Cultura

Sem amarras religiosas

Analtino Santos

Jornalista

Fazem parte da trilha sonora das cerimónias da Semana Santa a música sacra, uma corrente mais para “dentro”, assim como sonoridades mais para “fora” com mensagens de exaltação a Deus. Miguel Buila, Irmã Sofia, Bambila, Guy Destino, Beth Mambo, Glória da Lu, Lioth Cassoma, Dodó Miranda, Nsimba Reoboth, Irmã Soly, Kalupeteka, e outros, são alguns dos artistas que apostam e são conhecidos neste último segmento da música, que é chamado gospel, evangélico ou cristão.

17/04/2022  Última atualização 09H30
© Fotografia por: DR

Existem artistas não identificados e muitas vezes rotulados como "mundanos”, em cujos trabalhos têm temas com mensagens com o espírito "cristão”, um fenómeno mundial também presente na nossa música. São exemplos Pedrito, Anselmo Ralph, Yola Semedo, Os Kiezos, David Zé, Minguito, Ary, Banda Movimento, SSP, O2, Pérola, Patrícia Faria, Telma Lee... enfim, uma grande lista onde também se inclui Laton Cordeiro, antes conhecido como Laton dos Kalibrados.

Pedrito, o "ancião” dos românticos, os SSP e Anselmo Ralph, dois dos mais importantes fenómenos musicais dos últimos anos, em comum não têm apenas o romantismo nas composições. Fruto da educação no seminário católico, Pedrito tem apresentado canções nesta vertente. SSP e Anselmo Ralph, com obras discográficas como "99% de Amor” e "A Dor do Cupido”, cantam louvores como "Oh Meu Senhor, Meu Salvador” e "Hosana”. O quarteto, constituído por Big Neto, Jef Brown, Paul G e Kudy, conseguia trazer o que cada um dos seus integrantes absorveu nas igrejas evangélicas. Anselmo Ralph faz o mesmo em canções como "Fim do Mundo”, "Meu Melhor Amigo”, "Vem nos Ajudar”, "Ando com Jesus” e outras, onde este cantor da Soul e R and B nacional traz uma tradição das estrelas da "black music” americana. 

 

Ninguém caminha só

Neste pequeno exercício ficam de fora vários outros músicos, quer por falta de espaço, quer por falta de "motivação” ou inspiração divina. Pérola deixa uma forte mensagem em "Ninguém Caminha Só”, Érika Nelumba canta a "Luz que Brilha em Mim”, Yola Semedo rende-se ao divino em "És o Poder”, tal como em "Agradeço”. Telma Lee canta "Efatá”, Yobass (Yola Araújo e Bass) cantando pedem "Acrescenta Senhor”, Caló Pascoal desperta os incautos em "Fim do Mundo” e Jeff Brown, com Jay Lourenzo, também em momento de viragem cantam "Obrigado Senhor”. Estes e outros cantores trazem nas suas músicas a carga da religiosidade cristã e africana.

Totó ST, com o seu álbum "Filho da Luz”, penetra nos corações daqueles que gostam de mensagens desta linha. O perdão e o amor determinam as composições do artista, que antes, em "Fé” e "Luz” surgiu em parceira com os rappers dos Géneses.

 

Ligação antiga ao sagrado

Fruto da forte presença e da quase imposição desta corrente religiosa (não é por acaso que celebramos vários feriados cristãos), há o risco de se passar a ideia de que os nossos louvores apenas são cristãos. 

Aliás, existe a tendência de datar a nossa história e as manifestações culturais à presença colonial portuguesa e às tradições cristãs. Com  a música acontece o mesmo. Mas quem pesquisa e vai às fontes da música tradicional encontrará a evocação a uma Divindade. Nos batuques, antes repelidos e hoje adoptados pelo cristianismo, o amor, o perdão e o respeito estão presentes. Isso constata-se, por exemplo, de forma natural, nos temas das principais referências da música tradicional angolana: Socorro, Tunjila Tua Jokota, Baló Januário e Dilangues do Ambaka, cujos temas são tocados nas cerimónias fúnebres como sendo gospel, pois as mensagens são acolhidas neste sentido.

Com a forte presença das igrejas protestantes, adventistas e baptistas, a província do Huambo conta com uma forte tradição de música religiosa, apimentada com provérbios e saberes ovimbundu, o que é facilmente visível nos mercados e táxis.

Quando a Banda Movimento chamou Day Doy para interpretar "Tá Amarrado”, uma composição de Kintino, esta tradição voltou a ser recuperada. Quando no passado encontramos artistas como David Zé, Carlos Lamartine, Lilly Tchiumba, Os Kiezos e Minguito a pedirem e a agradecerem a Nzambi, Suku, Tata (alguns dos nomes do Altíssimo), bem como a santos católicos, percebe-se que para os artistas angolanos, a inspiração em Deus é espontânea e sem amarras religiosas, tal como cantou Eduardo Paim em "Nzambi Za”.

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