Cultura

Simbolismo da peça “Mzombo” retrata costumes da cultura Leste

Mário Cohen

Jornalista

O “Mzombo”, com grande simbolismo histórico para os povos da região Leste do país, é obra do mês exposta, no Museu Nacional de Antropologia, em Luanda, que marca a reabertura das actividades culturais e visitas guiadas à instituição.

22/07/2022  Última atualização 09H55
Instituição museológica retomou as actividades culturais paralisadas durante algum tempo devido à pandemia da Covid-19 © Fotografia por: DR
Em declarações ontem ao Jornal de Angola, o director do museu, Álvaro Jorge disse que o objecto é uma saia usada depois do ritual de circuncisão dos jovens dos grupos étnicos Nyaneka-humbe e Côkwe.

Segundo o director do museu, a exposição tem com objectivo mostrar à sociedade a riqueza cultural da peça museológica, o seu valor, enquanto uma prática e costume milenar. "Queremos com a mostra incentivar a juventude a conhecer mais sobre a importância da peça em determinado contexto sociocultural”. O director explicou que, a circuncisão, é uma prática antiga realizada em vários continentes como o africano, americano e na Oceânia. Entre os povos Bantu habitantes no país, referiu que o  objecto é também utilizado para a prática de cultos religiosos e outras manifestações culturais.

Álvaro Jorge frisou que a peça exposta no museu pertence ao grupo etnolinguístico Ngangela.  A peça é uma saia feita de fibra vegetais usada pelos jovens depois do ritual de circuncisão tradicional, enquanto estão na "mukanda”, um pequeno acampamento, onde ficam durante o tempo que a ferida vai sarar. 

Álvaro Jorge adiantou que a circuncisão é um ritual de passagem de crianças para a adolescência dos oitos e 18 anos de idade. Alguns casos, lembrou, o acto é praticado a recém-nascidos em alguns grupos dos Nyaneka-humbi, bem como aos adultos já casados.

A circuncisão, descreve, é feita sempre em época de cacimbo, na qual os Côkwe e Nyaneka-humbi, juntam um número de jovens e acampados, ficam distantes da aldeia num período de seis meses ou três anos.

Acrescenta que no operatório é usado uma pequena faca (tetúlia em Côkwe), e recorrem aos sons dos batuques para "abafar” os gritos de dor dos adolescentes no acto de circuncisão, e desta forma evitar o despertar da curiosidade das povoações.

Depois do corte do prepúcio, o operador entrega-o ao "Tchilobola” (responsável dos jovens), que tem a missão de enterra-lo junto de uma árvore, assim como para estancar o sangue,  uma mistura de água com remédios compostos de óleo de palma, cinza e uma planta com finalidade de favorecer a cicatrização.

Álvaro Jorge revelou que enquanto estiverem acampados, é impedida a presença de pessoas estranhas, principalmente de mulheres, sob pena de sofrerem grandes castigos pela curiosidade.

No local, assegura, os jovens circuncidados são submetidos a todo o tipo de provas como aprender a pescar, caçar e recolher frutos comestíveis para a sobrevivência suportando assim o frio e o calor.

No fim da aprendizagem, que também envolve o conhecimento geográfico do habitat, a preparação física, os conhecimentos morais e psicológicos, afirma, que doravante, os mesmos estão preparados para regressar à comunidade como homem e são recebidos com músicas e danças. Reza a tradição, segundo o director, o jovem que não for circuncidado pode ter consequência no futuro, como ter filhos com deficiências físicas e serem descriminados na sociedade, por serem consideradas pessoas "não puras”.

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