Opinião

Sem licença e sem o devido respeito

Manuel Rui

Escritor

Com licença. E com o devido respeito. Os meus itálicos e negritos, devem ser virulentos. Por isso hoje vou escrever em maiúsculas o que seria negrito ou itálico.

01/12/2022  Última atualização 06H00

De Zubara no Qatar, um importante porto comercial na região da antiguidade. A palavra "Qatara” apareceu pela primeira vez num mapa de Ptolomeu do mundo árabe.

A transcrição internacional é Qatar. O brasileirismo e aportuguesamento é que lhe chamam Catar.  Mas nas televisões, TPAfrica e outras tantas mundo fora é Qatar…no concurso para quem ficava com o campeonato chamou-se sempre Qatar. Em português tem verbo catar mas é de piolhos, lêndeas, pulgas ou chatos, quer dizer, procurar. É um verbo.

Vou transcrever títulos de vídeos:

FIFA: INDEMNIZA OS TRABALHADORES MIGRANTES DO QATAR.

O mundo assistiu ao SORTEIO DO MUNDIAL 2022 NO QATAR.COPA DO MUNDO DO QATAR DEFINIRÁ SEUS     GRUPOS…

SORTEIO DOS GRUPOS DA COPA DO QATAR.

QATAR AIRWAYS

QATAR NATIONAL BANK (QPSC)

O brasileiro que escreve Catar (abrindo acentuando os dois ás…absurdo), quando toca a combú já é QATAR, assim:

A QATAR AIRWAYS TEM UM VOO DIÁRIO ENTRE SÃO PAULO E  DOHA 14HS, MAS A QATAR AYRWAYS É A MELHOR COMPANHIA AÉREA DO MUNDO, E A VIAGEM É BEM AGRADÁVEL. ELES TÊM AVIÕES NOVOS, PREÇOS COM BOM CUSTO X BENEFÍCIO  E EXCELENTE ATENDIMENTO.

 

Aqui, o brasileiro não fala em voos para o Catar pois não tem voos para matar piolhos ou chatos…

Aqui, a TPA faz o balanço do campeonato no Qatar.

Quando eu fui redator para literatura da histórica revista VÉRTICE de Coimbra, choviam colaboradores que viriam, alguns a ser celebridades. Eu é que decidia a aprovação dos textos a publicar. Se tinha dúvida, com humildade, telefonava e tudo se resolvia. Muitas vezes o erro era meu. Difícil, quando chegavam os textos idos à censura prévia e traziam os riscos do lápis censor, normalmente era uma criatura militar, gorda, careca e de palito na boca. Aí, eu comunicava ao censurado, podia ser Saramago ou outro para arranjar maneira de mudando um verbo ou introduzindo piada como "a história é a sucessão dos sucessos sucessivos que sucedem sucessivamente sem cessar…e numa hora de cesta, a arrotar a bagaço, o censor deixava passar o texto graças a um arroto. Agora eu não posso ser censurado com um verbo só porque o brasileiro umas vezes chama (dizem português do brasil) Catar outras Qatar. Qatar é o nome oficial. Nós não podemos censurar um texto com um erro sem nada dizer ao autor, um telefonema ou colocar em nota de rodapé : o autor usa Qatar.

 Quem quiser mandar encomendas ou correio tem a empresa QATAR POST… não tente Catar…porque o correio ou a encomenda nem sai daqui.

…E no "Jornal de Angola (20/11/2022) Mundial do Qatar arranca este domingo. Então e o Catar é quando apetece?

Não há nenhuma determinação legal para copiarmos os  brasileirismos e portuguesismos para tocar num nome de um país de uma cultura árabe. O tempo das Cruzadas acabou.

Mas pior, é alterar o título do texto sem passar cavaco ao autor. Isto já é ilicitude como outras duas que vou referir. O problema é o do significante que alarga o significado. "Ana Clara & Companhia é diferente de: A companhia Nacional de Dança Contemporânea. Da mesma maneira que Messi e sua equipe é diferente de Messi & Companhia. Em Messi & companhia é significante, eu também lá  estou, somos milhões. O mesmo com a Clara e muita gente que a ama como uma diva. Mas quem autorizou a alteração? Delicadamente perguntei mas ninguém responde. Que nome é que se dá a isto? Daqui a pouco mando um livro para o editor e ele, sem mais nem menos altera o título.

Sempre me disponibilizei. Quando os nossos corações batiam contra a ignóbil  atitude dos que queriam trocar um cadáver por uma amnistia, fui demandado em minha casa, pelo JA, para escrever um texto sobre Eduardo dos Santos. Aceitei e emprestei uma fotografia da nossa presença na ONU para ouvirmos o reconhecimento e assistirmos ao subir da nossa bandeira. Escrevi por entender estar em causa a honra e dignidade do nosso país e do nosso estado. Admiro a função de jornalista e penso quão difícil é escrever um editorial todos os dias, com horas roubadas ao sono e convívio familiar.

Mas há inadmissibilidades.

Pior. No lançamento do meu último onze poemas em Novembro, duas cerimónias sobressaíram. A amostragem táctil da primeira bandeira feita à mão por duas senhoras na prevenção das bandeiras industriais não chegarem a tempo. Muita gente quis tocar e ver os defeitos da bandeira.

Depois, foram expostas as cartas que Malangatana Valente, meu grande amigo, um dos maiores artistas plásticos do séc. XX, me enviava com desenhos e o pedido que as guardasse para, no fim, mandá-las para a sua fundação. Os documentos, emoldurados, estiveram expostos com proibição de filme ou fotografia. Depois foi feita a entrega à embaixadora de Moçambique que agradeceu visivelmente emocionada.

No entanto, por infinito absurdo, a 15 de Novembro, o JA publicou: "A embaixadora de Moçambique em Angola entregou obras do artista plástico moçambicano Malangatana.” E noutro texto, datado de 16 de Novembro    "…. O escritor Manuel Rui Monteiro esteve na sede da União dos Escritores angolanos (UEA) a efetuar a sessão de venda e autógrafos da sua mais recente obra literária intitulada "11 Poemas em Novembro Ano 8”, Durante a sessão Manuel Rui Monteiro foi surpreendido com um momento insólito. A embaixadora da República de Moçambique, Osvalda Joana, surpreende o escritor, com várias prendas de autoria do artista plástico Malangatana, a principal referência nestas lides daquele país. "

…É que nem houve sessão de autógrafos!

Será que "algumas pessoas foram deitar as cinzas de Manuel Rui ao mar como foi seu desejo” e depois, na notícia, " Manuel Rui foi lançar as cinzas de algumas pessoas ao mar…”

Com licença. E com o devido  respeito.

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