Opinião

Será que existe uma raça humana?

Estamos condenados a ver o mundo a partir – e através – do nosso “ângulo de visão” e do nosso posicionamento, que são resultado de um conjunto de factores que incluem a nossa origem, a nossa condição social e a concepção que construímos do mundo.

24/04/2022  Última atualização 07H55

Aos angolanos e portugueses que celebram o 25 de Abril

 

"Eu preciso ser contundente e honesto: o mundo não trata a raça

humana da mesma maneira. Alguns são mais iguais que outros”

 Talvez por isso não seja descabido que uma grande parte dos cidadãos deste mundo viva com o sentimento de que um dos grandes males que afecta a Humanidade – medido pela nossa própria e sempre curta experiência de vida – seja a diferença e a injustiça, tão visíveis na condição humana, ligadas à côr-da-pele.

Quem pronunciou, a 14 de Março as palavras que escolhemos para exergue foi Tedros A. Gehebreyesus – biólogo e académico nascido em Asmara (Eritreia) – e que já alertara para a mesma problemática no âmbito da guerra contra a CoViD-19. Na verdade, ele  tinha-se pronunciado,uma semana antes,de uma maneira bem mais específica: "Não sei se o mundo dá realmente uma atenção igual às vidas dos negros e dos brancos”.


Que linha terá sido pisada (e por quem?) para que um Director Geral das Nações Unidas faça uma afirmação tão contundente e corajosa sobre um estado de coisas que nada tem de novo? Quis lamentar as condições de "origem” e de vida que marcam profundamente a Humanidade (como as diferenças raciais e de rendimento) por serem tão persistentese dificilmente modificáveis, mesmo nas instituições que têm como missão promover a justiça e a equidade?

E como somos "negros”, fazemos parte – como país, como nação – dessa "raça” que não é tratada,quando agredida,da mesma maneira que os ucranianos, achamos e temos o direito-e-dever de assumir que – escravatura e colonização em apoio – estamos entre os mais desiguais.

O que nos leva a ousar esta problemática  sensível é a necessidade de se considerar que ela envolve todos os "não-brancos”. Incluindo os de côr-de-pele branca que em África nasceram ou se embrenharam na sua cultura e forma de viver. E, vai de si, incluindo também os descendentes da miscigenação, vivendo no continente ou tendo já nascido nos quatro cantos do mundo por  os seus ancestrais terem sido deportados ou neles se tenham exilado.

A forma de expressão do Director-Geral da Organização Mundial da Saúde(no cargo desde 2017)tem algo de ambíguo, mas compreensível, pois percebemos que o que ele terá querido dizer é que a desigualdade não está intrinsecamente na "raça” (não haverá uma só "raça”, a humana?), mas na capacidade que têm (ou não) as diferentes comunidades humanas actuais de transformar a injusta ordem internacional prevalecente. Mais ainda, importa também perceber: que "mundo” é esse que (como diz ele) trata as "raças” desigualmente?


E no nosso pequeno "mundo angolano”: como andamos de desigualdades? Como somos tratados uns e outros? E… de que "raça” somos? Diferenciamo-nos em função das "raças” a que pertencemos ou dos "níveis de riqueza” que possuímos? (Pergunta que o Dr. Gehebreyesus  já terá provavelmente feito relativamente ao seu próprio país…).

A nossa ministra da Saúde teria todo o direito de dizer o mesmo que o Director-Geral da OMS ("Alguns angolanos são mais iguais do que outros!”), e com a mesma indignação…

Apesar da luta para o reconhecimento de direitos iguais para todos os seres humanos, o tratamento discriminatório está ainda profundamente enraizado na nossa cultura e nas nossas instituições.

Mas importa termos plena consciência de que nossa angolana condição de "negros” (africanos que carregamos o pesoda opressão civilizacional de que fomos vítimas) é constituída por uma argamassa muito particular– também existente nos demais países africanos colonizados por Portugal – que é muito menos marcada noutros países africanos: uma riqueza "rácica” e cultural, resultado do longo processo de colonização, e muito especialmente da luta pela descolonização!

Os brancos que a colonização foi trazendo às latitudes angolanas são não só os que instrumentalizaram a escravatura e a opressão, mas também os que se sentiram simplesmente humanos e superaram a "condição racial”, ao ponto de a nossa História contar (na própria obra de descolonização e de construção da nação e da pátria) com um interminável número de homens e mulheres de côr-de-pele branca que são plenamente angolanos.

Ao evocar este tema num dia tão especial como o de hoje, 24 de Abril, não podemos deixar de o ligar à tecitura da sociedade que somos, onde as "questões raciais” não têm evoluído de forma adequada apesar da Independência.

Também não podemos deixar de recordar  que o ponto-de-viragem para que a nossa pátria enveredasse por um caminho (ainda muito imperfeito) de superação dessas lamentáveis "diferenciações rácicas” com que se caracteriza o mundo – como evoca o DG da OMS – foi o 25 de Abril de 1974, permitindo acelerar a Independência Nacional, que teve lugar 566 dias mais tarde.

Razão mais do que suficiente para darmos valor à Revolução dos Cravos (e para saudar a Associação 25 de Abril de Angola!).

Aprofundar a abordagem e a discussão sobre as barreiras artificiais que ainda nos perturbam (raciais e outras) não nos levaria a um melhor entendimento para a construção da nação com que sonhamos?

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