Sociedade

Saurimo: Ravina destrói residências e “ameaça” infra-estruturas públicas

Familiarizada com a presença da ravina a escassos metros de casa, acrescida à ausência da mãe, muitas vezes ocupada com as vendas no mercado de Candembe, o perigo deixou de inquietar a pequena Odete Mussuanu. No quintal de casa, no bairro Nhama, arredores da cidade de Saurimo, o baloiço suspenso por uma corda atada a uma árvore tem sido o principal passatempo que ela e os irmãos encontraram neste período em que as aulas foram interrompidas devido a pandemia da Covid-19.

30/07/2020  Última atualização 01H08
Kamuanga Júlia | Edições Novembro

“As aulas com a professora Telma foram suspensas por causa do coronavírus que mata as pessoas”, disse Odete Mussuanu, visivelmente alheia ao medo que se instalou no Nhama na sequência do crescimento acelerado da ravina que, depois das residências, agora também ameaça destruir infra-estruturas públicas de grande relevância no desenvolvimento socioeconómico da Lunda-Sul.

Segundo apurou o Jornal de Angola de alguns moradores, num universo de três mil pessoas, quando identificada pela primeira vez, poucos previam que um simples buraco viesse a evoluir para uma ravina com aproximadamente 520 metros de comprimento, 15 a 30 de largura, 25 de profundidade e várias ramificações ao longo do seu percurso.

A ravina que amedronta o bairro Nhama e arredores, do conjunto das 30 identificadas na área suburbana de Saurimo, é vista como demonstração da força da natureza diante da interferência nociva do homem ao meio ambiente. Residências abandonadas e escombros resultantes da destruição de outras, denunciam dificuldades na resolução do fenómeno, situação que forçou a saída de algumas famílias do bairro. Sem dó nem piedade, a ravina “engole” tudo que lhe aparece pela frente.

Nos últimos tempos, os receios agudizaram-se. Segundo alegam os próprios moradores do Nhama, o Cemitério Municipal do 14, a Central Térmica, a Estrada Nacional número 180, o Aeroporto Deolinda Rodrigues, as obras de construção da nova centralidade, e outras infra-estruturas nas imediações do bairro arriscam a ser as próximas “vítimas”. Os moradores, afirmaram, igualmente, que os contactos para conter o fenómeno são constantes. Na sequência das queixas e a necessidade de avaliar os danos provocados pela ravina, o governador provincial, Daniel Félix Neto, realizou, recentemente, uma visita ao local no seguimento de uma jornada de campo à periferia da cidade de Saurimo.


O governante constatou com bastante preocupação o avanço do “inimigo silencioso” e anunciou a redefinição da estratégia para inibir a marcha do fenómeno, principalmente a Norte do eixo em que progride.

“Estamos preocupados com a situação e tudo vamos fazer para conter os danos provocados no Nhama, onde os habitantes deixaram de ter um sono tranquilo e cumprem as orientações traçadas para acautelar uma eventual desgraça”, afirmou.

Permanente ameaça de destruição

Sentado numa cadeira de plástico, apoiada ao que restou da carcaça de um camião, o soba Lourenço Txiputuleno conta que foi forçado a abandonar a residência no bairro Nhama e mudar para uma casa arrendada. Da antiga residência, diz, resta-lhe memórias da boa convivência entre os moradores, porém, lamenta que a ravina passou a definir a permanência ou não de pessoas no bairro face a iminente ameaça de destruição das residências. O buraco que surgiu timidamente, referiu Lourenço Txiputuleno, já levou, inclusive, a destruição de uma escola de três salas de aula que albergava aproximadamente mil alunos.

“Por conta desta situação, os alunos foram distribuídos em salas improvisadas cedidas por igrejas sediadas no bairro”, disse.

Francisco Txinguelexi é testemunha das enxurradas que ajudaram a acelerar o curso desta e outras ravinas em Saurimo. Morador há oito anos no bairro, defende celeridade nas obras para contenção da ravina no Nhama e descarta qualquer possibilidade em mudar de residência. Francisco Txinguelexi considera que, passados vários anos, a adaptação ao Nhama, onde vive com a es-posa, filhos e demais familiares não favorece o recomeço em um outro lugar. Entende, por isso, que a mudança do quadro exige acção urgente e eficaz das autoridades da Lunda-Sul.


Brincadeiras no leito do buraco

Bastante crítica dos perigos a a que os moradores há anos estão expostos, Domingas Gertrudes, moradora no bairro Nhama, em tom de desabafo, aponta a ravina como um transtorno, particularmente para as crianças que, em tempo de aulas, descem o seu leito e escalam a outra parede com o propósito de encurtar o caminho.

“A presença da ravina é um enorme risco a ter sempre em conta, mas a falta de recursos financeiros justifica a nossa resistência em permanecer aqui, disse Domingas Gertrudes, sublinhando que a confiança da maioria reside em Deus.

Piedade Txitambala alinha no coro de lamentações. O adolescente, que aparenta 14 anos, constata com preocupação o comportamento recorrente das crianças que fazem da ravina um autêntico “parque de diversão”, completamente alheios ao risco de um possível desabamento.

Alex Txicolassonhi e Borlito Augusto, também moradores, responsabilizam as autoridades municipais pelas consequências que infernizam os moradores, porém, não descartam a quota parte de responsabilidade dos moradores. Alex Txicolassonhi aponta os constantes desmatamentos e abertura de buracos para o fabrico de adobes empregues na construção de casas. Do histórico de agressões ao meio ambiente, Borlito Augusto, por sua vez, menciona os alertas dos vários especialistas sobre os sinais de erosão subterrânea que seguiam a montante do rio Nhama.

Contenção do fenómeno

Em Saurimo, o histórico na contenção de ravinas remonta há mais de 15 anos, quando, confrontado com as enxurradas que se abatiam sobre as construções anárquicas nas linhas de passagem de água, o Governo Provincial da Lunda-Sul subscreveu um contrato com uma conhecida construtora local. O acordo resultou na construção das primeiras valas de betão a céu aberto e outras estruturas anti-erosivas nos pontos críticos da cidade. De lá para cá, apesar das obras realizadas, a realidade em relação ao fenómeno continua a inspirar cuidados. Além da limitação de recursos financeiros, o Jornal de Angola apurou que o crescimento desordenado dos bairros, as construções por cima das linhas de escoamento das águas pluviais, debilidades na implantação de polígonos florestais, abertura de buracos para fabrico de adobes, entre outras práticas nocivas ao ambiente, constam das principais causas que contribuem para o surgimento das ravinas.

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