Entrevista

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Santos Júnior: “Transformámos a música em arma de combate”

Analtino Santos

Jornalista

Santos Júnior acompanhou quase todo o percurso da música angolana. Desde as turmas, os grupos carnavalescos, dentre outras, foi uma das principais vozes da canção de intervenção. Assume a relação com o MPLA e, com o seu jeito frontal, o autor de “Estrangeiro”, “Kitadi”, “Agricultura” e outros sucessos que marcaram os primeiros anos da Independência, faz uma pincelada da sua história e do seu grupo, Kissanguela.

12/11/2021  Última atualização 08H35
Santos Júnior © Fotografia por: Cedida
Estamos a festejar mais um aniversário da nossa Independência e tem sido um dos poucos momentos que os cantores que fizeram da música como arma de combate têm espaço na comunicação  social…

Infelizmente!  Mas já é muito bom lembrarem-se de nós precisamente nestas alturas. Mas o que fizemos é para sermos lembrados todos os dias, não obstante a Independência tenha sido a 11 de Novembro. Mas, repito, devíamos ser lembrados todos os dias.


Onde estava no dia 11 de Novembro de 1975?

Estava no largo 1 de Maio, porque eu pertencia ao Agrupamento Kissanguela afecto à JMPLA, participei no coral para cantar o hino no içar da bandeira da República Popular de Angola, hoje República de Angola. Foi aí onde nos reunimos todos, ou seja na primeira gravação do hino. Nós, do Kissanguela, estávamos presentes, com outros, os camaradas da Jota, mamãs da OMA, heróis do 4 de Fevereiro, como os falecidos Imperial Santana e Paiva Domingos da Silva, pioneiros da OPA…

 
Como surgiu o agrupamento Kissanguela?

O agrupamento Kissanguela surgiu precisamente em 1974, meses depois do 25 de Abril, entre Agosto e Setembro. Nessa época, determinados grupos musicais pararam a actividade, não sei as razões, e criou-se, desta forma, o agrupamento Kissanguela, com a inclusão de elementos de vários grupos. O Manuelito, na altura dos Águias Reais, e o Artur Adriano, artista individual, foram das pessoas indicadas para convidar os membros. Eu era do Bossa 70, o Mário Silva e o Candinho, já falecidos, eram Ângelo Quental, Massangano, Juca e outros que agora não recordo. Assim surgiu o agrupamento Kissanguela e quem atribuiu o nome foi o Elias Dya Kimuezo.


Estamos em 1974 os três movimentos de libertação aparentemente querendo unificação, porquê que os jovens que integram
o Kissanguela optaram pelo MPLA?  


Já estávamos enraizados, porque conhecíamos o MPLA. Aliás, o MPLA é o povo e o povo é o MPLA. Os outros movimentos eram tribalistas, a FNLA só pensava no bakongo e a UNITA no ovimbundu.


Mas a FNLA tinha o Ngola Kabangu, um não bakongo e a UNITA na sua génese angolanos de Cabinda…

O Ngola Kabangu estava radicado no Zaíre e veio com aquele espírito, mas o MPLA juntava tudo e esta foi a vantagem. Nós aderimos ao MPLA e, como vimos as falcatruas dos outros dois movimentos, precisamente da FNLA, quando entrou aqui em finais de 74 e princípio de 1975, veio logo com Exército zairense, trouxe tropas do Mobutu…


Mas eles alegam o contrário, eram constituídos por angolanos que residiam lá.

Confirmo que eram zairenses, porque, quando levavam porrada, quem indicava os caminhos para determinados becos sem saída, em Luanda, eram os pioneiros da OPA. E eles ficavam encurralados. Eles vieram num terreno que não conheciam e, também, com prepotência. Trouxeram uma banda de música e faziam escândalo nas ruas.

 
E não era isto que o Kissanguela também fazia? Tocar nas ruas?

Era diferente, porque o Kissanguela tocava em comícios do MPLA, nas escolas, para sensibilizar a juventude, na Cidadela, nos Centros de Instrução Revolucionária (CIR), porque naquela altura havia a sensibilização para o cidadão entrar no Exército.


O que faziam era a propaganda ou música panfletária?

Não fazíamos música panfletária, denunciávamos as atrocidades destes movimentos, principalmente da FNLA. A UNITA, coitados, naquela altura não era visível.

 
Então eles têm razão quando dizem que grupos como Kissanguela foram autênticos agitadores e contribuíram para a desinformação?

Nada disto. Se é como nos tratam, isto é o ponto de vista deles. Mas, o certo é que nós conseguimos derrubá-los. Porque não foi a arma que derrubou a FNLA, foi a música. Nós a transformámos como arma de combate e o MPLA, como tinha todas as rédeas da comunicação social na mão, quando criássemos uma canção, íamos à rádio. Automaticamente era divulgada no dia seguinte e isto punha os homens ensalçados, ficavam todos atrapalhados, porque, às 13 horas, tocava em horário nobre do noticiário. O Francisco Simmons era uma grande pessoa. Isto afugentou os homens.


Quem pegou a boleia do outro, os músicos ou o Movimento Popular de Libertação de Angola que aproveitou a popularidade destes?
Isto é muito relativo, porque criou-se a JMPLA e achámos por bem integrarmos à "Jota”, na qualidade de músicos, porque já tínhamos uma visão revolucionária e conhecimento da trajectória do MPLA. Ouvíamos o programa Angola Combatente. Então, já carregávamos aquela consciência política. Muitos de nós, antes, em canções, retratávamos questões sociais e políticas. Só não lançávamos, porque ainda estava aqui o colono. Precisamente em 1974, após o 25 de Abril, começámos logo a fazer a música de intervenção, mesmo nos estúdios dos colonos. Eles, como não entendiam muito bem o kimbundu, produziam os discos. Era gravado aqui, na Valentim de Carvalho, e as matrizes feitas em Portugal.


Já não havia censura como acontecia no tempo do Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA), com a ajuda de alguns colegas vossos?

Não. Por outro lado, não sei se eram nossos colegas, mas havia grupos que censuravam as nossas canções. Era compreensível, porque estávamos a ser colonizados. Sei que, no Centro de Informação e Turismo de Angola, uma parte dos funcionários desta instituição eram agentes da PIDE-DGS  e lá haviam bufos angolanos, que transmitiam as mensagens. Na altura, éramos jovens e os mais velhos foram denunciados e foram para as cadeias. Por isso é que Ngola Ritmos, Henda Xala e o Ngongo  tiveram muitos problemas, enquanto o colono esteve aqui. Acabaram por causa da censura e dos bufos angolanos que estavam no CITA.


Qual foi o primeiro grande sucesso do Kissanguela?

Primeiro foi o "Estrangeiro”, antes da Independência, porque estávamos a denunciar a entrada deles aqui. Teve um grande impacto na altura e, depois, "Kitadi Kia Ngola”. Penso que "O Estrangeiro”, até agora, a mensagem é actual.


E por que não é divulgada nos tempos actuais?

Não sei, mas a comunicação oficial deveria divulgar mais, porque o "Estrangeiro”,  hoje, até está dentro do processo, não há nada de especial. Eram denúncias que a gente  fazia. O Mobutu estava a cobiçar Angola, inclusive queria comprar o Hotel Panorama. Por isso, introduziu a tropa dele, só que não conseguiu.


Hoje não temos o Mobutu e somos amigos dos antigos imperialistas...

Mas temos outros fantoches. Até dentro do nosso movimento, muitos estão descontentes com o posicionamento do novo Presidente e praticamente fazem chantagem. Por isso, tenho uma canção que em breve hei-de lançar, na qual digo "Angola tu és a mais cobiçada em toda a África, por países vizinhos e imperialistas, por compatriotas angolanos imbuídos de espíritos ambiciosos e gananciosos”. 


Algo visível nas composições daquela época era o recurso às palavras de ordem do Presidente para a criação musical. Outras palavras de ordem foram criadas. Podemos ver o Santos Júnior a repetir?

Não como antes, talvez pudesse fazer em algumas palavras de ordem do Presidente João Lourenço, agora que tem o discurso de combate à corrupção. Mas do outro camarada não faria. Fiz do Presidente Agostinho Neto, porque era uma pessoa bastante inteligente, que sabia o que estava a fazer. Então ia lançando palavras de ordem para sensibilizar a população e, também, porque era uma figura mundialmente respeitada. Falou e incentivou à alfabetização, também à agricultura. Até já pensava na diversificação da economia. A agricultura é a base e a indústria o factor fundamental. Tudo transformámos em música. Se assim não fosse, ele nem viria aqui proclamar a Independência. Aconteceria como Nelson Mandela. Por ele ter sido uma grande figura, ninguém o mexeu. Sabia o que estava a fazer, quando disse que "cada cidadão é e deve sentir-se necessariamente um soldado”. Agarrei nisso e, automaticamente, transformei numa música, acrescentando algumas coisas. Isto aconteceu aqui, porque todo o povo agarrou em armas, aqueles que se reviam no MPLA. Depois, quando estávamos a ser invadidos pelos sul-africanos, cantei norte-americanos, sul-africanos e zairenses invadem o nosso país a convite de Holden, Chipenda e Savimbi. Está ai a música.


Mas eles também acusam o MPLA em relação à presença cubana em Angola...

Estávamos a ser invadidos. Os cubanos vieram ajudar o povo angolano. Então, se o meu inimigo vai buscar norte-americanos, que eram pesados naquela altura, tínhamos de fazer algo. Nessa fase, em 75, quando houve o recuo da FNLA, em Caxito já havia americanos. Na altura, o MPLA julgou, aqui, britânicos e americanos. Eles são estrategas, não brincam com coisas sérias. Foram se infiltrando aqui, mas bateram o pé, porque fomos o primeiro país, em África, que julgou mercenários norte-americanos e ingleses.


Fizeram composições muito fortes…

Nós também cantámos "Sumbala Ji mercenário, Maka Muangola” e dizíamos que não éramos da OCA ou outros movimentos internos. Porque existiam alguns constituídos por portugueses que estavam na zona Sul, precisamente na Huíla, e estavam a favor do imperialismo. Não queriam nada com a chamada via socialista, enveredada pelo MPLA, que era da linha do Karl Marx, Lenine e Engels. Nós, Kissanguela, mais uma vez, fomos denunciando estas situações, porque eles faziam sabotagens. Então cantávamos para o nosso povo abrir os olhos e abriram. Por isso, é que hoje há pessoas que assumem publicamente que foram às FAPLA a reboque das nossas composições. Nós empurrámos e alguns deles são generais graças à música de intervenção e do Kissanguela principalmente.


Kissanguela teve uma relação privilegiada com Agostinho Neto. Fale desta relação…

Em primeiro lugar, Neto era um homem de Cultura e altamente inteligente. Na primeira viagem que fez, depois do seu regresso, foi a Benguela e levou o Kissanguela. Assim começa a nossa relação. Fizemos um concerto, que penso ter sido no campo do Benfica. Eu cantava e falava das atrocidades que o colono nos fazia após o 25 de Abril, que metiam veneno na comida. Eu usava o termo branco, dizia "mindele dya mputo”. Ele observou e aconselhou-me a dizer colono e não homem branco, porque nem todos estavam a nos sacrificar. Olha que ganhei mais simpatia. Depois, fomos assistir a Independência de Moçambique, onde conheci, em carne e osso, um outro grande homem, Samora Machel. Também fomos a São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde e Guiné- Bissau, na celebração das festas nacionais, na Guiné Conacry, de Sekou Touré, e aqui a várias províncias.


Naquele período existiam outros grupos inclinados na música de intervenção FAPLA-Povo , os Angolenses… como era o vosso relacionamento?


Tínhamos a nossa linha, pertencíamos à JMPLA e defendíamos pura e simplesmente esta organização. O FAPLA-Povo era quase todo composto por militares e defendiam esta corporação. Nós recebemos aulas políticas, para nos tornarmos comissários políticos, porque fazíamos espectáculos nos Centros de Instrução Revolucionária. Quanto aos Angolenses, para ser sincero, eles tocavam mais nas escolas. Não tenho memória de que tenham ido a uma província ou Centro de Instrução Revolucionária. Posso estar esquecido. Tanto é que, quando estávamos para ir a Cuba, no Festival da Juventude, já estavam a nos fazer vida cara, foi o FAPLA-Povo.


Quais foram as razões da não ida do Kissanguela?

Sinceramente não sei, mas já estavam a nos fazer vida cara. Aquilo foi mais ou menos em finais de 1979 ou nos anos de 1980 e já o Neto tinha morrido. Temos aqui este documento, datado de 4 de Agosto de 1976, uma convocatória da comissão directiva da JMPLA. É para ver como o Kissanguela era cobiçado. As invejas que foram surgindo por causa da nossa projecção internacional. Como estávamos ligados ao comité executivo da JMPLA, que era nacional, recebemos uma convocatória, mas não aparecemos, quando vimos um ponto que dizia elitização do grupo. Perguntámos:  elitização, porque saíamos com Agostinho Neto? Naquela altura, penso que os Merengues também já tinham saído do estúdio. A destituição do agrupamento musical Kissanguela ou melhor extinção, esta foi a linguagem que o Carlos Lamartine usou, quando nos passou a mensagem. Convocaram-nos para uma reunião, na actual sede do partido, ainda não havia mobília, puseram-nos numa sala onde não havia cadeiras, nem mesas. Sentamos no chão. Isto foi depois do 27 de Maio. Ele foi reunir com alguns dirigentes do partido. Nós ficámos à espera da chamada à reunião, mas afinal não havia nenhuma. Saíram e, depois, veio o emissário, que era o Carlos Lamartine, dizendo que a partir daquele momento o agrupamento musical Kissanguela estava extinto. Já o Neto tinha morrido.


Poderiam ter o mesmo fim dos artistas mortos a 27 de Maio de 1977…

Neto saiu em nossa defesa, dos elementos do Kissanguela.


Mas o fundador e responsável do grupo, Zé Agostinho, foi para a cadeia?

Sim, tentaram com outros, mas fomos protegidos, afirmavam que apenas cantávamos. Infelizmente outros artistas não tiveram o mesmo tratamento. Não sei justificar, por exemplo, o que aconteceu com David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, que antes passaram pelo Kissanguela e depois foram para o FAPLA-Povo. Eram militares, actuavam fardados e estavam sob os auspícios da direcção política das FAPLA. Não sei se houve interferência directa no fraccionismo. Parece que do grupo foram apenas eles, porque os outros estão aí, o Brando, Proletário, Mauro do Nascimento, Robertinho e demais músicos que conheço. Agora nós, Kissanguela, chamaram-nos para uma reunião. Também onde fomos acusámos e, naquela altura, havia uma comissão de reestruturação da JMPLA, que era coordenada pelo camarada Afonso Van-Dúnem "Mbinda”. Foi ele que se levantou e disse: provem que os camaradas são fraccionistas, porque trazia orientações do Presidente Neto.

 
O Kissanguela tinha uma proposta musical diferente, às vezes parecia a lendária banda Osibisa…

Tínhamos uma visão de música diferente e, por causa da nossa projecção, quando chegámos da Guiné Conakry, mudámos a forma de tocar. Tínhamos bons instrumentistas. O Manuelito, no baixo, um irmão do Duía, Adolfo, Belmiro Carlos… bons sopros. Lembro que um dirigente da "Jota” perguntou que tipo de música estávamos a tocar e nós respondemos: apenas música e ela não tem fronteira. Transformamo-nos e, por isto, surgiram as invejas e expressões como a elitização. Porque foi em 1976, depois do nosso regresso da Guiné Conacry, que recebemos o documento. Depois, o Zé Agostinho programou um grande espectáculo, denominado "Política no Posto de Comando”. Fizemos oito dias, no cine Karl Marx, depois levámos para Huíla, Benguela, Cuanza-Sul e outras localidades. Éramos mais de 20 elementos. Era música, teatro e poesia…


Há um jogral de uma actividade que foi proibido. Havia censura?

O jogral, penso ter sido do jovem Moniz. Havia uma certa censura, porque depois não fazíamos apenas música para favorecer o nosso movimento. Havia, nas entrelinhas, outras coisas. Já falávamos das intrigas. Por exemplo, o El Belo, na canção "Hoje é Dia da Revolução”, dizia que ser revolucionário não é ser racista, tribalista nem oportunista. Isto já mexia com algumas pessoas e passou a incomodar.


Há um marco, para os amantes da música angolana, a "porrada” que o Kissanguela levou, na Cidadela, com a orquestra Inter Palanca, de Matadidi, nas celebrações do primeiro ano da Independência Nacional, confirma?

Não foi porrada nenhuma. É importante que as pessoas saibam que, quando o Kissanguela foi ao Uíge, depois das FAPLA libertarem, encontrámos mortos nas ruas, não havia comida e nós fizemos um espectáculo no cine Moreno, para chamar as pessoas que tinham fugido para as matas. Quando as FAPLA e o MPLA entraram de rompante, porque estava tomada pela FNLA, foi precisamente aí que apareceu o Matadidi, a conversar connosco, falando que era angolano e membro do trio Madjezi e que tinha uma equipa de músicos. O José Agostinho, na qualidade de membro do comité executivo da JMPLA, não teve outra solução. Como tinha uma visão musical ampla e já conhecia o trio Madjezi, disse: junte ou organize os seus homens e vão para Luanda. Foi assim que mais tarde eles vieram e começaram a ensaiar com a nossa aparelhagem e sede, no comité executivo da JMPLA, nos Combatentes. O comité executivo programou um espectáculo na Cidadela e eles foram integrados no programa. As pessoas confundem-se. Nós actuámos e apresentámos a nossa linha e eles trouxeram outra diferente. Tinham o Matadidi, que era um autêntico homem show, que escorregava, tipo James Brown e Percy Sledge, coisa que muita gente nunca tinha visto. Aquilo foi uma inovação, porque não estávamos habituados. Então, as pessoas na plateia vieram para fora dizendo que levámos porrada. Nada disto. Nem aceitámos isso. Porque, não têm noção de música. Já tínhamos o "norte-americano” ou mesmo "Kitadi Kya Ngola”, quando entrei a cantar este tema, atiraram-me um monte de moedas. Há um miúdo, que depois tive conhecimento que foi trabalhar para o Jornal de Angola, que veio perto de mim e juntou-se para dançar e apanhar as moedas. As imagens devem andar por aí. Fui das primeiras pessoas a cantar sobre a moeda e livros de Angola com a cara de Agostinho Neto. Agora, o que eu beneficiei? Nada!


Como assim não? Foi promovido a oficial superior?

Não por isso, mas por causa do meu engajamento. Mas por ter feito canção como esta, deveria ser melhor recompensado, porque não existia Kwanza, quando fiz este tema e a nossa moeda apareceu em 1978. Fiz a música em princípio de 1975 e gravei no  princípio de 1976, porque, na celebração, já cantei, mas tornou-se mais conhecida quando cantei na Cidadela. A música está no LP "A Vitória é Certa” e tens aqui mais um outro documento histórico, de 16 de Junho de 1976, a chegada dos 500 exemplares do disco, no barco Safala. Olha que o cabeçalho está dirigido ao camarada  Zé Agostinho, que era o coordenador. Neste disco podem encontrar sucessos na voz de Calabeto, Fató, Mário Silva, Candinho. Eram denúncias do que acontecia.

 
Mas algumas mensagens, hoje, foram desmentidas, como a do Samuel Abrigada, que roubou 50 mil contos, ou as insinuações de canibalismo da FNLA…

Ele diz que não roubou, mas naquela altura não teve a coragem de afirmar o contrário e foi inspiração do Candinho. Como estávamos incumbidos de denunciar todas as falcatruas, assim fizemos. O mesmo com a Fató, quando fala da FNLA, porque eles faziam muitas coisas, como meter pessoas nas fossas.

 
Agora está disposto a fazer o mesmo?

Só quero que alguém patrocine a conclusão do meu disco. Com meio caminho andado, tenho lá coisas muito sérias, não é de brincadeiras. Não tenho meias medidas, porque tenho a revolução no sangue. Não tenho medo dos problemas, porque o homem nasce, cresce, vive e morre a qualquer altura.


Tendo como principal sucesso o "Estrangeiro”, voltará a regravar o tema no álbum?

Não. Este tema já existe e para gravar teria de alterar muitas coisas.

 
Quando canta nas actividades do seu partido mantém a mensagem original?

Alterei ligeiramente. Nesta parte "Angola é tão grande assim, que todos nós, unidos, podemos reconstruir” e antes dizia "Angola é tão grande assim, que o fascista Mobutu está a cobiçar” e como muitas pessoas já ouviram esta versão não me interessa pôr mais no disco.


Estamos também num processo de reconstrução e de unidade nacional, será por isto que os órgãos de comunicação social não tocam estas músicas?

O problema é deles, porque sentem medo. Mas a verdade é que fazem parte de um processo e são músicas dentro de um contexto histórico. A reconstrução e unidade nacional não têm nada a ver com um processo antigo. Aconteceu ou não aconteceu? Você apaga a história? Então pronto, nós devemos continuar para que as gerações vindouras conheçam a História deste país. Não podemos esquecer a nossa História.


E a história na nossa canção revolucionária parece ter apenas um sentido, o MPLA. Conhece vozes de outros movimentos?

Lembro que quando a UNITA estava na Jamba tinha um grupo musical.  De certeza que cantavam em prol dela, não sei onde andam. Mas em 1975, desconheço grandes nomes. Agora, do lado da FNLA, a dar a cara, o único era o Teta Lando, que já vinha do tempo colonial, cantando uma série de canções de contestação, mas que não ia directamente às questões partidárias. Ele era diferente, mais pela unificação, o Holden Roberto, segundo dizem, era cunhado dele. O Teta Lando não era um militante qualquer, era dirigente.

 
É possível reerguer o Kissanguela anos depois da sua extinção?

É difícil. Muitos estão a morrer, como Mário Silva, El Belo, Artur Adriano, há menos de um mês perdemos o Juca, enfim já faleceram muitos.


É esta Angola que sonhava?

Se o Neto vivesse teríamos uma Angola diferente.


Uma mensagem…

Primeiro, felicitar o camarada Presidente João Lourenço pelo trabalho árduo. Peço que tenha coragem de desenterrar vários fenómenos que andavam escondidos. Então, força! Temos de derrubar esta corrupção, porque foi isto que meteu muita gente na desgraça. Quero também enaltecer a figura do Fundador da Nação, Agostinho Neto, que estava a ser asfixiada. João Lourenço veio revitalizar este nome.

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