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Sector precisa de apostar mais no homem para alavancar a piscicultura

Saraiva dos Santos, presidente da Associação Nacional de Aquicultores de Angola (ANAQUI), garante, em entrevista ao Jornal de Angola, que a aquicultura não precisa de dinheiro, “mas sim, de homens capazes de alavancar a produção de peixe no país. De acordo com o responsável, os produtores de peixe ou empresários que actuam neste subsector, precisam de estar melhor organizados se quiserem alcançar resultados positivo.

13/08/2020  Última atualização 18H01
Eduardo Pedro

António Pimenta

Como avalia a prática da aquicultura em todo o país?
Neste momento, a aquicultura está a se desenvolver muito em todo o país. No mês de Julho, por exemplo, conseguimos alcançar índices satisfatórios de produção. Actualmente, há um grande número de pessoas interessadas em investir na produção de tilápia. As perspectivas são boas. Chegamos a conclusão que precisamos de estar, cada vez mais organizados, para obtermos resultados positivos em relação ao que fazemos ou pretendemos fazer. A informalidade domina mais de 70 por cento do nosso mercado. Os operadores do mercado informal não pagam impostos. Não precisam de factura para vender ou comprar um produto.

Actualmente, quantas empresas actuam na área da aquicultura?
Quando nós formamos a associação estavam inscritas 165 empresas, contra as 25 que temos actualmente.

É uma grande baixa. Alguma razão especial para essa redução?
Nós, associação, fazemos o nosso papel, tentamos ajudar na medida do possível na estruturação das empresas e torná-las funcionais. Mas o problema que se põe, e essa é a impressão com que ficamos, as pessoas não querem comparticipar ou aderir ao associativismo. Tanto é assim que nenhuma empresa do ramo conseguiu aderir aos programas do Prodesi.

Como vão as vossas relações com o Prodesi?
Vão muito bem, pese embora alguma confusão na interpretação do seu real papel. Existem indivíduos que confundem o Prodesi com uma agência de financiamento de projectos.

Peritos em matéria de aquicultura consideram Angola, um país com grande potencial para a produção da tilápia, em quantidades que podem ultrapassar os maiores produtores mundiais, como a China e a Índia. O que falta fazer para que Angola esteja ao nível desses dois países?
Acho que as pessoas precisam de, acima de tudo, serem responsáveis; estarem comprometidas com o país e com eles próprios. Se o senhor se lembrar, facilmente dará conta que durante muitos anos, tudo, em Angola, vinha no avião do Programa Alimentar Mundial (PAM). Ninguém pensava na produção alimentar, plantar feijão, arroz e outras coisas. Só agora é que está-se a falar a sério em produção alimentar no país. Todos nós estávamos mais habituados a receber, e pedíamos mais do que dávamos.

Mas há quem aponte a ausência de investimentos como o grande handicap ao desenvolvimento deste subsector…
A ANAQUI precisa de pessoas capazes de alavancar a produção nacional e não de dinheiro. Temos quantidade de pessoas, mas não temos qualidade. Nós precisamos de pessoas comprometidas com a aquicultura, pessoas que consigam acordar as 4h00 ou 5h00 da manhã, para trabalhar, vivenciar as dificuldades que enfrentam os piscicultores. Penso que é na formação que reside o grande problema dos piscicultores e aquicultores angolanos. Não estaremos a fazer nada se continuarmos a dar dinheiro às pessoas que não sabem bem o que vão fazer com os valores que, eventualmente, vierem a receber.
Considera um erro financiar projectos desta natureza?
Se os outros países o fazem é porque acreditam no que estão a fazer. Nós não acreditamos em nada. Acreditamos mais no que as outras pessoas trazem de fora do que naquilo que podemos fazer. A matéria que vais produzir, internamente pode não ter muita importância. Mas se for um jornalista estrangeiro a escrever vais ver as grandes repercussões que o trabalho pode alcançar. Resumindo e concluindo, sou de opinião que, repito, as pessoas precisam de ser mais sérias. Uma pessoa, que recebe um crédito para investir num projecto de aquicultura, não pode utilizar esse dinheiro para a compra, por exemplo, de três viaturas de luxo e arranjar quatro amantes. Isso, e ponha mesmo assim no jornal, é o que acontece com alguns empresários nossos.

Isso significa que a saída seria a formação do homem?
Valorização e não formação, porque, formados já há muitos, que saem todos os anos das nossas universidades. Agora, consulta estes formados e pergunta o que eles sabem fazer!? O problema aqui é termos colocado nas nossas mentes, que o dinheiro vem à frente do trabalho. Mas a realidade é outra. O dinheiro vem atrás do trabalho. Esses são alguns comportamentos negativos que levam os bancos a apresentar uma certa resistência na hora de financiar os projectos.

A maioria dos investidores critica as modalidades de acesso aos créditos…
Os bancos só financiam os projectos que oferecem garantias de retorno. E, é nas garantias que residem os grandes problemas dos nossos empresários. Muitos deles têm terrenos, mas não possuem Títulos de Concessão. Vistas assim as coisas, concluímos que os agentes económicos não dispõem de documentos que lhes assegure a titularidade dos espaços que ocupam, a fim de utilizarem como garantia do crédito solicitado. Para inverter esse quadro, a nossa associação está a tentar negociar, com o Estado, uma saída para esse tipo de problema, que inviabiliza a vida dos nossos empresários. Por exemplo, os nossos agricultores são os que mais trabalham, mas, em contrapartida, não dispõem de bens materiais que lhes permitem o acesso aos bancos, para melhorar a sua produção, a bem de todos.

Já se pode falar em resultados?
Recebemos garantias, a vários níveis. Vamos ver se, a breve trecho, poderemos ter esta situação resolvida.

Para os nossos empresários, até que ponto são importantes os títulos ou direitos de exploração de terras?
O título de propriedade valoriza, de alguma forma, os empresários. Se tu tiveres, por exemplo, uma fazenda, com 100 a 500 hectares, com o respectivo direito de exploração ou Título de Propriedade, esse espaço passa a ser financeiramente valorizado de acordo a dimensão e localização, podendo funcionar como garantia no acesso aos créditos, em qualquer banco. No caso concreto da aquicultura, para conseguirmos o empoderamento económico dos empresários é preciso transformar as suas propriedades (terras) em activos, atribuindo aos mesmos o Título de Propriedade.

No estado actual em que o país se encontra, acha possível Angola se tornar auto-suficiente em termos de produção de tilápia?
Nós não somos auto-suficientes em nada, nem em ideias. Copiamo-las todas. Proferimos usar o sistema de copy past. O que é que podemos desenvolver, se as nossas universidades não fazem investigação?

Como é que avalia o mercado da tilápia?
Muito interessante. Ainda ontem me perguntaram se havia alguém com capacidade de fornecer 100 toneladas de peixe, por semana.

Quantas empresas de aquicultura actuam no país, e qual seria o número ideal?
Temos mais de 60. Mas precisamos de mais de mil empresas para produzir o suficiente, para satisfazer o mercado, reduzindo o impacto dos preços especulativos que se praticam. Esses preços só existem porque a procura é maior que a oferta. Já comprei o quilo de peixe a 4.800 kwanzas.

Onde é que podemos encontrar estas empresas?
Só em Luanda e arredores, e essencialmente na província do Bengo, podemos encontrar umas 10. O maior centro de produção de alevinos encontra-se em Calumbo, a empresa Choupas Corporation, que tem capacidade para produzir entre 3 a 4 milhões de alevinos, mensalmente.

Podemos falar em concorrência?

Nunca vamos ter concorrência enquanto a procura for maior que a oferta.


Fala-se que, tilápias produzidas em Angola estão a ser exportadas para alguns países vizinhos?


Um país que não produz o suficiente para o consumo interno, como é que podemos pensar na possibilidade de exportar o produto? Isso seria um absurdo. Primeiro vamos pensar nas necessidades internas. Não basta termos peixe para pensarmos logo na exportação. É preciso qualidade, termos as condições de sanidade a altura de certificar o que produzimos e aferir se o produto reúne ou não condições para ser exportado.

Em 2018, Angola gastou 50 milhões de dólares norte-americanos na importação de tilápias. Quer comentar a respeito?

O grande problema que temos em Angola, é a subvalorização do que é nosso. Infelizmente nos esquecemos que as pessoas são a matéria-prima mais importante que o país pode ter, e que, por mais ignorante que alguém seja, em uma pequena indicação pode estar sempre uma grande solução. Por essa razão, eu disse que os aquicultores não precisam de dinheiro para nada. Eles só precisariam de dinheiro se souberem a utilidade que lhe vão dar. Por exemplo, o dinheiro para um Lexus dá para construir muitos tanques escavados ou de redes, em lagoas.

Está a dizer que os nossos empresários nacionais não são sérios?

Não. Por amor a Deus, eu não disse isso! Não me ponhas as palavras na boca. Essas são deduções e ilações que o meu amigo está a tirar.

No que toca a concessão de créditos, considera infundadas as reclamações dos investidores, sobretudo dos que actuam nesta área?

As pessoas sempre reclamaram e até mesmo as que já têm os bolsos cheios. As que têm mais são as que mais são ouvidas, enquanto às que não têm, ninguém passa cartão. Às vezes, a aprovação de um crédito não significa uma garantia de que o dinheiro esteja já em suas mãos. Por norma, aos bancos interessa saber as contrapartidas que tendes para oferecer. Há alguns anos, para conseguires um crédito bastava ires ao banco com um consultor e um projecto muito bonito, com estudo de viabilidade económica e financeira, e pronto, tinhas o dinheiro nas mãos. Mas, muitas vezes esse dinheiro não era utilizado da melhor maneira. Muitos empresários partiam logo para a compra de viaturas de topo de gama, para passearem nos finais de semana com a família. Outros resumiam as suas actividades na contratação de técnicos brasileiros, portugueses, e de outras nacionalidades, para dirigirem os seus negócios. Isso até poderia ter alguma mais-valia se eles aproveitassem esses expatriados para capacitar a mão-de-obra nacional. Mas nem isso acontecia.

E no contexto actual, como é que se configuram as normas para o acesso ao crédito?

Hoje em dia, o Governo deixou de aceitar que esse tipo de comportamento continuasse a se registar. As pessoas precisam de ganhar consciência que o dinheiro é de todos nós, e o Governo somos todos nós. Através dos impostos que pagamos, todos os cidadãos devem contribuir para a arrecadação de receitas que fazem os nossos salários no fim de cada mês. Então, se vão financiar indivíduos, que depois de receberem o dinheiro a primeira coisa que fazem é comprar um bilhete de passagem, que agora custa os olhos da cara, para viajarem para Portugal, África do Sul ou um outro país qualquer, assim não vamos a lado nenhum.

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