Opinião

Sim ao direito à greve abaixo ao vandalismo

Adebayo Vunge

Jornalista

Embora uma semana depois, é incontornável que olhemos para os eventos de Luanda, na passada segunda-feira, 10 de Janeiro de 2022.

17/01/2022  Última atualização 09H05
Quando faço este exercício de analepse, não estou a condenar a manifestação e a greve dos taxistas. Esta é totalmente legítima, mesmo que não concordemos, amiúde, com os seus argumentos e o que se invoca no caderno de encargos.

Numa coisa temos de ter frontalidade em dizer, os nossos candongueiros espalham caos na cidade. É muita confusão total nas suas paragens. E se não são os responsáveis, são parte do problema. E digo isso, sem prejuízo dos benefícios que trazem para o dia-a-dia da mesma cidade. Não podemos deixar de reconhecer que eles ainda são a maior solução de transporte e mobilidade nas nossas cidades, particularmente em Luanda. Gostemos ou não.
Mas o que aconteceu no passado dia 10 de Janeiro é grave porque revela uma insensibilidade extrema por parte da população, sobretudo de alguns jovens que estão dispostos, de animo leve, a partir para a violência total, não importa contra quem. Por isso, não é admissível agredirmos os outros ainda mais na forma como o fizeram. Com pedras e garrafas contra o pessoal da saúde e os jornalistas. Aqui chegados, pouco importa a profissão dos agredidos. A agressão é condenável e ponto!
Por outro lado, a gravidade do dia 10 de Janeiro tem causa e consequências que não podemos deixar de olhar, sendo de realçar que o direito à manifestação e à greve não podem colidir contra o direito à vida e o respeito à propriedade alheia. E numa hierarquia de direitos, o direito à vida prevalece sobre os demais.
A causa é o aproveitamento dos taxistas para, naquele dia, fazerem uma manifestação de força resultando numa frustrada paralisação das actividades profissionais, sobretudo daquelas que dependem grandemente destes para circular. O que os taxistas associados devem perceber é que a greve é um direito, mas os taxistas não são obrigados a aderir todos. Não se pode molestar aqueles que não aderem a sua greve, seja porque razão for. E molestar aqui é uma palavra bonita. É mesmo agredir os taxistas e os populares que circulassem nas viaturas dos que não pretendiam aderir. Ora, a organização sindical dos taxistas precisa urgentemente de perceber isso.
Julgo que as negociações continuam, mas era oportuno, em nome dos "consumidores”, que os representantes do Governo colocassem nessas negociações o fim, em definitivo, das chamadas rotas curtas que são uma verdadeira roubalheira e uma violação grave aos direitos dos consumidores, manobra muitas vezes utilizada para preservar a rentabilidade face a eventos que a condicionem. Outros aspectos poderiam ser igualmente colocados no caderno de encargos em nome de uma maior urbanidade dos candongueiros.
Destarte, a problemática dos transportes públicos em Luanda é um verdadeiro dilema sobre o qual devemos prestar grande atenção pois não só condiciona os cidadãos como o próprio desenvolvimento económico e social. A mobilidade é nevrálgica ao desenvolvimento.  E é por isso que Luanda precisa de um sistema de transportes de complementaridade e que funcione em cadeia no sentido de atender os grandes eixos e aglomerados populacionais. Tudo isso para reforçar a necessidade do metro. Tudo isso para pedir um maior controle às empresas que recebem os autocarros e não os colocam em circulação. Tudo isso para manifestar o quanto é urgente a rentrée  dos catamarãs.
Portanto, não sendo propriamente uma classe especial, a verdade é que os taxistas merecem o nosso respeito, mas não devemos subalternizar a ordem pública em prol destes. Entretanto, é urgente uma postura de maior dialogo com os parceiros sociais em diversos níveis, um investimento maior na consciencialização das pessoas sobre os seus direitos e deveres, colocando por isso a educação no centro da governação. Aplaudo daqui o regresso às aulas, não obstante o contexto pandémico actual.
A mudança que esperamos e desejamos só será alcançada com uma maior educação formal e não só das pessoas. Colocar a família no centro da sociedade, para que os valores que tanto apregoamos sejam incutidos nos mais jovens a mesa de uma refeição. E colocar, por fim, o emprego no centro de toda a governação. É o emprego que gera renda e confere dignidade às pessoas. Para lá de todo o aproveitamento político que se possa invocar, faltou educação, valores e emprego aos que se colocaram na primeira fila para apedrejar médicos e outros profissionais que saíram de suas casas para contribuir com o seu saber e labor em prol de uma Angola melhor.  
 

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