Reportagem

Salvar a vida e obter prazer com medicamentos tradicionais

Silvino Fortunato

A venda e o uso de produtos da medicina tradicional está cada vez mais presente na vida da população da província do Uíge. Nas ruas, nas residências e nos mercados da cidade, vêm-se homens e mulheres com medicamentos tradicionais já preparados e conservados em garrafas para diferentes funções.

10/04/2022  Última atualização 12H40
Produtos da medicina tradicional © Fotografia por: DR

Quitandeiras e zungueiras mostram-se habilitadas a oferecer instruções sobre o uso dos remédios assim como os detalhes da toma, propriedades curativas e dos efeitos colaterais. Há também a categoria dos "grossistas”, que se dedicam a farejar as florestas para a obtenção de plantas, cascas de árvores, raízes, capim, fezes de certos animais, rochas, entre outras, com as quais preparam os medicamentos que são revendidos aos retalhistas.


Muitos terapeutas, naturopatas, parteiras tradicionais, vendedores e consumidores de medicamentos tradicionais, no Uíge, reconhecem as propriedades, vantagens e o potencial curativo dessas plantas e minerais. Acreditam que essa valência faz com que a prática da medicina tradicional ganhe corpo a cada dia que passa. Profissionais do ramo e proprietários de centros de medicina tradicional disseram ao  Jornal de Angola que o tratamento e a alimentação regular à base de plantas medicinais reforça o sistema imunológico, rejuvenesce as células, elimina a fadiga e o envelhecimento precoce. Dizem haver também plantas e raízes que combatem a impotência sexual.

Vantagens da medicina tradicional

Maria Mafuta, de 65 anos de idade, é terapeuta tradicional desde 1983. Na sua ervanária encontramos de tudo um pouco, desde raízes, folhas, cascas de árvore, frutas, peles e ossos de animais com destaque para os de cágado, leão, elefante, pedras medicinais e outros medicamentos já transformados em pó.

"Tratamos várias doenças com base em raízes, folhas e restos de animais. Entre as doenças que tratamos constam a dor de barriga, hemorróidas, dores lombares, febre tifóide, febre-amarela, impotência sexual, infertilidade, cansaço físico, tosse, hepatite, infecções urinárias e da pele”, disse a terapeuta.

Elisa Manuel, outra terapeuta tradicional, destaca o potencial curativo da medicina tradicional. Na medicina tradicional, disse, não se trata apenas doenças visíveis, mas também aquelas "que criam obstáculos na vida da pessoa, como pouca sorte de ter emprego”.

Elisa Manuel trata, também, "pacientes” que sofrem de acidentes de viação constante ou o que considera "perseguições diabólicas” e outras situações que a medicina moderna não resolve.

Por exemplo, disse, no conjunto da medicina tradicional, existem pequenas frutas azuis chamadas Mpimpita, que ajudam a ultrapassar, com facilidade, qualquer assunto ou problema. "Basta, antes da resolução do assunto, ingerir algumas frutas daquele tipo”, disse Elisa Manuel.

Mestre Nzengeny é o nome com que se apresentou o especialista em medicina tradicional que o Jornal de Angola encontrou em casa de uma paciente. Ele deslocou-se propositadamente do município de Maquela do Zombo, a 293 quilómetros da cidade do Uíge, para tratar de uma adolescente com problemas de desmaio e perturbações mentais. "Eu só trato com pó e água”, informou.

Patrício, pai da adolescente, um funcionário do Ministério do Interior, diz que conheceu o terapeuta por indicação de um colega colocado em Maquela do Zombo. "O meu colega disse-me que conhecia alguém que trata bem dessa doença”, relata. Preocupado, não hesitou em mandar vir o terapeuta para tratar a filha que há vários meses sofria de desmaios, falta de lucidez, alucinações e outras indisposições. "Graças a Deus a miúda está a voltar a si. Ontem teve uma momentânea perturbação, que depois da intervenção do curandeiro, que lançou uns pôs no rosto, a miúda acalmou até hoje”, disse.

Há ainda pessoas provenientes de outras províncias que chegam ao Uíge em busca de tratamento para várias doenças. É o caso de Paulo Matimbu, que trouxe de Luanda o filho, por sofrer, supostamente de perturbações mentais. "Trouxe o miúdo que, há mais de dois anos, padece de loucura momentânea, que está a ser intervencionada por uma senhora que tem um centro no bairro Kixikongo”, informou.

Paulo Matimbu disse partilhar o centro com outras pessoas vindas do Cuanza-Norte, Malanje e, sobretudo, de Luanda que estão a se tratar ou a acompanhar o tratamento de familiares.

Embora se tenham submetido ao tratamento há apenas dois dias, vê alguma melhoria nas manifestações do filho, que diz ouvir vozes e zumbidos que motivam a perturbação. "Os próximos dias serão determinantes para fazermos um juízo da eficácia ou não do tratamento”, garantiu.    

Cuidado com malabaristas 

Luzolo Pedro alerta para a existência de "malabaristas” que se aproveitam do sofrimento e preocupação alheias. "Muitos só sabem tratar algumas doenças, tal como os médicos da ciência moderna, mas nunca se recusam a receber pessoas cujas doenças não conseguem tratar ou dar solução”, disse.

Luzolo olha para a ganância pelo dinheiro como base do aparecimento de muitos curandeiros, a quem considerou de "mentirosos”. "É preciso ter muita atenção quando se vai consultar determinadas pessoas que se identificam como curandeiras”, alertou.

Muitos destes supostos curandeiros chegam até a provocar confusões nas famílias, segundo Paulo Nzengueni, outro interlocutor do Jornal de Angola.

Fonte de cura e sustento familiar

O mercado municipal do Uíge, no centro da cidade, é o ponto de referência da venda de plantas medicinais. Existe uma área reservada para o efeito, cujas bancadas são dominadas por mulheres, que partilham os mesmos clientes. "Aqui não temos problemas, somos unidas, podemos partilhar os nossos clientes. Mesmo assim, vendemos o possível e no final do dia, todas saímos a ganhar”, disse, a sorrir, uma das vendedoras.

Lusucadio Oracho, de 59 anos de idade, vende medicamentos tradicionais desde 1997. Ela prepara e conserva cada tipo em garrafas, como o famoso "tangawisi” ou "zola miongo”, para o alívio de dores nas articulações e para o combate à impotência sexual. Revelou que encontra os remédios nas zonas florestais da província do Uíge, rica em plantas medicinais e que não precisa andar muito para adquiri-las. Explicou que o "zola miongo” e o "timba timba” são afrodisíacos vendidos em frascos de água mineral de pequeno, médio ou grande porte, muito procurado, sobretudo por homens.

A vendedora Luciana José dos Santos abastece-se do produto medicinal a partir de aldeias vizinhas da cidade do Uíge. Para adquirir as raízes medicinais não precisa percorrer longas distâncias. Ela recorre a certos moradores de alguns bairros que fornecem os remédios. "Os camponeses colhem nas matas e trazem aos montes até a um lugar já combinado, onde eu recolho, depois de lhes pagar”.

"Com este negócio trato algumas doenças e sustento também a formação dos meus filhos e a família”, disse, apontando conhecer outras mulheres e homens que dependem deste negócio para o sustento das famílias.

Luciana José chega geralmente cedo ao mercado. "Quase sempre almoço aqui. Só vou para casa à tarde. Às vezes, as crianças, quando têm alguma preocupação, vêm aqui, dou o que precisarem e nos encontramos mais tarde em casa”.

Luciana José tinha na bancada o ndungu a Kongo ou gindungo do Kongo, excremento de elefante que disse servir para o tratamento de mulheres em estado de gestação, o zipeve, que serve para aliviar o sistema metabólico de crianças, a cola cola, para o tratamento de colo aberto, o doce-doce, para o tratamento da impotência sexual, ejaculação precoce e dores das articulações.

A bancada de Luyeye Kiamesu, que vende próximo de casa, está recheada de ngibidi (gengibre) em baldes para a revenda aos retalhistas. Disse ter recebido um carregamento de Maquela do Zombo, onde são  produzidas muitas dessas raízes, com múltiplo valor curativo e nutricional.

Disse que não precisa vender no mercado porque a sua clientela vai ao seu encontro. "Esse aqui é sinal de aviso aos clientes, porque o resto está no quintal da casa”, disse. Informou que a maioria dos clientes vem de Luanda, onde revendem o produto, sobretudo no mercado dos Kwanzas e Kikolo.

Necessidade de formação

Amélia Simão defendeu a necessidade de se retomar as formações e palestras periódicas de terapeutas e vendedoras de medicamentos tradicionais, que antes da pandemia eram realizadas pela Câmara Provincial dos Terapeutas. "Antes da pandemia beneficiávamos trimestralmente de palestras e formações básicas sobre o uso de plantas medicinais, como tratar um doente, a higiene e as doses a dar ao doente, mas a pandemia fez com que os seminários ficassem suspensos e queremos que nos próximos dias sejam retomados”, defendeu.

O coordenador da Câmara Provincial dos Terapeutas do Uíge, Jorge Geraldo, garantiu a retomada, em breve, da formação dos terapeutas. Informou que está prevista a deslocação, a Luanda, de 16 professores para serem capacitados. Logo que regressarem vão assegurar a formação dos terapeutas e parteiras tradicionais.

A este propósito, Jorge Geraldo informou, ainda, que existe um projecto entre o Governo local, através do Instituto Técnico de Saúde, e a Câmara Provincial dos Terapeutas. O objectivo, disse, é capacitar os terapeutas em técnicas de tratamento, dosagem, cuidados a observar no tratamento, higiene e fornecimento de ferramentas para quem deseja ser terapeuta ou vendedora de plantas medicinais. "Com esta formação, vamos também facilitar a divulgação da prevenção e tratamento de várias doenças com a medicina tradicional e facilitar a ligação com os técnicos de Saúde Pública”, sublinhou.

Eles, periodicamente, têm cadastrado e recadastrado os terapeutas e parteiras tradicionais para a determinação do verdadeiro número de pessoas que se dedicam ao ofício. Até o ano de 2016, a província contava com 14 mil terapeutas e parteiras tradicionais. "Acreditamos que o número cresceu, por isso todos os terapeutas e parteiras serão recadastrados na base de dados da Câmara Provincial dos Terapeutas”, acrescentou.

Legalização dos centros

Segundo Jorge Geraldo, a província tem 10 centros de medicina tradicional legalizados. O processo continua, em colaboração com o Gabinete Provincial de Saúde, para permitir que os profissionais exerçam a sua actividade de forma organizada e legalizada. A criação de condições condignas de acomodação e tratamento dos pacientes constitui um dos grandes objectivos da catalogação desses lugares de tratamento. "Queremos que os centros de tratamento tradicional ou medicina natural tenham condições para acomodar e tratar pacientes.  Muitos terapeutas tratam os pacientes nas suas residências em condições impróprias, facto que transmite uma percepção negativa aos pacientes. Por isso, precisamos mudar este quadro para permitir que o terapeuta cuide do paciente em espaços adequados”, precisou.

O responsável alertou ainda para a necessidade da observância da higiene no manuseamento dos equipamentos e medicamentos usados nos centros de tratamento tradicional, de forma a oferecer uma assistência de qualidade. Advertiu os terapeutas no sentido de não fazerem do corpo humano um instrumento para testagem de práticas medicinais.

Multiplicação de plantas

Diversas espécies de plantas medicinais estão a ser multiplicadas, através de um processo de enxertia, em estufas. O projecto está a cargo de terapeutas e naturopatas filiados na Câmara de Medicina Tradicional da província. Segundo Jorge Geraldo, o processo iniciou em 2020. "O maior foco está virado para a multiplicação de plantas em vias de extinção e aquelas que não existem na província do Uíge”, sublinhou.

Entre as plantas medicinais já catalogadas e em crescimento   constam o embondeiro, que fornece materiais para o tratamento do desequilíbrio hormonal dos órgãos femininos, as folhas de bananeira, utilizadas  como antibiótico de largo espectro,   folhas de abacateiro, usadas para o tratamento de hipertensão arterial, caroço de abacate, para o tratamento de varicelas,   folhas de maracujá, que servem  para  combater  o stress e a insónia e as folhas de goiabeira para tratar   inflamações na garganta, vómitos, menstruação irregular, entre outras doenças.

O terapeuta avançou que muitas das espécies de plantas medicinais existem em todos os municípios da província, sobretudo aquelas plantas comestíveis cultivadas pela população. A Câmara, disse, está a incentivar a multiplicação de novas espécies, porque existem géneros que se encontram em vias de extinção. O ndondolondo, uma raiz que trata a impotência sexual, e a fúmbua, que embora seja alimento possui também efeitos curativos para os diabéticos, são indicados como estando em vias de extinção, embora sejam plantas selvagens.

O responsável avançou que o que se pretende é evitar a procura massiva de plantas medicinais na província, garantir a conservação das espécies existentes, bem como promover a medicina natural nas comunidades. "A província do Uíge, devido à vasta floresta, tem muitas plantas medicinais. Precisamos de apoios do Executivo e de outros parceiros para o êxito deste projecto de multiplicação de plantas medicinais”, apelou.

Apontou a falta de meios de transporte e equipamentos informáticos como sendo as principais dificuldades que afectam a instituição, visto que os técnicos precisam de se deslocar às florestas para a catalogação de novas espécies de plantas, bem como supervisionar a actividade nos municípios.

Silvino Fortunato e Válter Gomes | Uíge

 

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