Opinião

Ser africano hoje

Editorial

Ser africano hoje representa desafio e esperança, constitui uma oportunidade para repensar as bases em que assentam as nossas sociedades, as rupturas e recomeços, mas fundamentalmente a ideia de que nada está perdido e que está tudo em aberto.

21/05/2022  Última atualização 07H35

Sendo a região com a população mais jovem do planeta, contendo as maiores reservas de água, terras aráveis em abundância, clima propício e ambiente adaptável às exigências provocadas pelas energias limpas, nada justifica o "afro-pessimismo", em voga em numerosas mentalidades.

Embora esteja entre as regiões do mundo que mais poderão sofrer com as alterações relacionadas com o aquecimento global, o continente pode fazer destas perspectivas factor de oportunidade, em vez da dimensão problemática com que eventualmente se tende a encarar a nova conjuntura.

Independentemente dos problemas com os quais se confronta, em que se destacam, com alguma particularidade, a componente ligada à (in)segurança alimentar, à instabilidade política e militar em algumas regiões do continente, o baixo rendimento da maioria das populações dos Estados africanos, tais realidades são passíveis de serem resolvidas com soluções africanas.

A ideia de soluções africanas para os problemas africanos deve prevalecer, sem prejuízo para ajuda e contributo de entes estrangeiros cuja parceria com os Estados africanos seja assente rigorosamente na base do win-win para ambos os lados.

Hoje, ser africano é acreditar firmemente de que a melhor forma de ajudar o continente não passa pela imigração, pelos investimentos fora de África em detrimento do contrário,  realidades que infelizmente afectam a economia africana no geral. Não há dúvidas de que grande parte da "desertificação" do continente, com a imigração de milhares de jovens, com a retenção ou aliciamento de "cérebros africanos" lá fora, entre outras práticas que privam o continente do que seria a sua principal base de apoio para o desenvolvimento, se deve também, em muitos casos, à ausência de políticas públicas viradas para a juventude. É verdade que, regra geral, há um grande esforço da parte dos países africanos no sentido de atrair e criar condições para "reter" localmente a franja de "cérebros", que podem estar à mercê das potências ocidentais, tidas também como promotoras da histórica fuga de cérebros.

As  elites económicas africanas devem repensar os moldes em que assentam os investimentos, aquisições e iniciativas, no quadro do processo normal, legal e compreensível de criação de riqueza. Embora sejam compreensíveis as razões e motivações que as levam a relegar em segundo plano parte das  suas acções no continente, em virtude da segurança e rentabilidade, não há dúvidas de que aquelas duas condições começam a consolidar-se em África. A política de exportação de emprego, de enriquecimento das ex-metrópoles, entre outras práticas que podiam ser efectivadas em África, para o bem do continente, devem ser repensadas porque numerosos países asseguram investimentos e retorno. 

Ser africano hoje é também defender energicamente soluções africanas para os problemas  africanos e nisto, não há dúvidas de que as elites políticas deverão dar o esperado  exemplo, cingindo-se mais aos actos e menos às palavras.

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