Reportagem

São Vicente reconquista turistas

Kindala Manuel

Devido à pandemia da Covid-19 que assola o mundo há mais de dois anos, várias economias ficaram afectadas, sobretudo as que sobrevivem do turismo e restauração. A cidade de Mindelo é a capital da Ilha de São Vicente e a segunda maior cidade de Cabo Verde. Com uma vasta diversidade cultural, que vai desde monumentos e sítios, arte e artesanato, música, assim como variadas propostas da culinária local e internacional em inúmeros restaurantes espalhados na ilha.

17/04/2022  Última atualização 09H30
Cidade de Mindelo © Fotografia por: kindala Manuel | Edições Novembro

No início de Março deste ano, o uso da máscara deixou de ser obrigatorio em Cabo Verde, dando lugar ao relaxamento das medidas de prevenção e combate à Covid-19, com a reabertura de discotecas, restaurantes, praias, monumentos e sítios. Com isso, a Ilha de São Vicente, que não recebia turistas há mais de um ano, começa a "renascer das cinzas”, com frequência diária de turistas de vários pontos do mundo. Em Março, Cabo Verde foi palco da visita do Presidente João Lourenço, com início na cidade da Praia, no dia 14, onde efectuou visitas a várias infra-estruturas. No dia 15 seguiu para a Ilha de São Vicente, onde visitou também várias infra-estruturas económicas, tendo sido distinguido com a chave da cidade de Mindelo e condecorado pelo homólogo José Maria Neves com a Medalha Amílcar Cabral, a mais elevada distinção do Estado cabo-verdiano. Este foi o  ponto mais alto da visita de três dias ao país irmão.

De origem vulcânica, a Ilha de São Vicente tem uma superfície de 227 km² e mede 24 Km de Leste a Oeste e 16 Km de Norte a Sul. O Dia do Município é 22 de Janeiro, data em que a ilha foi descoberta. Além da cidade do Mindelo, outras localidades assinaláveis do concelho incluem a Baía das Gatas, Calhau, Salamansa e a aldeia piscatória de São Pedro.

Terra natal de músicos célebres como Cesária Évora, Luís Morais e tantos outros, a ilha tem, na pesca, turismo e na exploração do movimentado "Porto Grande”, situado na baía da cidade de Mindelo, as suas principais fontes de receita. São Vicente possui vários pratos típicos, muitos dos quais têm o marisco por base. Para além da tradicional cachupa, a culinária local oferece também o arroz de cabidela de marisco à dadal, o guisado de percebes, a boa feijoada da terra, o xerém, o cuscuz e os pastéis de milho.

Nos licores caseiros da terra existe o potente e famoso grogue, uma espécie de bebida forte que em alguns restaurantes é dado a provar ao visitante.

 

Monumentos e sítios

A cidade de Mindelo, com uma população de 62.970 habitantes e uma área total de 67 Km2  , é um dos locais de grande atracção turística da ilha, que conserva, ainda, infra-estruturas construídas a partir do século XV. Predomina a arquitectura de estilo colonial, com ruas secundárias que medem dois metros e meio de largura, com misto de asfalto e pedras. Ainda existem o Palácio do Governador, a Câmara Municipal de Mindelo e o famoso Liceu Ludgero Lima (antigo Liceu Nacional de Cabo Verde e Liceu Central Infante D. Henrique), inaugurado em 1856, que teve enorme importância no desenvolvimento da consciência nacional cabo-verdiana, local em que estudaram muitos dos obreiros da Independência cabo-verdiana, incluindo Amílcar Cabral e Jorge Carlos Fonseca, ambos antigos Presidentes.

A marginal de Mindelo é extensiva à praia da Langinha, interrompida na baía pelo "Porto Grande”, passando pela ponte-cais da Marinha de Mindelo, que tem do outro lado o Centro Cultural de Mindelo, instalado nas antigas casas da Alfândega.

Localizada no perímetro urbano da cidade do Mindelo, a praia da Laginha, de águas cristalinas, azuis e transparentes, é considerada por muitos como sendo uma das melhores para a prática do banho, actividades desportivas, náuticas e lazer durante todo o ano, com maior concentração no Verão (época balnear). Nesta época do ano (Março e Abril), a temperatura  ronda entre os 16º e os 23. Laginha é, sem dúvidas, um grande chamariz para banhistas, na sua maioria turistas estrangeiros, que  afluem diariamente sedentos de mergulhar nas suas águas azuis.

O rosto da diva da música cabo-verdiana, Cesária Évora, esculpido na parede de um edifício de três andares, situado na marginal de Mindelo, é também motivo de atracção para turistas e apreciadores de arte, que de forma ininterrupta páram para o registo de momentos para a posteridade. Na rua Exploradores de África, que vai dar ao Palácio do Povo, estão inscritos, na Calçada da Fama, nomes das celebridades cabo-verdianas que se notabilizaram no mundo da música e da arte, com destaque para Cesária Évora, Luís Morais, Germano Almeida, Orlando Pantera, Bana, Ti Goi, Jorge Barbosa e vários outros. Quem chega ao Aeroporto Internacional Cesária Évora, em São Vicente, depara-se logo à saída, com a estátua da diva que ao cantar apresentava-se habitualmente de pés descalços. As construções em Mindelo estão em franco crescimento e em direcção às montanhas.

Nos jangos que existem nos entroncamentos e largos é frequente encontrar, a quaquer hora do dia, adultos e adolecentes a jogar cartas e buraca. A Praça Estrela, bastante movimentada, fica na parte baixa, onde se vende de tudo um pouco, desde roupas a sapatos de todas as qualidades. Na praça, que é dominada por cidadãos nigerianos, senegaleses e guineenses, um grupo de pombos em forma de cartão postal, recepciona quem vai fazer compras. O ponto mais alto da ilha, apesar de não ter nada a florescer, recebe o nome de "Monte Verde”, com 774 metros de altitude. Outra elevação importante é o Monte Cara, que fica à entrada da cidade de Mindelo, assim chamado por aparentar a figura de um rosto humano a olhar para o céu, com as mãos colhidas ao abdómen.
      

Sonoridades musicais de Mindelo

Mindelo é considerada a ilha cultural de Cabo Verde. Quem passa por ela fica contagiado pelos ritmos da terra. Nos hotéis e restaurantes é usual ouvir os destacados géneros musicais cabo-verdianos, desde a morna e a coladeira ao funaná. Para além da música local, os mindelenses são grandes apreciadores de ritmos de outros países, entre os quais, angolanos. As músicas dos cantores angolanos Edy Tussa, Ary, Yuri da Cunha, Paulo Flores, Matias Damásio e Yola Semedo tocam com frequência nos restaurantes e hotéis da cidade. A ilha é  fértil em actividades culturais, nas famosas noites pelos bares animados com música ao vivo, lugar onde iniciou a carreira de Cesária Évora. Além da música, a cultura são-vicentina é extensiva ao teatro e à literatura. Eventos anuais têm grande destaque, como o Carnaval, o Mindelact (Festival Internacional de Teatro) e as festividades de Fim-de-Ano.

Breve historial de São Vicente

Cabo Verde é um arquipélago localizado ao largo da costa da África Ocidental, com uma área de terra de cerca de 4.033 km², tendo como capital a cidade da Praia. As ilhas vulcânicas que o compõem são pequenas e montanhosas. Existe um vulcão activo, na ilha do Fogo, que é igualmente o ponto mais elevado do arquipélago, com 2829 m. O país é constituído por 10 ilhas, nomeadamente, Ilha de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Fogo, Santiago, Maio, Boa Vista, Sal, Brava, das quais 9 habitadas, sendo a Ilha de Santa Luzia, a única não habitada e vários outros ilhéus desabitados. O português é a língua oficial e o crioulo a língua materna, usada também como segunda língua por descendentes de cabo-verdianos a viverem em outras partes do mundo. São Vicente (em crioulo Sanvicente ou Soncente) é a segunda ilha mais populosa de Cabo Verde, localizada no grupo do Barlavento, a Noroeste do arquipélago, separada da vizinha Ilha de Santo Antão pelo canal de São Vicente.

De aspecto árido, foi descoberta a 22 de Janeiro de 1462, pelo navegador português Diogo Gomes, escudeiro do infante D. Fernando, precisamente no dia de São Vicente, o que lhe valeu o nome. Embora seja de origem vulcânica, a ilha é relativamente plana, especialmente a área central, a zona Leste do Calhau e a zona Norte da Baía das Gatas. São Vicente seria a última das ilhas do arquipélago a ser povoada. Foi só em 1838, quando se estabeleceu um depósito de carvão para abastecimento dos navios em rota pelo Atlântico na baía do Porto Grande, que a população se começou a fixar, fundando-se a cidade do Mindelo.

Com a expansão do vapor, na segunda metade do século XIX, São Vicente teve um surto de desenvolvimento, com diversos depósitos de carvão ingleses em actividade e dezenas de navios a alcançarem o porto de Mindelo para se reabastecerem. A ilha tornou-se escala obrigatória a meio do Atlântico para navios de todo o mundo e marinheiros de muitas nacionalidades confraternizavam nas tabernas e cafés do Mindelo. Por essa altura, a cidade tornou-se um centro cultural importante e cosmopolita onde a música, a literatura e o desporto eram cultivados.

Chegou mesmo a aventar-se a hipótese de se transferir a capital de Cabo Verde para o Mindelo. Em 1874 foram amarrados os cabos submarinos da Western Telegraph Company (actual Cable & Wireless), ligando a Praia da Matiota, na ilha de São Vicente, à Madeira e depois ao Brasil. Em 1886, Cabo Verde ficou também ligado à África e à Europa através de cabo submarino.

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