Opinião

Se eu fosse nomeado governador

José Luís Mendonça

Se, por hipótese ou mesmo na próxima reencarnação, eu fosse nomeado governador de uma província qualquer, o que é que eu faria?

19/06/2021  Última atualização 05H50
A resposta exige muita reflexão. Não é nada fácil governar bem em Angola. Tanto é assim que a maioria, se não a totalidade dos nossos governadores, gastam mais energia e tempo a gerir factos políticos do que situações de índole socioeconómica. Cada província constitui um feudo com poderes ilimitados e, na maioria dos casos, parece ainda estarmos em presença dos comissários políticos. O que já não se faz em Luanda, faz-se, a olhos vistos, numa província do interior.Mas, porque se quer inaugurar, desde 2017, uma nova era na governação, a questão que se impõe é esta: o que deve fazer um governador provincial para dar lustro à lavra?

Eu nunca governei neste país, mas acredito que esta resposta deveria ser dada por um encontro nacional de representantes de cada província (por faixas etárias e dois cidadãos de ambos os sexos, desde os mais velhos de setenta anos até adolescentes maiores de 14 anos), para exporem como é que gostariam de viver nas suas províncias. E isso seria uma aproximação ao PODER POPULAR inscrito no nosso Hino Nacional. Ou aos princípios fundamentais da nossa Constituição que diz, no artigo primeiro que "Angola é uma República soberana e independente, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade do povo angolano”, no artigo 2.º: "A República de Angola é um Estado Democrático de Direito que tem como fundamentos a soberania popular”, e no artigo 3.º: "A soberania, una e indivisível, pertence ao povo”.A expressão "Poder  Popular” pouco tem a ver com o comunismo ou o marxismo leninismo. Foi é mal utilizada, e ficou conotada como uma maldição fora do contexto. "Poder popular” tem mais a ver com a própria democracia e o bem-estar do povo. Doutro modo, a solução é pedir ao poeta Manuel Rui que volte a reescrever o Hino da República. 

Mas regressando à barca do tempo claro, à hipótese de eu, ainda que for na próxima reencarnação, vir a ser nomeado governador, estou perfeitamente ciente de que não se faz uma cidade ou uma região num só dia, quanto mais num ano. Mas há uma coisa que eu, mesmo sem dinheiro, poderia começar a fazer e já: deslocar-me a cada escola de base e falar com os alunos para irmos, aos sábados, plantar abacateiros em cada bairro, até atingirmos a meta de um milhão. E viajaria para Luanda a falar com o ministro da Energia e Águas, para colocar água em cada casa, para cada criança regar o seu abacateiro na rua e no quintal, porque distribuir água potável é uma premissa fundamental do Poder Popular e do MPLA que preconizou que "o mais importante é resolver os problemas do povo.” Porque se o ministro não tem competência para colocar água na minha província, então peça a sua demissão, ou peço eu a minha!

É claro que uma das premissas para uma pessoa qualquer gostar de viver numa região qualquer, para além do emprego e da escola, da água, da luz eléctrica e do saneamento básico, é o transporte público. Seja esse transporte um autocarro, um comboio, uma embarcação fluvial. E o transporte pessoal, também. Conheço um jovem professor que trabalha quase na fronteira de Malanje com a RDC e que tem de fazer vinte quilómetros a pé, para chegar à escola. Uma bicicleta lhe seria de extrema utilidade. E uma bicicleta exige uma fábrica mesmo só de montagem de binas aqui no país. Mas a fabricação completa delas seria uma óptima aposta da nossa indústria. 

Quer dizer: uma necessidade vital chama outra na questão da governação e do desenvolvimento nacional. No tempo colonial, havia uma fábrica de discos musicais no Bié, a FADIANG. E uma fábrica de papel no Alto Catumbela. E uma fábrica de montagem de bicicletas na Petrangol.E eu só seria governador de Benguela se conseguisse erguer outra fábrica de papel no Alto Catumbela. Só seria governador do Bié se conseguisse erguer outra fábrica de discos no Bié. E só aceitaria governar Luanda se pudesse instalar outra fábrica de bicicletas na Petrangol.

A bem dizer, não seria eu que as ergueria, seriam os capitalistas, os donos do dinheiro, criados pelo sistema de Acumulação Primitiva do Capital, nome que não gosto absolutamente nada, por me fazer lembrar o Comércio Triangular de triste memória, mas que foi assim proclamado por quem mandava no país. Mas, dizia, seriam esses, os capitalistas endinheirados de Angola, e não qualquer estrangeiro, que ergueriam as fábricas que o país precisa, e não só em Luanda, onde o mundo se acumula, permanece e se desmorona por excesso de migração. E eu só seria governador de Luanda, se conseguisse provocar o êxodo contrário da população, sem as bastonadas da polícia, mas com a aliciamento do povoamento rural.

Provavelmente, e por causa do poder popular anticomunista e anti-marxista-leninista, mas muito simplesmente hinário, constitucional e emepelista, nem na próxima reencarnação serei governador provincial. Angola nunca vai progredir sem o investimento local, dos angolanos. O investimento chinês, deixou-nos uma dívida de quase 24 mil milhões de dólares. E vemos que há pouquíssimos desses angolanos acumuladores primitivos do capital dispostos a investir na sua própria terra como o fazem os judeus, mesmo a levar com roquetes da Faixa de Gaza. E sem capital local, que não nos deixa endividados até às gerações que ainda não nasceram, adeus desenvolvimento sustentável. E adeus a mim mesmo, putativo governador provincial.


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