Desporto

Santo António: “Nunca fui um jogador violento”

A antiga estrela dos “sambilas” acedeu ao convite do Jornal de Angola para uma incursão à carreira. Diz sentir-se “extremamente orgulhoso” por ter sido um dos melhores da sua época, mas sobretudo por ter conseguido trilhar um percurso imaculado, coroado de troféus.

30/05/2020  Última atualização 12H53
Alberto Pedro| Edições Novembro

“Comecei a minha carreira na escola do Peyroteo. Nasci com aquela inclinação para o futebol, mas os pais me complicavam sempre, pois se opunham”, adiantou-se a contar ao nosso jornal, Santo António, hoje técnico reformado da Sonangol.

Decidido a seguir carreira no futebol, mesmo contra a vontade dos pais, o ex-futebolista deu largas ao sonho, tendo sido no mediático Torneio da Cuca onde começou a exibir as suas qualidades ao mais alto nível, com a camisola do extinto FC de Luanda.

“Representava a equipa de juniores. Em 1974 deu-se o 25 de Abril e os clubes desfizeram-se, e porque o clube onde fui lançado é o Ases do Sambizanga, acabei por integrar depois a equipa do Progresso Associação Sambizanga, que acabava de ser criada”, esclareceu.

Nessa altura, acrescentou Santo António, já fazia parte da “estrutura óssea” do conjunto do Sambizanga, em 1976, ao lado dos também lendários Gustão, Salviano e Bonducho. E como havia necessidade de juntar alguns nomes sonantes do bairro, a equipa acabou por absorver as melhores referências dos clubes Juventista, Juba e Vasas.

“Por altura do Torneio da Agricultura, em que fomos vencedores da nossa série, havia equipas pesadas, casos do Benfica de Luanda, Ferrovia e Sporting de Luanda. Era a chamada série mais forte do torneio. Ainda assim, nos qualificámos e fomos à final com o 1º de Agosto. Empatámos a três bolas, mas valeu a pena o jogo. Depois deste torneio, surgiu o Campeonato Nacional de futebol de Angola”, disse.

“Makas” com Progresso e transferência para o Petro

O facto é que, após uma carreira brilhante com a camisola do clube que o projectou para a alta competição e, mercê de uma situação imprevista, que diz não gostar de recordar, Santo António é transferido para o Petro de Luanda.

“Saí do Progresso por uma razão simples e objectiva: não gostei da forma como fui tratado. Éramos cinco: eu, Luís Cão, Salviano, Santinho e Praia. Solicitámos aos dirigentes do clube para que, em função da influência que tinham, facilitassem a compra de um fogão e uma geleira, que era difícil de adquirir na época, mas não nos facilitaram a vida”, lamentou.

Nessa altura, houve a possibilidade de os referidos jogadores efectuarem estágio com a equipa sambila, em Portugal. Santinho, Praia e o Luís Cão cederam à pressão da direcção do clube para integrarem o estágio em terras lusas, mas Santo António e Salviano recusaram-se a viajar. “Disse que não seguia para Portugal, enquanto não comprasse o fogão e a geleira, que queria deixar para a minha família, como lembrança”, justificou.

Mas o facto é que Santo António acabaria por seguir depois para Lisboa, por iniciativa própria, tendo contado, na altura, com a carta de chamada de um familiar. Ao tomar conhecimento da presença do central em Portugal, a direcção do clube sambila chegou a acreditar que fosse integrar o estágio mas, debalde.

“Quando regressei a Angola, para meu espanto, apareceram três senhores em minha casa, no São Paulo, que queriam falar comigo. Apresentaram-me uma proposta para jogar no Mambrôa do Huambo. Nessa altura, o Progresso recusava-se a entregar a carta de desvinculação. Só foi possível, graças à intervenção do senhor Rui Mingas, na altura, secretario de Estado de Educação Física e Desporto. Só comecei a jogar a partir da 9ª jornada, por atraso da minha carta de desvinculação”. Embora o interesse manifestado pelo emblema do Planalto Central fizesse Santo António acreditar numa longa “odisseia” ao serviço do Mambrôa, acabou sendo para o Petro Atlético de Luanda que o defesa central viria a transferir-se posteriormente.

“O professor António Clemente estava constantemente à minha atrás, e como naquela altura tínhamos amor ao clube e ao bairro, nunca aceitava jogar no Petro. O malogrado professor Clemente só viria a convencer-me a ir para o Petro através do Mambrôa, com quem mantinha excelentes relações. Foi daí que começou a minha carreira no Petro”, recordou o ex-futebolista, confessando ter contribuído para alimentar a mudança para os tricolores, o facto de Eduardo Machado, na época, estar em rota de colisão com o clube.

“Como o Eduardo Machado não estava bem com o clube, os dirigentes acertaram fazer uma troca entre eu e o Eduardo Machado. Foi assim que cheguei ao Petro, onde me tornei pentacampeão”, afirmou, sorridente. Confrontado com o facto de ter sido por vezes considerado de violento, dada a rigidez na abordagem aos adversários, respondeu, peremptório: “Nunca fui um jogador violento. Era um defesa viril, que não dava confiança aos avançados. É diferente”.

Saudades do futebol de “primeira água”

O ex-futebolista recusa qualquer tentativa de comparação do futebol praticado no seu tempo, com o patenteado actualmente. Diz não ter qualquer “inveja” das condições sociais e de trabalho que a evolução da modalidade proporciona aos jogadores da actualidade. Muito pelo contrário. Aplaude o desenvolvimento da modalidade, mas lamenta a persistente falta de qualidade.

“Os jogos do meu tempo eram ferrenhos, 'trumunos' de verdade e de bom futebol. As pessoas saíam de uma distância do Zango até ao estádio do Coqueiros, São Paulo, mas não se arrependiam. Eram jogos vistosos e de elevada qualidade, mas não ganhávamos absolutamente nada! Não havia remuneração. Era tudo à base do amor à camisola. Essa é a razão pela qual muitos de nós não estão realizados socialmente”, referiu.

Santo António aponta o ex-goleador do Benfica de Luanda e 1º de Agosto, Carlos Alves, como tendo sido o “maior carrasco e que mais trabalho deu”. Dos jogos que guarda eternamente na memória destaca o empate a três bolas na chamada “final desejada do Torneio da Agricultura, entre Progresso e 1º de Agosto, no Estádio Municipal dos Coqueiros. “Foi um jogo entre duas equipas com pesos pesados. Todos craques, desde os titulares aos suplentes. Tínhamos bons jogadores. Só não jogavam todos a titular, porque não se pode alinhar 14 ou 15 jogadores em campo”.


Em 1987, quando o Benfica de Portugal desembarca em Angola, para o Torneio da Sonangol, Santo António, que viria a fazer marcação cerrada a Rui Águas, ex-avançado das “águias” lisboetas, cairia nas graças dos encarnados. “O Eusébio e o treinador inglês, cujo nome me esqueço, levaram-me até ao hotel turismo para conversarmos. Na altura, perguntaram-me a idade, pensei em mentir, porque já estava com 31 anos. Eu e o Jesus fomos os primeiros a ser contactados, mas acabou por seguir o Abel Campos, que era mais jovem”, lembrou o antigo central ferrenho, admitindo em seguida ter ficado muito próximo de abraçar uma carreira no futebol profissional na Europa.

“Muitos clubes europeus manifestavam interesse por atletas angolanos, mas não havia condições para sairmos do país, devido ao contexto em que se vivia. Para o futebol angolano chegavam muitos “olheiros” europeus. Estive próximo de assinar pelo Sporting de Portugal, mas fui obrigado a permanecer em Angola”.

“Futebol de hoje é desastroso”

Santo António faz uma avaliação ao futebol praticado nos tempos actuais, com enorme nostalgia do passado. Diz não acreditar que, no presente, com todas as condições favoráveis, ainda exista atleta que não saiba recepcionar uma bola ou fazer um passe com a qualidade que se exige.
“Honestamente falando, vejo actualmente um futebol desastroso. Acho que é falta de formação. Precisámos de formar a sério, porque há atletas que não sabem fazer uma recepção de bola ou um passe em condições ao colega. Hoje, a formação não pode mais ser no pelado. O jovem tem que se adaptar ao relvado”, disse.

O antigo defesa central deplora, por outro lado, o facto de um dos espaços do futebol mais mediáticos do passado, estar em condições de abandono. Segundo ele, a formação podia até ser feita no campo de São Paulo, em virtude de se localizar numa zona suburbana e com facilidade de afluência para muitos jogadores.
“No meu tempo, os craque saíam de todos os bairros das zonas periféricas. O Sambizanga, Rangel e o Marçal eram os mais famosos em termos de craques, que brilhavam e faziam desporto com amor. Saíamos de casa a pé para ir treinar. Até o equipamento trazíamos de casa para treinar na selecção. Não era a federação de dava. Andávamos em autocarro sem vidro à frente. Falo isso com toda a sinceridade. Era puro amor à camisola. Agora, estes jovens são bem remunerados e estão vaidosos”, constatou.

De acordo, ainda, com Santo António, dada a qualidade do futebol praticado por Angola no passado, o país só não conseguiu o apuramento para o Mundial, “porque os árbitros não deixaram”. Sublinha que as condições não permitiam muito, mas a qualidade dos jogadores chegou a permitir sonhar.

“A selecção era formada apenas por jogadores que evoluíam em Angola. Antigamente havia muita confusão com os jogos, devido ao trabalho dos árbitros, mas o nosso caso foi demais. Fazíamos frente aos pesos pesados de África, casos da Argélia, Camarões, e Nigéria. Não devíamos nada a estas selecções, mas não tínhamos condições para fazermos alta competição internacional. Estivemos próximos de nos qualificar para o México'86 e Itália'90. Ainda lembro o soberbo golo do Makuéria, do meio-campo, mas não nos qualificámos por causa do árbitro togolês”.

Perfil

Nome
Santos António da Virita

Naturalidade
Luanda (Sambizanga)

Data de Nascimento
19 de Junho de 1956

Comida Preferida
Calulu

Bebidas
Vinho

Troféus conquistados como atleta
Pentacampeão
com Petro (84/83/86/87/88), vice-campeão
dos Jogos da África Central (1987)
em Brazaville

Internacionalizações
66, num percurso entre 1976 até finais da década de 1980

 

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