Entrevista

“Saberemos honrar a memória do médico e primeiro Presidente de Angola, construindo uma unidade hospitalar de vanguarda”

Rui Ramos

Jornalista

O doutor Imadoeno Cabral é um jovem quadro cabo-verdiano. Com os seus 37 anos, aceitou o desafio que o Governo lhe lançou em 2021: ser o PCA do Hospital Agostinho Neto, o grande hospital da Cidade da Praia, a capital de Cabo Verde. Com uma licenciatura em Administração Hospitalar, Imadoeno Cabral fez 3 mestrados em Espanha, um doutoramento e neste momento é doutorando numa universidade portuguesa.

17/09/2022  Última atualização 07H45
© Fotografia por: DR
O doutor Imadoeno Cabral, em entrevista ao enviado do Jornal da Angola na Cidade da Praia, a propósito da comemoração do Centenário de Agostinho Neto, falou do que encontrou quando aceitou o cargo de PCA e dos desafios a curto e médio prazos.

Rui Ramos, enviado a Cabo Verde

 

Como se sente ao dirigir uma instituição desta envergadura e com referência ao nome do primeiro Presidente da República de Angola?

O Hospital Dr. Agostinho Neto é uma entidade pública do Governo cabo-verdiano e funciona como hospital central há 16 anos. É uma unidade hospitalar que nasceu há alguns séculos a trás, perto do mar, na zona em que as pessoas escravizadas vindas da costa ocidental africana eram acolhidas para serem metidas em barcos com destino às Américas. É uma zona costeira com canhões apontados ao mar, pode dizer-se que o hospital nasceu entre canhões, um local estratégico, no «plateau», onde também foi construída a igreja matriz Nossa senhora da Graça e a câmara municipal.

 

De que século estamos a falar?

Talvez o século XVI mas o processo de escravização prolongou-se, as pessoas eram transportadas em porões de navios provavelmente para o Brasil e outras terras.

 

Como se deu a génese deste hospital?

Este hospital existe com este nome desde 2006, como homenagem ao médico angolano Dr. Agostinho Neto que por aqui passou na condição de prisioneiro político, e aqui ainda exerceu a sua actividade e depois foi o primeiro Presidente da República de Angola. É, pois, uma responsabilidade muito pesada dirigir uma unidade com este patrono.

Na verdade, este foi o primeiro hospital construído e era direccionado para as doenças das pessoas escravizadas, de que falarei mais adiante.

Quando Agostinho Neto, como Presidente de Angola, visitou Cabo Verde, por volta de 1976, veio ao hospital visitar velhos amigos, aqui teria prestado alguns serviços na condição de degredado, nos anos 1960. Ele encontrou um só pavilhão, de ortotraumatologia, porque as pessoas escravizdas apresentavam problemas de ossos muito graves e eram tratadas aqui antes dee serem encerradas nos porões. Este é um edifício histórico, pois, e com o nome com que foi baptizado pretendeu-se homenagear a actividade política e profissional de Agostinho Neto.

O que representa para vocês Agostinho Neto?

Agostinho Neto é uma referência em Cabo Verde, tanto como técnico de saúde como na literatura, além da sua luta nacionalista. Por isso, como disse, a nossa responsabilidade aumenta, sentimos obrigação de primarmos pela qualidade sempre acrescida. Eu vim de outro hospital, onde estava desde 2011, o Hospital de Santa Rita, em Santa Catarina. Em 2020 fui convidado a dirigir este hospital, aceitei, consciente das enormes dificuldades que a unidade enfrentava. Assumir que tínhamos défice de capital humano, os chamados recursos humanos, de 50%, o número de técnicos é insuficiente.

 

O que fez após aceitar o cargo de PCA?

Apresentei um plano de governação com estratégias claras e simples para o maior hospital do país. Historicamente, sou o director mais novo de sempre. Garanti que apresentaria mudanças em dois anos. Encontrei uma situação muito complexa de conflitos entra a população e o corpo clínico, entre equipas e técnicos. Na verdade, uma em cada cinco pessoas da ilha está envolvida no hospital, ou como profissional ou como familiar de profissional.

 

Quantos postos de trabalho existem no hospital?

Temos 1.300 postos directos, 80 médicos, sendo 90% de especialidades, isto é, temos 32 especialidades médicas e cirúrgicas. O que fiz? Não mudei nenhuma estrutura, não afastei ninguém, foi uma surpresa. Mantive o mesmo CA e recusei-me a criar inimigos. Não me envolvi nas decisões políticas, não interferi na gestão interna. Somos 5 membros no CA, incluindo uma administradora não-executiva, que representa os trabalhadores, a médica oncologista doutora Hirondina Borges.

 

Como tudo começou?

Iniciei em Outubro de 2020, não conhecia as pessoas, na primeira reunião éramos estranhos. Em 24 horas apresentei um plano à tutela, que foi aceite, nessa altura havia uma forte luta política, posso mesmo falar em crise. Encontrei também no hospital numa situação de crise, não havia meios de diagnóstico nem imagiologia, não havia quase nada, posso afirmar. O Governo manifestou confiança em mim mas a comunicação social pressionava muito, chegou a haver tentativas de bloqueio, que eu ultrapassei. Em 90 dias fiz a inauguração de quatro serviços, que apresentavam no início 90% dos problemas do hospital. Construímos a imagiologia com equipas de ponta, a tomografia não existia, bem como o laboratório, que equipámos. Eu consigo ver no meu gabinete todas as chapas, assegurei a monitorização de tudo em tempo real, os desvios para o sector privado começaram a enfraquecer. Na verdade, a saúde é tendencialmente gratuita mas havia graves desvios a esse direito das pessoas. Mexi em tudo. Nas urgências a mudança foi forte. A zona de maior risco era o atendimento voluntário, que apresentava cerca de 90% das reclamações. Lançámos a maternidade, a pediatria e a urgência de adultos, bem como o serviço de diagnóstico. Reorganizámos a estatística, com pesquisa da taxa de admissão ou atendimento, nesses serviços, em horas diferentes, em quatro horários, 8h-11h, 12h30-1430, 18h30-20h30 e madrugada. Era grave o primeiro período, as pessoas vinham de longa de madrugada com fome e com pressa de regressar casa. É gente muito pobre. Fizemos identificação por cores de gravidade e começámos a escrutinar o desempenho médico, com a atribuição d responsabilidade especial ao director clínico, e fizemos o redimensionamento por especialidade.

 

Quantos doentes atendem por dia?

Cerca de 500. Temos 470 camas para internamento mais as do bloco operatório e das urgências.

 

Os médicos são todos cabo-verdianos?

A maioria sim, mas temos também a colaboração de médicos cubanos e chineses. E de médicos portugueses que se deslocam temporariamente.

 

Fale da sua estratégia.

Queremos elevar o hospital para outro nível de qualificação, com numa gestão hospitalar assente na assistência, ensino, gestão e investigação. A nossa urgência é o Hospital Universitário António Agostinho Neto. Repare, os nossos médicos são formados aqui na Universidade Pública de Cabo Verde, com cooperação portuguesa. Escolhemos 17 médicos para monitores e também da Universidade de Coimbra.

 

E assim foi criado, aqui, o Hospital Universitário Doutor Agostinho Neto…

Sim, em 2021, o nosso primeiro centro de investigação, Clínica e Inovação, o primeiro laboratório de Biologia Molecular, no qual foi feito há três meses o primeiro ensaio clínico no país em Imuno-histoquímica, respeitante a problemas do estágio dos cancros.

 

O problema com o cancro é grave em Cabo Verde?

Sim. É uma das principais causas de mortalidade e de transferência de doentes para Portugal. Temos serviço de quimioterapia, mas o problema com os cancros é na verdade grave. Mas também as doenças cárdio-cerebrais-vasculares, a insuficiência respiratória aguda, a pneumonia, as doenças coronárias… Mas não há malária, erradicámos a malária em Cabo Verde. E pusemos de pé a primeira unidade de cuidados intensivos do país, em Junho de 2022, para realizar transplantes de órgãos, em primeiro lugar de rins, temos 290 doentes renais e duas hemodiálises, uma aqui neste hospital e a outra em São Vicente, para diminuir o número de doentes que têm de ser transferidos para Portugal. Também fazemos implantes cardíacos, já fizemos 50.

Na verdade, vê-se uma grande dinâmica por todo o lado e um atendimento humanizado, não só em teoria mas em especial na forma atenciosa e diligente como vimos os profissionais se relacionarem com os doentes.

Sim, lutamos diariamente para atingirmos num elevado grau de humanização e de eficiência, aliados à competência, com o centro de investigação daremos passos importantes na formação do pessoal técnico e médico, o Hospital Universitário será uma unidade de desenvolvimento científico e de aprimoramento de conhecimentos. Mas ainda temos outro sector de que nos orgulhamos, o Banco de Leite Materno, o primeiro em África, que existe há 11 anos e já recolheu 4 toneladas e meia de toneladas/litros.

Mas também gostaria de falar da instalação do primeiro Centro Interpretativo de Saúde de Cabo Verde, aqui no hospital, com um espaço nobre que incluirá imagens e biografia de Agostinho Neto, para que as pessoas conheçam mais um pouco da vida e obra do nosso patrono, alguém que o colonialismo tentou amordaçar, fixando-lhe residência em terras distantes da sua, mas o Doutor Agostinho Neto, transportado para aqui como degredado político, foi muito bem recebido pela população, tanto em Santo Antão como aqui em Santiago, onde não permaneceu por muito tempo devido às grandes campanhas internacionais pela sua libertação, corriam os anos 1960, Neto teria 40 anos, já não era um jovem, tinha família constituída e filhos, foi bem recebido pelos cabo-verdianos, que nunca o esquecem.

MARIA DOS REIS DOS SANTOS VIU AGOSTINHO NETO EM 1976

Maria dos reis é ajudante dos serviços gerais do Hospital Dr. Agostinho Neto. Com 59 anos de idade, irradiando uma simpatia contagiante e expressando-se num crioulo (cabo-verdiano) doce, Maria dos Reis recebeu o enviado do Jornal de Angola, a quem confidenciou lembrar-se da visita do primeiro Presidente da República angolano, nos idos 1976 (ou 1977, ela não se recorda exactamente do ano, mas conserva a memória fresca dos factos). A funcionária do hospital vive desde sempre no Bairro Lem Ferreira e recorda-se, ainda jovem, de assomar â berma da estrada para ver Agostinho Neto acenando numa viatura descapotável à multidão que agitava bandeirinhas angolanas e cabo-verdianas, depois Agostinho Neto dirigiu-se à Câmara Municipal, lembra-se e a seguir ao Hospital, onde esporadicamente exerceu a sua actividade, com residência fixa imposta pelas autoridades coloniais. No hospital, Agostinho Neto encontrou-se com funcionários que teria conhecido anos 1960, "reconheceu-os logo”, diz Maria dos Reis, "foi uma euforia”, alguns queriam conhecer Angola e então Agostinho Neto convidou-os a viajar e eles foram ver Luanda.

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