Reportagem

Sahel, região fértil em golpes de Estado

O Sahel tem tudo, apesar de haver uma ideia de que no deserto não existe nada, da mesma forma que já vários exemplos me foram dados a propósito do mito do turista que, ao sair do ferry em Tânger, conta com um mar de areia e dunas por Marrocos afora.

06/03/2022  Última atualização 06H35
© Fotografia por: DR

O Sahel, trata-se da "fronteira” (tradução literal) natural que separa o norte de África, o extenso Deserto do Sara, da restante África subsariana. Longa faixa que se estende por 5.400 quilómetros, da Gâmbia/Senegal até à Somália e que tem em média entre 500 e 700 quilómetros de largura. Logo, uma zona de fronteiras no papel, indefinidas e quase sempre imaginárias no terreno, sem marcos ou postos fronteiriços como habitualmente os conhecemos.

Dada a vasta extensão desta longa "língua de areia” que "liga” o Atlântico ao Mar Vermelho, concentramos esta análise no Sahel Ocidental, política e militarmente chamado de G5-Sahel e que inclui a Mauritânia, o Mali, o Burkina Faso, o Níger e o Chade. Do ponto de vista da importância geoestratégica para a Europa, o Mali tem concentrado todos os ingredientes para a necessidade do estabelecimento de missões militares tanto da França (Barkhane), como das Nações Unidas (MINUSMA), alocando também num país dividido ao meio entre areia e "bosque tropical”, toda uma parafernália militar que à partida se tem demonstrado ineficaz num combate sempre desigual entre máquina e terreno, tendo este último particularidades e características, sobretudo a norte, também distintas de região para região, apesar de se tratar sempre de ambiente seco, desértico e inóspito. É aliás isso mesmo que obriga à distinção entre populações, entre tribos, entre alinhamentos clãnicos e tribais.

Confederações tribais a norte

As diferentes tribos tuaregues no Mali (concentremo-nos aqui, apesar de Níger, Chade e Burkina também serem "casa tuaregue”) têm uma História antiga e diferente umas das outras. A sua chegada ao Sara corresponde a diferentes momentos e contextos históricos nos quais estas tribos se estabelecem e, pouco a pouco, vão constituindo uma aparente cultura comum, a qual escapa ao observador menos avisado sobre a questão tuaregue. O leigo na matéria classifica "os tuaregues” como "os ciganos”, "os berberes” ou "os árabes”, achando que pertencem todos à mesma família.

O norte do Mali, vulgo Azawad (em rigor o Azawad original, trata-se de apenas um "pequeno” cubo de transumância - movimentação do gado na procura de alimento, sempre acompanhado do respectivo pastor/família - situado ao norte de Tombuktu), divide-se em três grandes zonas. A nordeste, a região de Kidal, onde impera a Tribo dos Ifoghas. Foi aliás irritante para estes e outras tribos, afiliadas ou não, verem e ouvirem analistas e jornalistas franceses e outros, a partir de 2013, aquando do início da Operação Serval, encherem a boca com a expressão "Adrar des Ifoghas”, como se de grandes conhecedores da região se tratassem.

O "adrar” são as montanhas, elemento que à partida parece incompatível com a paisagem do deserto que nos vem à mente sempre que o deserto é tema de conversa. Não se trata de "serras de Sintra no meio da areia”, mas antes "praias da rocha” onde estas, as rochas cavernosas, salpicam a areia num maciço montanhoso que abarca cerca de 250 mil km2. Uma paisagem lunar, portanto, com picos não superiores a 100 metros, extensos vales e cavernas que ligam uma rocha à outra e à outra e onde o AQMI (Al-Qaeda no Magrebe Islâmico) encontrou refúgio ideal a partir de Janeiro de 2013.

A Confederação Ifoghas é composta pelos próprios Ifoghas, pelos Imghad, pelos Idnan, pelos Chamanamas (minoritária) e por uma quantidade enorme doutras tribos minoritárias e tributárias das principais e/ou fracções e sub-fracções destas. O assunto não é simples e o que hoje é, amanhã pode já não ser, razão pela qual principalmente os franceses e mais recentemente qualquer ocidental fardado é sempre mal visto pelos locais, já que é muito simples jogar o jogo do dividir para reinar. Estas tribos minoritárias e demais facções clãnicas, no lúmpen societal dos tributários, facilmente mudam de alinhamento por uma caixa de aspirinas, de viagra, ou ainda por umas sacas de carvão. Terra onde não há árvores, não há carvão!

A sudeste, a região de Gao e Menaka, onde impera a Tribo Imouchar, também conhecida por Iwillimiden. A Confederação Imouchar/ /Iwillimiden é composta pelos próprios, por uma grande parte de Chamanamas (em sintonia com os Chamanamas dos Ifoghas de Kidal), pelos Dossahaq e pelos Kel Essouk. Como no caso anterior, também há aqui uma miríade de tribos minoritárias tributárias, ou de uns, ou outros. Este sudeste não é exclusivamente tuaregue como o norte, tendo sobretudo uma forte presença Songhai, uma etnia negra maioritária aqui e minoritária em Tombuktu.

A sudoeste, na região de Tombuktu impera a Tribo dos Kel Ansar, sendo esta Confederação composta pelos próprios Kel (Povo) Ansar, por uma maioria dos Cheriffen, e por uma grande parte de berberes alinhados com a grande família Kel Ansar (oriundos originalmente de Medina e do Iémen e que se instalam na região em meados do Séc. XVI, tendo antes disso fixando-se no Al Andalus, do qual o nosso além Tejo fez parte). Esta região é tão complexa como as anteriores, no que toca às relações de fidelidade e dependência entre os seus membros. Tombuktu, a cidade/região mais cosmopolita do Azawad/norte do Mali, também tem presença das etnias negras Songhai e Fula (esta muito assimilada pelos Tamachek, vulgo tuaregues). A presença de mouros, sem aspas, que falam hassanya (língua franca desde o sul do Marrocos até ao Mali e que remonta aos tempos das caravanas dos séculos XV e XVI), também é muito contabilizada nesta região. Trata-se de berberes arabizados, mas nunca aculturados, mantendo assim uma especificidade que os distingue e os coloca numa categoria à parte. Islamizados e crentes como todos os outros, gosto sempre de caracterizar estes mouros com um rótulo proibido no Islão, o de "muçulmanos não praticantes”!

 

Raúl M. Braga Pires

*Politólogo/Arabista.

Texto publicado no jornal Diário de Notícias

 

  ALINHAMENTOS

Tribos nos grupos rebeldes e partidos políticos no Mali

O Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA), sempre se apresentou como o preferido dos franceses para as negociações, já que foi sempre a maior força unificadora dos diferentes interesses tribais, o que a contrario sensu sempre foi também a sua maior fraqueza.

Para se chegar até à actualidade, é preciso partir de 1990, com a constituição do Movimento Popular de Libertação de Azawad (MPLA), composto por tuaregues e todos os mouros do norte (grupo arabo-berberófono), até ao momento da assinatura dos Acordos de Tamanrasset, a 6 de Janeiro de 1991. Durante as negociações destes Acordos, sob pressão maliana e argelina, o "L” de "Libertação” é retirado e o MPLA, torna-se MPA. Em simultâneo, surge a Frente Islâmica Árabe de Azawad (FIAA), criada apenas para fazer parte do processo negocial em curso.

Em 1991, surge a Frente Popular de Libertação de Azawad (FPLA), com a justificação de que as lutas de interesses no seio do MPA não permitiriam uma defesa correcta da causa tuaregue. O FPLA foi maioritariamente constituído por membros da tribo Chamanamas de Gao e Menaka.

Também em 1991, surge o Armée Révolutionaire de Libération de l”Azawad (ARLA), composto pela tribo Imrad de Kidal, Gao e Tombuktu, os quais eram antigos tributários dos Ifoghas de Kidal, dos Kel Ansar de Tombuktu e dos Imouchar/Iwillimiden de Gao e Menaka.

Em 1992, surgem a Frente Nacional de Libertação de Azawad (FNLA), composto pela tribo Idnan de Gao e de Kidal e a Frente Unida de Libertação de Azawad (FULA), exclusivamente constituída pela tribo Kel Ansar de Tombuktu, dissidentes do MPA e da FPLA.

Há assim, 4 movimentos (MPA, FPLA, ARLA, FIAA) a negociar com a Argélia e esta condiciona as negociações, dizendo que quer apenas um interlocutor. Surge assim o Movimento Frente Unida de Azawad (MFUA), sendo este a assinar o Pacto Nacional a 11 de Abril desse mesmo ano (1992). Ponto importante: não confundir com Tamanrasset/91. Este Pacto visa a garantia do cessar-fogo total entre Mali e MFUA, acordados em Tamanrasset/91.

O FNLA e o FULA não integram o MFUA, pois foram criados após a assinatura do Pacto Nacional, mas em 1994 são aceites no momento em que o MFUA integra a Administração e o Corpo Militar e Paramilitar do Mali. Os períodos de paz foram sobretudo propícios para a reintegração dos que romperam, sendo que, a partir de 1996, todos os movimentos deixaram de existir oficialmente, ficando no registo e na memória as fidelidades forjadas e as rupturas criadas.


Terroristas/jihadistas


O começo é pelo AQMI, entidade unificadora dos diversos grupos/tendências que surgiram posteriormente, baseados nas ligações regionais/ /tribais desenvolvidas anteriormente. O AQMI é uma reciclagem datada de 2007 do argelino, Grupo Salafista para a Prédica e Combate, que após o fim da guerra civil na Argélia, necessitava de nova missão, de novo fôlego.

A este propósito, é importante ter em conta o interesse argelino nesta reciclagem, bem como se ter tratado de um processo iniciado e controlado pelos serviços argelinos. Sabendo que o problema não desaparece por decreto, mais vale integrá-lo na tentativa de manter um conhecimento das tendências a partir de dentro, para ter um controlo possível sobre os objectivos e as acções dos terroristas, manipulando-os também. Ignorar esta realidade seria estar completamente despreparado para o que vier e, neste domínio, há sempre algo por chegar.

Desta forma, o AQMI federou o Ansar Eddine, sucursal criada para ganhar os corações dos Kel Ansar de Tombuktu, que os rejeitaram, mantendo-se o seu núcleo duro com Ifoghas de Kidal. Já o MUJAO, Movimento de Unidade para o Jihad na África Ocidental, de maioria étnica Songhai, incluindo mouros, fulas, nigerianos, sahraouis, alguns tuaregues e mauritanos foi criado a partir do AQMI, para a conquista dos corações de Gao, onde está a maioria desta etnia.

Outros grupos há por considerar, criados da mesma forma e com os mesmos objectivos, ficando aqui uma ideia da complexidade com que os franceses, actualmente de saída do palco maliano, se depararam desde o século XIX, provando também que estes "inimigos” não se combatem com bombardeiros supersónicos, mas sim com a conquista da empatia das populações, a grande dificuldade da potência ex-colonizadora em terra de quem lutou com sangue suor e lágrimas pela sua própria emancipação.

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