Opinião

Só se safou quem tinha telefone de botão...

Horácio sempre se manifestou como um bom contador de histórias, um bom empolador de factos, narra os acontecimentos como se os tivesse vivido, descreve entrevistas como se tivesse sido o entrevistado. E sempre bem-humorado. Foi assim ao contar o assalto de que foi vítima na noite do passado 27 de Junho, quando dois jovens munidos de armas de fogo renderam os ocupantes de uma viatura que fazia o serviço de táxi em direcção à Vila de Viana.

25/07/2021  Última atualização 07H30
© Fotografia por: DR
Era mais uma noite de domingo, como as outras em que Horácio saía feliz do trabalho, depois de, através de um programa de uma das rádios de Luanda, ter ajudado a curar corações feridos, corações magoados, senão mesmo destroçados devido a abandonos ou traições. Ou ainda alimentar a esperança de gente desesperada por não ser amada.


Pouco menos de cinco minutos, segundo as contas de Horácio, foi o tempo que precisaram dois jovens marginais para romper o silêncio da alegria que estaria a encher a alma de alguns, aumentando o desassossego de outros passageiros que se encontravam na viatura, na noite escura que envolvia uma grande parcela da Avenida Deolinda Rodrigues. Só os faróis das viaturas e das motorizadas permitiam ter a noção de que se trafegava pela Avenida.


"Os bandidos subiram junto a pedonal do Grafanil. Um era alto, estreito, com a tez escura, e levava consigo uma mochila azul e uma AKM móvel, enferrujada”, começa por contar.
Este sentou-se atrás de Horácio, num dos assentos do meio, enquanto o segundo jovem, um mestiço, usando óculos escuros, cabelo alisado, bem vestido, bem-parecido, estava à frente com uma pistola apontada ao motorista.


O jornalista revela que no princípio não estava atemorizado. Porém, ficou fora de si quando observou uma arma ao seu lado, percebendo que era uma coisa séria.
Segundo Horácio, chegados à Estalagem onde o táxi parou, o homem que estava à frente virou-se para os passageiros "dizendo que não pretendiam ‘fatigar’ ninguém”, por isso precisavam manter a calma.


Depois disso, entrou em acção o jovem de trás, tirando a arma que trazia numa mochila e passou-a a apontar aos passageiros.
Seguidamente, pediu dinheiro ao cobrador, que apenas lhe mostrou as moedas que se encontravam sobre o assento do banco da frente, alegando que acabavam de entrar na via. O cobrador recebeu a advertência do jovem com a pistola, que o aconselhou a "evitar que tivesse os miolos estourados na viatura”.

"Esses n’guessos é para você e o motorista, nós queremos o dinheiro”, era a voz do que estava sentado mais atrás, referindo-se às moedas.
O cobrador tentava ludibriá-los, com a justificação de que tinham saído do mecânico e só tinham aquele dinheiro, o que obrigou o outro marginal a manipular a arma, chamando a atenção a todos de que "poderiam começar a fatigar o cobrador” e quem se viesse a manifestar.
Seguidamente, num tom mais brando, apelou que se começasse a colocar os telemóveis na sua mochila.

Um cidadão, que se presumia ser árabe, esclarecia que do telefone dependia a sua vida, porquanto nele tinha muitos contactos que não podia perder, oferecendo-se a entregar os cinquenta mil kuanzas que carregava consigo. Os marginais anuiram. Depois de receberem o dinheiro, pediram-lhe que entregasse também o telefone.


Horácio decidiu entregar um telefone, os chamados de botão, o que terá aborrecido um dos marginais que voltou a lembrar que não queriam "fatigar ninguém”.
Foi aí que começou o seu dilema, já que o marginal sugeriu-lhe escolher: entregar o telemóvel digital que deveria estar a esconder ou a mochila que tinha consigo. Era uma mochila onde, segundo revelou, guardava os seus documentos e mais cento e cinquenta mil kwanzas de um amigo.
E ouvindo o sussurro de uma voz de mulher que o aconselhava a entregar o telemóvel, assim o fez. Era uma mulher que acabava de ser desapossada de um iphone que custara ao namorado cento e cinco mil kwanzas.

Na paragem da Estalagem, junto ao quintal da antiga praça, onde os marginais decidiram descer, o jovem da pistola alerta ao motorista a manter todos os passageiros na viatura até que apanhassem uma motorizada. E caso abrissem as portas da viatura, queimá-la-iam.

Com as armas em riste atemorizaram dois motoqueiros com os quais mergulharam na escuridão.
A senhora do iphone chorava desconsoladamente. O telefone só estava com ela fazia uma semana. O taxista e o seu cobrador decidiram trabalhar no domingo, o dia dedicado ao seu descanso, porque no sábado o carro estava no mecânico e precisavam ganhar o dinheiro da semana, já que de segunda a sexta-feira é para o patrão.

Naquela noite, Horácio, há algum tempo sem carro, ganhou consciência de como é "aterrorizador estar diante de uma arma de fogo”. Mas, garante que ainda conseguiu acalmar os colegas de uma viagem coberta pelo pavor em pouco mais de cinco minutos de martírio, em que todos diziam que "era azar”.
Para casa voltaram sãos e salvos. "Mas com telefone, só os que tinham os de botão”, remata.
António Capapa

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