Ásia registou o ano mais quente de sempre em 2020

Ásia teve o ano mais quente de sempre em 2020, alertaram esta semana as Nações Unidas, antes da cimeira climática da COP26.

No relatório anual sobre o estado do clima na Ásia, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou que toda a região tem sido afectada pelas alterações climáticas.

"O clima extremo e as alterações climáticas na Ásia em 2020 causaram a perda de milhares de vidas, deslocaram milhões a mais e custaram centenas de biliões de dólares”, disse a OMM num comunicado.

"O desenvolvimento sustentável está em risco. A insegurança alimentar e hídrica, os riscos para a saúde e a degradação ambiental estão a aumentar”, afirmou.


No relatório, a OMM também faz um balanço das perdas económicas anuais devido a riscos climáticos.
Estes são estimados em 238 mil milhões de dólares na China, 87 mil milhões na Índia, 83 mil milhões no Japão e 24 mil milhões na Coreia do Sul.

"Os riscos climáticos e meteorológicos, particularmente inundações, tempestades e secas, tiveram um impacto significativo em muitos países da região”, disse o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, citado na mesma nota.
Em 2020, as inundações e tempestades afectaram cerca de 50 milhões de pessoas e causaram mais de 5.000 mortes.


Estes números são inferiores à média anual das duas últimas décadas (158 milhões de pessoas afectadas e cerca de 15.500 mortes) "e reflectem o sucesso dos sistemas de alerta precoce em muitos países asiáticos”, de acordo com a OMM.
O ano passado foi o mais quente de sempre na Ásia, com a temperatura média 1,39 graus Celsius acima da média de 1981-2010.

No final de Junho de 2020, foram registados 38°C em Verkhoyansk, no Nordeste da Sibéria, Rússia, que é provisoriamente a temperatura mais alta registada a Norte do Círculo Ártico.

Em 2020, as temperaturas médias das águas superficiais atingiram níveis recorde nos oceanos Índico, Pacífico e Ártico.
No relatório, observa-se também que as temperaturas à superfície do mar nos oceanos asiáticos estão a aumentar mais fortemente do que a média global.

Por exemplo, o Mar Arábico e partes do Oceano Ártico aqueceram mais de três vezes a média.
Os glaciares na Ásia estão a recuar a um rítmo acelerado e a OMM prevê que "a sua massa diminuirá em 20-40% até 2050, afectando a vida e a subsistência de cerca de 750 milhões de pessoas”.

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