Opinião

Sinais e imagens

Manuel Rui

Escritor

É frequente vermos em filmes americanos, um avô, deleitado, a contar, apaixonadamente, uma história para adormecer o seu neto ainda pequeno e sem saber ler. Aí o cota reinventava para o garoto a luta de David contra Golias. Que David era um jovem pastor hebreu, frágil, desengonçado, que passou o vale e na planície encontrou o gigante guerreiro filisteu Golias.

25/11/2021  Última atualização 08H15
O gigante usava uma armadura metálica e ostentava uma enorme espada. David era inteligente. Tirou do alforge uma das pedras que apanhara no chão. Colocou-a na funda. Tomou balanço, girou, girou e no arremesso atingiu Golias nos olhos. O gigante caiu e David tomou-lhe da espada e cortou-lhe a cabeça. Fiquei incomodado pois não se conta a uma criança tanta violência. Qual quê! O neto disse para o avô que David não era tão esperto assim porque se fosse tinha atirado contra Golias uma granada, uma bazucada, um drone com uma bomba ou podia ter pedido emprestado à Coreia do Norte um míssil.


Quando o avô começou a completar a narrativa do episódio bíblico, invocando o escritor Malcom Gladwell, sobre a arte de combater os mais fortes que atacam os mais fracos e que o que ele contara era para aprendermos a não ser violentos, já o neto tinha adormecido.  O avô quando lhe deu sinais…o neto devolveu-lhe imagens do quotidiano. Aqui, quem me dera estar rodeado de netos para me fazerem cafuné e eu contar histórias até adormecermos todos.


Íamos dentro de um carro a caminho da TPA gravar no carrocel da cambuta celestial Mayel. A criança era eloquente a falar do leão que lhe haviam mostrado com um celular telefonando. "Foi o que eu mais gostei da história que o meu avô me leu e mostrou os desenhos.” Fiquei contente pois a figura principal era a girafa e assim alargava o leque de amigos dos bichos da história.Na hora começou a gravação. A apresentadora contava a história da girafa com o livro na mão.


Eu a olhar olhos nos olhos para o admirador do leão do outro lado, de olhos muito abertos. A dada altura, fiz sinal e chamei-o para junto de nós. Ele, agora, estava deste lado, frente às máquinas de televisão… Estava a ser filmado. Olha lá, fala-me do leão que tanto gostaste da história. "Eu acho que é preciso investigar como é que um leão anda com um telefone celular.” Eu dava-lhe sinais e ele respondia com imagens da realidade, falar na televisão é diferente. É preciso a autocensura. É preciso investigar.


Quando andávamos pelo museu do Aljube, antes cadeia, passei por vários painéis até que cheguei a um onde estava uma série de poemas que acabava com um de Agostinho Neto que, instintivamente comecei a cantar pela música de Rui Mingas. "Minha mãe (…)”. Era um sinal para milhentas imagens. Nas mãos de um cineasta aquele plano poderia ser transformado em música, flores do mato ou crianças brincando o zero. Aquilo que para quem não é artista ou não gosta de arte e não entende o movimento de um plano cinematográfico seria apenas um postal.


Cada vez mais é preciso reaprender todos os sinais. Mesmo os sinais do nosso corpo para nos conhecermos e entendermos os outros. O Mukishi ou o Xinganji, dançando com máscara, dão sinais de um sistema nervoso e muscular e que rebentam da natureza para as imagens do fingimento. No oriente a cultura Yoga e outras intuem sinais ao corpo para a transcendência da imagem do equilíbrio vital. E os sinais dos tigres dão as imagens da calma e serenidade aos monges budistas. Agora, aqui no nosso continente, há sinais dados pelas árvores das florestas. Sinais que chegam ao ser humano e aos animais de mais memória como os elefantes e desses sinais se registam imagens filtradas pelo sol.


E as flores do mato, como os malmequeres do Huambo colorido, semeados pela própria terra, dando sinais para as imagens das cores sem as quais não haveria vida. E há pessoas que conversam com as plantas e elas gostam desses sinais para as imagens do silêncio.
Também, pouca gente repara mas sente os sinais das pedras. As grandes pedras que parecem eternas e a que se costuma dar nome. As pedras dão sinais de magnetismo que sentimos pela imagem de preservar a natureza. E há sinais também indispensáveis à vida. São os sinais da arte. Os sinais da estatuária. Os sinais da poesia. Os sinais do romance. Os sinais do teatro. Os sinais da pintura.Os sinais da música.Os sinais da dança. E tantos sinais que se acrescentam à vida imagens de quase transcendência. E o cinema que absorve todas as artes para nos prender os olhos para as imagens que ser multiplicam no nosso imaginário.


E é quase um crime filmar como fazer postais. São coisas diferentes. Dos sinais mais bonitos da minha infância foram os das bolinhas de sabão, daquelas grandes, mudando de cor e eu via rebentar com a imagem de fazer muitas outras pequeninas, umas atrás das outras num colorido em busca do infinito e ainda hoje escrevo a pensar em bolinhas de sabão… Quem me dera bolinhas de sabão para todas as crianças do meu país!

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