Cultura

Safári musical pelo continente africano

Analtino Santos

Jornalista

Temos “Aye África” (Le Bucheron), “Independence Chá Chá”, “Soul Makossa”, “Zombie”, “Mario”, “Pata Pata”, “Soweto Blues”, “Agolo”, “Wombo Lombo”, “Emma”, “Birima”, “Jammu Africa”, “Moffou”, “Yeke yeke”, “Neria”, “Bring Back Nelson Mandela”; e ainda “Stimela”, “Sodade”, “Bory Samory”, “Different Colours-One People” e “Françafrique”. A trilha sonora será acompanhada por pequenas notas a respeito dos respectivos intérpretes. Excepcionalmente, de Angola a opção não foi uma música mas um álbum, “Angola 72” de Bonga.

22/05/2022  Última atualização 14H35
© Fotografia por: DR

Como primeira sugestão, o grande Franklin Boukaka (1940-1972), com "Ayé Africa” (Le Bucheron), um quase hino do continente; o tema foi arranjado por Manu Dibangu. Apesar do seu engajamento na época das independências, Boukaka foi ostracizado pelo poder político. O artista trabalhou nas margens do rio Congo (Brazzaville-Léopoldville), tendo ajudado a fundar a Brazzaville Negro Band em 1958. Trabalhou ainda com a banda Jazz Africain Léopoldville (Kinshasa), que integrava Roucheraux, Jeannot Benga, Edou Clary, Cassinou e Damoisau. Deixou para trás alguns membros do grupo quando foi para Bruxelas, em 1960, para a conferência sobre a independência do Congo Belga; e juntou-se, posteriormente, em Kinshasa, à formação Vox África.

Joseph "Grand Kalle” Kabaselle, nascido em Matadi, RDC (1930) e falecido em Paris, França (1983) acompanhado pela célebre formação congolesa African Jazz fez um "outro” hino africano que é "Independance Chá Chá”. Joseph Athanase Tchamala Kabaselle era descendente de uma família congolesa proeminente, que incluía o cardeal Joseph Malula Kallé. Popularmente conhecido como Le Grand Kallé, Joseph Kabaselle é considerado o pai da música congolesa moderna.

Manu Dibango (Douala, 12 de Dezembro de 1933 – Paris, 24 de Março de 2020). O seu percurso de vida confunde-se com a história da música moderna africana. E desta estrela nada melhor que escolher o seu maior sucesso, "Soul Makossa”, e a parceria com o nosso Bonga no tema "Diarabi”, do álbum "Waka África”, um projecto pan-africano, no qual,  também conhecido Marabú reuniu algumas das principais vozes do continente como Papa Wemba, Ray Piri, Touré Kunda, e outros. Manu Dibango foi dos mais inconformados artistas africanos e sempre esteve aberto a novas sonoridades e parcerias com diferentes gerações. Papa Groove, outro codinome da estrela camaronesa, reconhecida em 2002 pela UNESCO como Artista da Paz, foi o embaixador dos países da francofonia nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. Manu Dibango deixou-nos em 2020 vítima de Covid-19. 

Fela Kuti (Abeokuta, 15 de Outubro de 1938 - Lagos, 2 de Agosto de 1997) é, sem dúvidas, outro grande peso pesado da música africana, o pai do Afrobeat (não confundir com as novas tendências). Músico irreverente, deixou um forte legado musical. Fela Anikulapo Ransome Kuti teve o saxofone como instrumento de eleição, mas foi multi-instrumentista, compositor, activista e político, tendo sido um dos maiores opositores aos regimes militares no seu país. É de destacar aqui o confronto directo que teve com o general Olusengo Obasango, hoje tido como um dos rostos das democracias em África. De Fela Kuti a sugestão neste espaço vai para a famosa e sempre actual "Zombie”, um ataque aos militares, em que se descrevem os métodos das forças armadas nigerianas de então e dos regimes ditatoriais ou pseudo-democratas. O álbum "Zombie” foi um sucesso de público e enfureceu o governo nigeriano, dando início a um cruel ataque à auto-proclamada República Kalakuta. Uma das grandes marcas de Fela Kuti é a duração das suas músicas, com mais de 15 minutos. Femi e Seuni Kuti, os filhos, seguem a sua linha e perpetuam o Shrine, uma casa de espectáculos que atrai turistas para a periferia de Lagos.

Luambo Luanzo Makiadi (6 de Julho de 1938 - 12 de Outubro de 1989), o grande Francó, antes da "autenticité” de Mobutu, é considerado uma das maiores figuras do século XX da música congolesa e africana no geral. Foi o fundador do incontornável TP OK Jazz, uma das maiores referências da Rumba Congolesa. Em Angola, uma nação que reclama a paternidade da Rumba Congolesa e dos bolingós, como muitos aficcionados tratam os ritmos provenientes da outra margem do Rio Nzadi, a voz de Francó é conhecida desde a primeira hora. Do exímio guitarrista a eleita aqui é "Mario”, música que tem merecido inúmeras versões.

Miriam Makeba (4 de Março de 1932, Joanesburgo - 10 de Novembro de 2008, Roma) foi a voz feminina mais representativa e aclamada do continente. Como sugestão neste roteiro apontamos os temas "Pata Pata” e "Soweto Blues”, que marcam o percurso da estrela que morreu durante um concerto. Também conhecida como "Mamã África”, foi uma grande activista pelos direitos humanos e contra o apartheid no seu país natal. Miriam Makeba começou a carreira em grupos vocais nos anos 50, interpretando uma mistura de Blues, Jazz, Soul e ritmos da África do Sul.

Angelique Kidjo (Uria, 14 de Junho de 1960). Desta multi-premiada artista de muitos ofícios escolhemos, igualmente, dois temas: "Agolo” e "Wombo Lombo”. A beninense tem, seguramente, uma das mais consistentes e aclamadas carreiras musicais em África. Ela é uma mulher de causas, que tem marcado várias gerações do continente. Não foi por acaso que em 2018 cantou para uma plateia de líderes mundiais (Putin, Merkel, Trump, Macron, etc., etc.) em Paris durante a cerimónia do centenário do Armistício. Já constou entre as dez personalidades mais influentes do continente. Foi indicada como Embaixadora da Boa Vontade da UNICEF em 2009 e não esconde a sua admiração por Miriam Makeba e pela cubana Célia Cruz, tendo conquistado com o álbum dedicado a esta cantora o seu último Grammy, em 2020. Num dos seus mais recentes projectos discográficos deu o seu toque a "Independence Cha Cha”, num tributo aos anos 60, considerado o das Independências Africanas.

Do Senegal trouxemos três propostas: Touré Kunda, Youssour Ndour e Ismael Lo. Touré Kunda, o trio proveniente da região de Casamance, marcou e fez muito sucesso nos anos 80. Fizeram dançar África e o mundo com "Emma”, um apelo à unidade africana.

Youssour Ndour (1 de Setembro de 1959) é um dos artistas mais influentes do continente; dele escolhemos "Birima”. Nasceu e cresceu em Medina, bairro de Dakar. Impulsionado pelo promotor e produtor Ibraim Cassé começou a destacar-se na Star Band de Dakar. Muçulmano seguidor do sufismo, tem trabalhado com vários artistas internacionais. Foi com Peter Gabriel que começou a despontar internacionalmente, na rotulada World Music. Uma das suas canções mais famosas é "Seven Seconds”, um dueto com Neneh Cherry. Em 1988 compôs o hino para o Mundial de 1988, que aconteceu em França, com a belga Axelle Red. Compôs a trilha sonora do filme de animação "Kiriko e a terceira feiticeira”.

Fechamos o ciclo senegalês com Ismael Lo (Dogondoutch, Níger, 30 de Agosto de 1956). Não obstante ter nascido fora do Senegal, faz parte dos músicos deste país. É um dos africanos que se notabilizaram nos anos 80; o seu "Jammu Africa” encaixa perfeitamente neste roteiro musical africano, já que é, para muitos, mais um hino oficioso de África.

Salif Keita (25 de Agosto de 1949) é outro grande embaixador que leva o nome do continente para os quatro cantos do mundo. Tem sangue real porque é descendente de Sundiata Keita, fundador do Império do Mali. Nasceu em Djoliba, aldeia que abandonou muito jovem. Foi ostracizado devido ao seu albinismo e hoje é um dos rostos da luta contra o preconceito relativamente a esta condição. Entre "Moffou” e "Mandjou” optamos pela segunda, um tema de profunda gratidão a Sekou Touré. Segundo a revista Jeune Afrique, este tema "saiu numa época em que Sekou Touré era visto como um tirano, mas Salif Keita cantou porque tinha uma dívida moral com este panafricanista”. Sekou Touré apostou nos artistas do continente e tal como fez com Miriam Makeba também condecorou Salif Keita com a Ordem Nacional do Mérito.

No percurso artístico de Salif Keita destacamos a passagem pelo Super Rail Band de Bamako, em 1967, e depois pela outra grande e histórica formação, Les Ambassadeurs de Abidjan, que marcou a música africana na década de 70. Aí foi reforçada a parceria com Kanté Mafilla, guitarrista e parceiro de longa data, tal como no tema "Mi Amori” com Cesária Évora; Mafilla foi ainda o compositor de "Afwene” do angolano Samangwana. 

Mory Kanté (Albadaria, 29 de Março de 1950 - 22 de Maio de 2020, em Conacry). Sem rodeios, a sua música proposta para audição neste roteiro é "YeKe YeKe”, mega hit de 1987 que deve ser sempre revisitado. Descendente de uma família de griots, foi criado por mandingos.  Aos 7 anos de idade foi enviado ao Mali, onde aprendeu a tocar Kora, bem como importantes vocalizações tradicionais, algumas das quais necessárias para se poder tornar um griot. Aos 15 anos de idade mudou-se para Bamako, e em 1971 entrou para a Rail Band, onde Salif Keita era um dos vocalistas. "YeKe YeKe” foi um grande sucesso de vendas em vários países da Europa no ano de 1988, tornando-se Mory Kanté o primeiro africano a vender mais de um milhão de cópias. Foi nomeado Embaixador da Boa Vontade da FAO. 

Dois companheiros da nossa região que lá no alto, nas estrelas, fazem parte da trilha sonora de muitos africanos e têm espaço neste ensaio são o zimbabweano Oliver Ntukudzi (Harara, 22 de Setembro de 1952 - 23 de Janeiro de 2019) e o sul-africano Hugh Masekela (4 de Abril de 1939 - 23 de Janeiro de 2018). Do primeiro "Neria” é a preferida por muitos. Ntukudzi foi muito irreverente e na fase final da sua carreira era um dos principais críticos de Robert Mugabe.

Hugh Masekela, tal a sua ex-companheira Miriam Makeba, personifica a luta anti-apartheid e da arte como arma de combate. "Bring Back Nelson Mandela” e "Stimela” têm lugar cativo neste espaço. Hugh Masekela e Oliver Ntukudzi morreram no mesmo dia, 23 de Janeiro, o primeiro em 2018 e o outro um ano depois.

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