Cultura

Saudade do projecto musical que agitou o país

Analtino Santos

Jornalista

Como acontecia durante o período em que esteve em actividade, o “Caldo do Poeira” foi realizado no último domingo do mês. A conversa foi intercalada com música ao vivo, com os presentes a apreciarem o muzonguê e outros pratos da gastronomia angolana, tudo regado com as bebidas da preferência de cada um.

05/09/2021  Última atualização 07H40
"Caldo do Poeira”, projecto da RNA © Fotografia por: DR
Infelizmente, o regresso do Caldo à regularidade não está nas prioridades. Mas valeu o momento de reencontro dos "caldistas militantes”.

Depois de uma semana de divulgação e publicidade,  o puro "zonguê” arrancou às 7.30 com Isaías Afonso no matinal programa dominical "Poeira no Quintal”. Dikambú, Manuelito, Cireneu Bastos, Raúl Tollingas e Xabanú, membros do painel, tratados pelos ouvintes como a "Velharia com Sabedoria”, deram as boas-vindas e recordaram os programas antigos e a cumplicidade que se foi estabelecendo entre eles e com os ouvintes.   

Miguel Pacheco, o coordenador da actividade e produtor do "Quintal do Ritmo”, assim como Dikambú, falaram das motivações da realização da primeira edição do "Caldo do Poeira”, em que se fez uma homenagem póstuma a Urbano de Castro, no dia 27 de Agosto de 2001. Recordaram colegas que muito se dedicaram ao projecto, tais como João Miguel das Chagas, Amílcar Xavier, Carlos Bequengue, Sebastião Lino, Mário Benedito, Nicolau da Silva e outros profissionais de uma grande equipa liderada por Manuel Rabelais, então director-geral da RNA.

Os primeiros momentos da festa dos 20 anos foram no estúdio e depois no antigo refeitório da Rádio, o primeiro local que acolheu o "Caldo do Poeira”.  Nesta fase foram chamados Amílcar Xavier e Paulo Gomes, considerados peças fundamentais do projecto.

Paulo Gomes revelou que a sua entrada no projecto deu-se porque era o realizador do "Manhã de Domingo” e recebeu um convite de Amílcar Xavier para escrever os textos de apresentação. Desta forma, o homem do Prenda, que nos últimos tempos tem-se revelado como um conhecedor do Carnaval de Luanda, iniciou uma maior aproximação com os artistas, pois era o responsável pelas entrevistas e contactos preliminares. Paulo Gomes assumiu que os textos encaixavam de acordo com o trio de apresentadores: João Miguel das Chagas, Isaías Afonso e Sebastião Lino.

Amílcar Xavier, que foi o produtor e coordenou  de grande parte das edições, realçou o empenho de todos e o entusiasmo quando surgiu a ideia de se fazer uma actividade ao vivo de resgate e valorização da música nacional do passado, homenageando ao vivo os protagonistas ou a título póstumo. Justificando a ausência de um livro que retrate o "Caldo do Poeira”, Amílcar Xavier disse que, sob coordenação de Sebastião Lino, em breve será lançado um livro com dados estatísticos do projecto, num trabalho dos académicos Belchior Silva e Arlete Borges. No entanto, Amílcar Xavier, Paulo Gomes, Carlos Bequengue, Miguel Pacheco, Dikambu e outros participantes e conhecedores do projecto não descartam a possibilidade do surgimento de outras obras, com base nas experiências pessoais.

De histórias e estórias Paulo Tonet,  um dos produtores da edição especial dos "20 anos do Caldo do Poeira”, revelou estas: em Saurimo a equipa foi surpreendida por cobras num dos quartos; a ausência de pratos numa edição em Caxito...


Banda Movimento um grupo com alma de conjunto

A presença da Banda Movimento, para suporte instrumental dos artistas, fez todo o sentido: são funcionários da RNA e a formação que ao longo do projecto fez o acompanhamento de grande parte dos artistas participantes. Semba Muxima, Urbanito, Zeca Moreno Mig e Elisa Coelho foram os intervenientes na animação musical.
 
Semba Muxima abriu com Urbanito Filho a recordar sucessos do seu pai, Urbano de Castro, o primeiro músico homenageado. O cantor afirmou ser o pioneiro dos artistas da sua geração,  pois esteve nas três primeiras edições. Semba Muxima fez uma viagem pelo cancioneiro nacional, na sua linha musical ancestral, ao som da ngoma, hungu, dikanza, puita e outros instrumentos.

A Banda Movimento desfilou temas muito presentes ao longo do projecto, com Mister Kim e Massoxi Kim nas vozes principais, às vezes tomadas por Gigi e Dorgan, as coristas que em determinadas canções são as intérpretes. Teddy Nsingui e Kintino, guitarristas, o primeiro solista e o segundo no ritmo, também assumiram os vocais em determinados temas. Mias Galheta no baixo, Correia nas congas, Romão na bateria e a dupla dos teclados Nininho e Chico Madne completaram a banda que movimentou a audiência com o som angolano. Zeca Moreno lembrou a beleza de "Lena” e Mig mexeu com "Maka” numa manhã onde Elisa Coelho deixou de ser a jornalista cultural para mostrar o seu lado de cantora.


Dois caldistas de primeira linha
Sem a pretensão de nepotismo ou de puxar o saco à família Bequengue, recorremos aos profissionais Carlos Bequengue, jornalista da Rádio Nacional de Angola, considerado pelos colegas como um dos mais metódicos na organização administrativa do Caldo do Poeira, e António Bequengue, editor de Cultura do Jornal de Angola, para de forma resumida falarem do projecto.


Carlos Bequengue
"O "Caldo do Poeira” era uma edição ao vivo do programa "Poeira no Quintal”, que acontecia no último domingo de cada mês. O objectivo era homenagear uma figura ou grupo musical que havia se destacado na promoção ou divulgação da música angolana nos tempos idos. Surgiu em Agosto de 2001, portanto há 20 anos, com  homenagem a título póstumo ao músico Urbano de Castro. Neste ano tivemos mais duas edições: "Caldo da Independência” e "Caldo da Família”.

Para além do convívio que o Caldo proporcionava, permitia também a recolha de informação e outros depoimentos sobre a história da música angolana contemporânea, bem como os seus protagonistas. Esta recolha era feita através de entrevistas a convidados ao longo do programa e depoimentos prestados espontaneamente por indivíduos que acompanharam de perto o movimento musical angolano. O impacto cultural baseava-se numa estratégia da Rádio Nacional de Angola, como prestadora de serviços públicos de radiodifusão, no sentido de promover e valorizar a cultura angolana expressa, neste caso, na arte musical”.

Carlos Bequengue agradeceu à Força Aérea Nacional pelo contributo prestado ao projecto e à Banda Movimento pelo suporte instrumental em grande parte das edições. O jornalista lembrou também os contributos de Estevão Costa, do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, Ernesto Muangalia, Paixão Júnior, Boavida Neto, Amaro Taty, Cândida Narciso, Aníbal Rocha, Isalino Mendes, Mário Benedito, Virgílio Tchoia, Manuel Sebastião, João Miguel das Chagas e toda a equipa de produção liderada por Amílcar Xavier e Sebastião Lino, sem esquecer o antigo director-geral da RNA Manuel Rabelais.


António Bequengue
"Foi uma experiência muito boa ter feito a cobertura da maior parte das edições do "Caldo do Poeira”. Fiz a cobertura da primeira edição do projecto no refeitório  da RNA. Com este projecto de divulgação da música popular angolana estive, além das várias edições em Luanda, também nas províncias de Cabinda, Namibe e Huíla. A minha aproximação ao "Caldo do Poeira” ocorreu porque na altura colaborava na Rádio”.



Alguns dados estatísticos

A primeira edição do "Caldo do Poeira” fora da cidade de Luanda aconteceu em Caxito  aos 15 de Setembro de 2002, em homenagem ao Poeta Maior. Em  2004, a equipa de produção realizou  um estudo de satisfação, com inquérito às pessoas que participavam. 

O grande objectivo era que o projecto não tivesse apenas  um carácter informativo, mas também científico.
Em  coordenação com os doutores Belchior Silva e Arlete Borges foram analisados 2.517 inquéritos a participantes em nove das treze edições realizadas em 2004. A média  de participantes foi de 280, sendo o Caldo de maior audiência o dedicado ao músico Bonga. O grupo etário que mais frequentou os eventos é o dos  31 aos  40 anos de idade, com predominância  para o sexo masculino com 61 por cento.

O pessoal do Rangel, onde está situado o Centro Recreativo e Cultural Kilamba, foi o que mais frequentou o local do evento, seguindo-se Ingombota, Maianga e Sambizanga.
Seis províncias não acolheram o "Caldo do Poeira”: Cuanza-Sul, Cuanza-Norte, Moxico, Zaire, Cunene e Uige. Luanda acolheu grande das edições, seguindo-se a Lunda-Norte com cinco edições, Namibe e Benguela com quatro e o Bengo com três.                 


A cidade do Lobito albergou o evento por três vezes.  
Mestre Duia, Óscar Neves, Eduardo Katuiti do Namibe, Artur Adriano, Mamukueno, Vate Costa, Zecax, Chico Montenegro, Dominguinho, Zé Viola, Diana Spray, Nito Nunes, Matumona Sebastião, Paquito, Diabick, Daydoy, Zé Eduardo, Canhoto da Banda Movimento, Carlos Burity, Givago, Bangão, Viñi Viñi, Teta Lando, Nelson Pâncio,  Mateus Pelé do Zangado, e outros, foram os homenageados. 

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