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Sidney Poitier, o negro que veio para um jantar e gerou o amor

A notícia da morte de Sidney Poitier, um dia depois do desaparecimento de outro vulto do cinema americano, Peter Bogdanovich, deixa-nos com a sensação de que algo do ADN da Hollywood clássica está cada vez mais distante. Bogdanovich conservava-o pela memória e a cinefilia, mas Poitier, que morreu sábado, em Los Angeles, aos 94 anos, fez parte dessa Hollywood e ajudou a mudá-la por dentro, usando fato, gravata e um sorriso pronto. É esta postura de estrela bem-apessoada que nenhum homem negro antes dele conseguiu alcançar numa indústria cinematográfica que demorou tempo a descobrir personagens negras, para além do lugar-comum das empregadas e dos escravos.

11/01/2022  Última atualização 06H15
Sidney Poitier © Fotografia por: DR
Na vez em que Poitier foi escravo na grande tela, no filme Band of Angels (1957), de Raoul Walsh, não o foi em sentido absoluto - surge como alguém educado pelo patrão (Clark Gable), que se veste de acordo com a alta sociedade e guarda ressentimentos. Ou seja, alguém que vê na bondade do seu superior uma forma de escravatura e apressa-se a desafiá-lo. Papéis como este, que está entre os seus primeiros, ajudaram a quebrar um ciclo na representação afro-americana dentro dos grandes estúdios.

Na verdade, Poitier fez a diferença desde a sua estreia em Falsa Acusação (1950), Joseph L. Mankievicz, onde interpreta um médico a braços com pacientes racistas (contava então 22 anos, mas terá dito ao realizador que tinha 27...). O respeito que conquistou no cinema, porém, não veio sem dores de crescimento. Andava a lavar pratos em Nova Iorque, quando se deparou com um anúncio de casting no American Negro Theatre.

 E nessa primeira tentativa, este filho de agricultores era tudo menos um talento óbvio: o sotaque cerrado que trazia das Bahamas - onde passou a infância, embora tenha nascido em Miami - e as dificuldades de leitura, pelo baixo nível de escolaridade, valeram-lhe uma recusa humilhante. Que doeu, mas não o derrotou.

Ao movimento do esfregão da loiça juntou então um rádio ligado e começou a imitar os locutores - é daí, desse trabalho de entoação da voz, que vem parte da presença que Sidney Poitier deixou no cinema. Antes disso, foi porteiro de um teatro (para pagar aulas de interpretação), passou ao palco, desde logo, para substituir Harry Belafonte, e não foi preciso mais do que dois anos para os produtores de cinema repararem nele.

Ao alcançar o patamar desejado, fez questão de não repetir o modelo servil que até ali escrevera a história dos negros no grande ecrã. E o certo é que Poitier prosperou junto dos cineastas que corroboraram a sua exigência na definição do perfil das personagens, ao mesmo tempo que, através dele, se ia alterando a percepção do público sobre os actores afro-americanos.

Sementes de Violência (1955), de Richard Brooks, onde surge como um jovem delinquente reabilitado pelo professor (Glenn Ford), foi o filme que lhe conferiu popularidade até, em 1959, se tornar no primeiro negro a ser nomeado ao Óscar, na categoria de Melhor Actor, por Os Audaciosos, de Stanley Kramer. Daí até arrecadar a estatueta dourada, em 1964, na mesma categoria, pela personagem de um itinerante que constrói uma capela no deserto do Arizona, foi um saltinho. Com esse filme de Ralph Nelson, Os Lírios do Campo, Poitier assinalava uma mudança tangível no reconhecimento dos actores negros (recorde-se que, até àquele momento, a atriz Hattie McDaniel, de E Tudo o Vento Levou, tinha sido a primeira afro-americana "oscarizada” num papel secundário, que era uma das suas 74 interpretações de criada...).

Na autobiografia intitulada The Measure of a Man, Poitier sublinha a importância da tal postura elegante, de fato e gravata, acompanhada pela firmeza da expressão facial. A memória dessa imagem cuidada pertence sobretudo à década de 1960, e de modo particular ao ano de 1967, onde saltam à vista três obras essenciais do seu percurso: O Ódio Que Gerou o Amor, de James Clavell, com Poitier na pele de um professor que desperta admiração numa turma hostil (invertendo o seu papel em Sementes de Violência); No Calor da Noite, de Norman Jewison, em que, na qualidade de detective, dá outra lição de respeito a um agente da polícia (Rod Steiger); e o célebre Adivinha Quem Vem Jantar, novamente de Kramer, com a dupla Katharine Hepburn e Spencer Tracy (este no seu derradeiro trabalho), centrado no "tema" do casamento inter-racial. Com Guess Who"s Coming to Dinner, Poitier ficou também para a história como o primeiro negro a beijar uma actriz branca no ecrã, com direito a final feliz. Não admira que no ano seguinte fosse votado o actor mais popular na América.

Essa popularidade, muito assente na sua imagem "civilizada" na tela, valeu-lhe críticas por parte de alguns membros da comunidade negra. Mas o certo é que tudo o que ele fez - e muito devido à sua esculpida atitude nobre - abriu portas aos actores e actrizes negros que se lhe seguiram. Entre eles, Denzel Washington, que o considera o seu mentor.
A mãe, humilde, lançara a profecia: "Ele vai andar com os reis. Vai ser rico e famoso. O seu nome chegará a todo o mundo." Sidney Poitier foi um príncipe em Hollywood, um senhor para a eternidade.

In "Diário de Notícias”

Inês N. Lourenço |*

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