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Sete por cento do ouro do Mundo pode estar no lixo

As medidas de isolamento tomadas por governos em todo o mundo devido à pandemia da Covid-19 resultam numa forte diminuição de agentes poluentes no ar. Mas, se o mal deixou de vir de cima, ela chega-nos por baixo: pela terra, pelos rios e oceanos.

20/07/2020  Última atualização 15H55
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A queda da emissão de gases poluentes tem sido detectada por várias entidades e laboratórios, entre os quais a Agência Espacial norte-americana, a NASA. Além dos EUA, o facto foi constatado na China, Coreia do Sul, Itália e Índia.

Com o encerramento das fábricas e a menor circulação de automóveis, o nível de materiais particulados de nitratos (PM2,5), partículas com uma espessura inferior a de um cabelo humano, causado pela queima de combustíveis fósseis, diminuiu significativamente desde Janeiro, segundo dados avançados pela Reuters.

Os PM2,5 são tão pequeninos que conseguem penetrar com muita facilidade nos pulmões e entrar na corrente sanguínea. A inalação dessas partículas pode causar doenças cardíacas e cancro. Outras melhorias foram registadas com a redução dos níveis de dióxido de nitrogénio, dióxido azoto, enxofre, PM10 e PM5, ambas partículas finas poluentes invisíveis, inaláveis e perigosas.

Na Europa, mudanças positivas foram sentidas em todo o continente, com destaque para a Itália, onde as águas dos canais de Veneza tornaram-se transparentes, a ponto de permitirem que se visualizassem os peixes, o que atraiu inúmeras aves. As mudanças foram tão rápidas que alguns jornalistas chegaram a dizer que a Covid-19 havia posto a poluição mundial em quarentena.

Os descartáveis

Contudo, a pandemia provocada pelo novo coronavírus trouxe outro tipo de preocupações ao ambiente: a poluição provocada pelos materiais descartáveis, como máscaras e luvas. A obrigatoriedade do uso de máscara em muitos locais do planeta levou à massificação desse equipamento.

Os especialistas lembram que a Terra tem hoje quase oito mil milhões de habitantes, que, para se protegerem, precisam diariamente de biliões de máscaras e de luvas, o que representa um brutal aumento na produção e consumo de material plástico ou de fibras sintéticas, considerados os maiores inimigos dos oceanos.

Só a China, o maior fabricante mundial, produz cerca de 200 milhões de máscaras por dia, mil milhões por semana, quantidade insuficiente para atender a todos os pedidos do Mundo.

O World Wild Fund for Nature (WWF) refere que, mesmo que só um por cento das máscaras sejam descartadas de forma incorrecta, isso corresponde a 40 quilos todos os meses. O peso de cada máscara é de cerca de quatro gramas e um por cento equivale a 10 milhões de unidades por mês.
A esse utensílio juntam-se as luvas, feitas maioritariamente com plástico. A organização alertou que, a longo prazo, podem surgir outros problemas para o ambiente.

“É necessário evitar que esses dispositivos, uma vez perdidos, tenham um impacto devastador nos nossos ambientes naturais e, principalmente, nos nossos mares”, afirmou Donatella Bianchi, presidente da WWF Itália.

Uma vez que grande parte do equipamento de protecção individual é composto por materiais descartáveis e estes ainda não serem devidamente reciclados, o que se pede é que sejam deitados no lixo, para que não acabem nas ruas, passeios e parques e venham a entupir as redes de esgotos das grandes cidades. Em Paris, por exemplo, máscaras e luvas de látex passaram a ser encontradas nas ruas e parques.

A maldição dos plásticos

O que os especialistas defendem é que sejam tentadas todas as alternativas existentes para evitar o uso de plásticos na produção de materiais e equipamentos de protecção da Covid-19, pois estes não são a solução.

Embora todos, de forma geral, se mostrem favoráveis ao uso de máscaras durante a pandemia, a poluição permanecerá além da Covid-19 e, no caso dos oceanos, o problema ficará para sempre.

“Com uma vida útil de 450 anos, estas máscaras são uma bomba ecológica, devido às consequências ambientais duradouras que constituem para o nosso planeta”, escreveu Éric Pauget, um político francês da região de Côte d’Azur, numa carta enviada ao Presidente francês, Emmanuel Macron.

Os materiais mal descartados acabam sempre nos oceanos, onde a sua presença pode ser letal para vários peixes e tartarugas, que acabam por ingerir as luvas ao confundi-las com medusas ou emaranhados nos elásticos e fitas das máscaras.

Só o Mediterrâneo já tem de lidar todos os anos com 570 mil toneladas de plástico. É como se 33.800 garrafas de plástico fossem lançadas ao mar a cada minuto. A ONU estima que 13 milhões de toneladas de plástico entravam nos oceanos todos os anos antes da pandemia, uma ameaça à vida marinha. Isso antes da pandemia.

Com o confinamento das pessoas em casa, algumas espécies selvagens recuperaram os seus antigos habitats, mas regista-se um incremento dos serviços de entrega em todos os sectores, sobretudo na restauração.

A entrega de comida já confeccionada é feita preferencialmente em embalagens de plástico, cujo descarte acontece de forma menos criteriosa que as demais usadas de forma geral no comércio electrónico.

A nova situação causada pela pandemia leva-nos a questionar se a decisão da União Europeia de proibir o plástico de uso único a partir de 2021 será mantida.

Lixo electrónico

Além dos materiais descartáveis usados na protecção da Covid-19, no comércio e na restauração por entrega, outro tipo de poluição recrudesceu com a pandemia: o lixo electrónico. Um relatório da Plataforma para Aceleração da Economia Circular (PACE) e da Coligação das Nações Unidas sobre o Lixo Electrónico, divulgado em Davos, Suíça, em Janeiro do ano passado, estimava que o nível de produção de lixo electrónico global deverá alcançar 120 milhões de toneladas ao ano, em 2050, se as tendências daquele momento permanecessem.

A PACE e a ONU apelavam na altura para a adopção de uma economia circular, na qual os recursos não fossem extraídos, usados e descartados, mas avaliados e reutilizados de forma a minimizar os impactos ambientais e criar empregos decentes e sustentáveis.

De acordo com o relatório, o valor anual do lixo electrónico global é superior a 62,5 mil milhões de dólares. Em 2017, foram produzidas mais de 44 milhões de toneladas de lixo electrónico e eléctrico, o equivalente a mais de seis quilos para cada habitante do planeta.

Desse lixo, cujo peso equivale ao de todos os aviões comerciais já produzidos, menos de 20 cento é formalmente reciclado. Os restantes 80 por cento vão para aterros sanitários ou são reciclados informalmente, expondo os trabalhadores a substâncias perigosas e cancerígenas, como mercúrio, chumbo e cádmio.

Ao ser colocado em aterros, o lixo electrónico contamina o solo e os lençóis freáticos, risco para os alimentos e recursos hídricos. Materiais brutos escassos e valiosos, como o ouro, platina e outros elementos terrestres raros, são assim perdidos.

Estima-se que 100 vezes mais ouro esteja presente numa tonelada de lixo electrónico que na mesma quantidade de minério desse metal, ou seja, que até sete por cento do ouro do Mundo pode estar no lixo electrónico.

Com a pandemia, aumenta o uso de equipamentos electrónicos, como celulares e computadores, e eléctricos, como televisores e geleiras. A economia circular significa que esses recursos passem a ser avaliados e reutilizados para minimizar os impactos ambientais e criar empregos.

 

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