Reportagem

Sedentários podem ter músculos agredidos e vários órgãos do corpo em disfunção

Alexa Sonhi

Jornalista

Desde à adolescência, que Neusa Correia ganhou o gasto pela prática de actividades físicas. Como vivia no bairro São Paulo, Distrito Urbano do Sambizanga, em compainha das amigas, descia o Eixo Viário quatro vezes por semana para praticar exercícios físicos, como caminhadas, subidas e descidas de escadas e, por vezes, fazer aulas em grupos.

10/03/2022  Última atualização 06H20
© Fotografia por: DR
Com o tempo, o prazer pela actividade física foi  aumentando, ao ponto de Neusa Correia se inscrever num ginásio, para começar, também, a fazer musculação, a fim de ter o corpo devidamente definido, o que, de facto, funcionou na altura. Isso, valeu para a jovem, dois anos mais tarde, a vaga de preparadora física estagiária.

 

"Ao frequentar o ginásio,, evoluí muito rápido na minha postura corporal, porque era muito exigente comigo mesma e, dificilmente faltava aos treinos. E, nesta fase, por conta dos exercícios, eu era muito activa, mais disposta e não me lembro de ter desenvolvido alguma doença que me levasse tantas vezes ao hospital. Eu não gostava de ficar parada, tinha de movimentar o corpo”.

Cansada de tantos exercícios de musculação, Neusa decidiu aprender outros desportos. Por isso, passou a andar de bicicleta e começou a  praticar o voleibol  de praia, transformando a Ilha de Luanda como seu refúgio favorito, porque todas as manhãs de sábado e domingo é lá onde se concentrava para poder jogar voleibol de praia. 

Numa das partidas de voleibol de praia, Neusa Correia sofreu uma forte lesão na perna esquerda, o que a levou a colocar gesso durante três meses.  Como estava impedida de fazer grandes movimentos com os pés, Neusa desenvolveu outros gostos. Passou a se interessar por teatro  e pintura, o que lhe roubava mais tempo e deixando, aos poucos, a prática de exercícios para o segundo plano, mesmo depois da sua recuperação. 

"Além destas actividades que me ocupavam muito, depois me casei, engravidei e, como se sabe, cuidar de casa e dos filhos exige muito tempo, e quase não tinha espaço para mim mesma, então desisti mesmo de fazer exercícios físicos. E, como consequência, ganhei muito peso, me canso com facilidade  e, hoje, estou com quase  125 quilos, por conta do sedentarismo em que me envolvi”. 
 

Passados quase dez anos, Neusa Correia descobriu que é hipertensa e com tendência a desenvolver diabetes, tendo em conta a sua predisposição genética. O seu pai morreu vítima dessa segunda doença, e já dois irmãos mais velhos vivem com a mesma enfermidade.   

Apesar de muito esforço para ajustar a agenda das suas actividades diárias, Neusa não consegue tempo para voltar a praticar exercícios físicos  que, agora, lhe foram recomendados pelo médico, de forma a reverter a sua situação de saúde, além dos medicamentos que tem de tomar diariamente para controlar os níveis tencionais.  

 

Problema de saúde pública  

À semelhança de Neusa Correia, várias pessoas se tornaram sedentárias, apesar de terem no seu currículo uma longa história de actividades físicas . E, em Angola, apesar de não existirem ainda dados oficiais, estima-se que a maior parte da população seja sedentária por conta da cultura e falta de hábitos na prática desportiva. 

O sedentarismo traz ao reboque várias doenças, desde, há muito, que é considerado um grave problema de saúde pública que, além dos adultos, também, afecta muitas crianças e adolescentes. E uma criança sedentária pode tornar-se num   adulto obeso. Mas, afinal o que é o sedentarismo? 

O especialista em Saúde Pública, Jeremias Agostinho define sedentarismo como  a falta ou ausência de actividades físicas ou desportivas, resultando, assim, numa redução de gastos calóricos. O médico salientou, ainda, que uma pessoa é considerada sedentária quando não consegue gastar o mínimo de 2.200 calorias por semana com actividades físicas. O indivíduo activo deve gastar, no mínimo, 300 calorias por dia.

De acordo com Jeremias Agostinho, no caso específico de crianças e adolescentes sedentários, é importante que  os pais e as escolas promovam actividades que incentivem o movimento corporal para que de forma consciente ou inconsciente eles saiam do sedentarismo.  

Jeremias Agostinho, que é também pediatra, afirmou que, hoje, muitas crianças e adolescentes substituíram o acto de brincar por assistir televisão,jogar vídeo-games, usar computadores e tablets e celulares, além da falta de exercícios. Esta franja, acrescentou, tendem a se alimentar mais de coisas doces  e refrigerantes, o que contribui muito para a obesidade.

 

Causas do sedentarismo  

Na visão do especialista em Saúde Pública, as causas do sedentarismo podem ser múltiplas  e estar relacionadas com mudanças de hábitos, adopção de novo estilo de vida, alguns alegam a falta de tempo para actividades físicas e uma situação bem real em determinadas zonas é a falta de espaços para a prática de exercícios.  

"No nosso país, em particular, vê-se, nos últimos tempos, várias construções  de edifícios ou outras infra-estruturas nos locais que, habitualmente, eram usados para a prática de futebol, basquetebol e outras actividades recreativas.  Isso por si só já reduz muito a possibilidade das pessoas praticarem desporto”.  

Outra situação apontada pelo médico tem a ver com a forma desordenada como as cidades todas estão a ser construídas, por não serem devidamente urbanizadas, além de que muitas zonas estão esburacadas. "Isto cria um certo receio a quem quer praticar exercícios físicos,  por conta das lesões que podem surgir, caso o terreno não seja adequado”. 

 

 Consequências  

Jeremias Agostinho explicou que o sedentarismo provoca a regressão funcional dos músculos, perda de flexibilidade nas articulações, compromete o funcionamento de vários órgãos e reduz os níveis das suas actividades e, também, a capacidade de o indivíduo suportar esforços físicos. 

A falta de actividades físicas provoca atrofia dos vasos, possibilitando o surgimento de hipertensão arterial, que é a grande causa do Acidente Vascular Cerebral (AVC), insuficiência renal e do enfarto do miocárdio.

O sedentarismo pode fazer com que o indivíduo se torne obeso e, adquirindo esta característica, corre maior risco de ter, também, hipertensão arterial ou pode desenvolver a diabetes. Depois começam a surgir problemas com baixa da auto-estima, causando depressão que, se não for controlada, evolui para depressão, que pode causar a morte.

 

Combate à doença

Segundo o especialista em Saúde Pública, o combate ao sedentarismo tem de vir da própria pessoa . "É ela que deve mostrar disposição e motivação para a prática de exercícios físicos e ter conhecimento dos benefícios que esta actividade pode trazer para a sua vida”, disse o médico, para avançar que "depois, é importante a mudança de estilo de vida, ganhar hábitos saudáveis, saber  dividir com rigorosidade os horários para que se tenha uma ou duas horas diárias para exercitar o corpo”.
  

 De acordo com o médico, a prática de exercícios não precisa de ser muito pesada: pode ser por meio de caminhada, corrida, andar de bicicleta, nadar e fazer ginástica, pois, todas estas actividades, se forem feitas, pelo menos por uma hora diária ou de três a quatro vezes na semana, já são válidas para combater, aos poucos, o sedentarismo e melhorar a qualidade de vida. 

Jeremias Agostinho referiu que a prática de exercício físico deve ser para a vida toda, sob pena de, com o passar do tempo, a pessoa activa tornar-se sedentária e com vários problemas de saúde. "Por isso, com muito ou pouco trabalho, todos devem arranjar tempo para praticar alguma actividade física porque o tempo que não usamos hoje para o exercício, vamos usar amanhã para idas ao hospital”, disse.

O 10 de Março foi escolhido como Dia Mundial de Combate ao Sedentarismo, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para chamar a atenção sobre as graves consequências causadas pela falta de exercícios físicos e incentivar práticas que elevam a qualidade de vida e previnem doenças crónicas, como   a hipertensão e diabetes. 

 


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