Entrevista

Rui Ramos: Em África os Homens são as bibliotecas

Enviamos-lhe as perguntas por email e as respostas que voltaram são esta aula sobre bibliotecas de que gostamos muito e por isso nelas mal tocamos.

02/07/2020  Última atualização 07H33
DR

As bibliotecas, museus, arquivos históricos são, no geral, reservas da História e, de certa forma, da moral da Humanidade. Concorda?

Sim. Desde sempre, a Humanidade preocupou-se em reproduzir e comunicar a história da sua vivência. As primeiras inscrições nas paredes de grutas e em rochas são já um embrião de bibliotecas, nelas se inscrevem histórias, quase sempre verdadeiras, mas porque não também ficcionadas e abstractas, do viver diário. São disto exemplo as gravuras de Tchitunduhulu, uma estação arqueológica de arte rupestre, no Virei, Namibe, com gravuras e pinturas em cavernas e nas superfícies de rochas, representando desenhos geométricos, animais, seres humanos, paisagens e utensílios de trabalho.

Quando a Humanidade se desenvolveu mentalmente e os poderes foram instituídos fora das comunidades, a minoria tentou apoderar-se do conhecimento, para manter a maioria das populações em estado de ignorância. Desde sempre, os grupos dominantes, religiosos ou laicos, se apropriaram do conhecimento e o utilizaram e organizaram em seu proveito, seja para fins religiosos seja comerciais. Assim, esses depósitos escritos de conhecimentos foram durante muitos séculos monopólio de grupos restritos de poder ou servidores do poder. A Igreja Católica, por exemplo, era censora e inquisidora desses centros de conhecimento, mas nos seus próprios templos se organizavam bibliotecas secretas.

A Biblioteca Apostólica Vaticana é a mais antiga biblioteca da Europa, fundada em 1450, e actualmente possui mais de 8,3 mil incunábulos (livros impressos nos primórdios da imprensa, por volta do século XV), 150 mil códices manuscritos, 100 mil gravuras e desenhos e 300 mil moedas e medalhas.

Destruição de livros, censura, sempre aconteceram, mas os livros renasceram continuamente das cinzas. A obra “Margarida e o Mestre” do russo Mikhail Bulgakov ensina-nos que os manuscritos são indestrutíveis, apesar da tentativa de “destruição da memória” como nos diz o livro “A História Universal da Destruição dos Livros” de Fernando Báez, que nos choca quando defende: “É erro frequente atribuir as destruições de livros a homens ignorantes, inconscientes do seu ódio. Depois de 12 anos de estudo, concluí que quanto mais culto é um povo ou um homem, mais disposto se mostra a eliminar livros sob pressão de mitos apocalípticos.” E Báez vai mais longe: “Nesta história da destruição de livros se observará que a destruição voluntária causou o desaparecimento de 60 por cento dos volumes. Os restantes 40 por cento devem ser atribuídos a factores heterogéneos, entre os quais se destacam os desastres naturais (incêndios, furacões, inundações, terramotos, maremotos, ciclones, monções), acidentes (incêndios, naufrágios), animais (como a traça e os ratos), mudanças culturais (extinção de uma língua, modificação de uma moda literária) e os próprios materiais com os quais se fabricou o livro (a presença de ácidos no papel do século XIX está a destruir milhões de obras). Além disso, deve-se perguntar quantos livros foram destruídos por não serem publicados, quantos livros em edições particulares foram perdidos para sempre, quantos livros deixados na praia, no metro ou no banco de um parque chegaram ao fim.”

E atira-nos, fulminante: “É difícil responder a estas inquietações, mas o certo é que neste mesmo momento, quando você lê estas linhas, pelo menos um livro está desaparecendo para sempre”.

O 1 de Julho, proclamado Dia Mundial das Bibliotecas, visa enaltecer a importância da leitura na educação e formação das pessoas. Gostaríamos que abordasse este assunto.

Quando eu comecei a trabalhar na Cruz Vermelha de Angola, em 1980, a primeira coisa que me preocupou foi a existência de cerca de 20 colegas analfabetos. Não sabiam ler nem escrever. Uma colega foi formada no Ministério da Educação e Cultura como alfabetizadora e as aulas começaram. Eu pensei que enquanto houvesse pessoas analfabetas ao meu lado eu não era livre, porque o conhecimento é em grande parte reproduzido por forma escrita e a escrita envolve um “braço” fundamental, a leitura do que está escrito, a comunicação da mensagem, a sua segurança. A data é simbólica, no Mundo mantém-se um número elevado de pessoas que não sabem ler nem escrever, serão pelo menos 750 milhões de jovens e adultos, e outro número incalculável de iliteratos funcionais, sabem ler e escrever, mas não usam este poder, a envolvente da sociedade não é propícia, a luta diária pela comida preenche as suas horas.

As chamadas “bibliotecas”, literalmente “depósitos de livros”, são ancestrais - depósitos de papiros ou pergaminhos, pensa-se que a primeira, pelo menos conhecida, seja datada de 2500 a.C., na Mesopotâmia, no Médio Oriente. Hoje, muitos estudantes liceais não sabem onde fica esta região onde pela primeira vez apareceu a escrita em forma como a conhecemos e utilizamos hoje.

A biblioteca de Alexandria, no Egipto, foi das mais famosas e importantes do mundo, criada no séc. III a. C., chegou a ter cerca de 60 mil manuscritos em rolos de papiro e 700 mil volumes. Foi vítima de três incêndios e destruída várias vezes por poderes romanos e muçulmano e renasceu em 2012.

Como referi, a invenção da escrita, na Suméria, cerca de 3200 a.C., pode marcar o início da tentativa de o Homem comunicar de forma não perene, nas rochas, nas grutas, em pedras, em papiros, em pergaminhos, em todo o suporte que permitisse registar a sua actividade, os seus sonhos, os seus anseios, as suas preocupações. Mas mesmo com a invenção da escrita, a Humidade permaneceu iliterata, apenas uma minoria ligada aos poderes religiosos, políticos e económicos tinha acesso a essa ferramenta que permitiu o imparável desenvolvimento das sociedades.

No Ocidente, por exemplo, as bibliotecas em rede são relativamente recentes. O início de uma rede nacional de bibliotecas públicas na Grã-Bretanha remonta a uma lei-quadro de 1850, sob a Lei dos Museus de 1845, e Manchester foi a primeira cidade a abrir uma biblioteca de empréstimo gratuito, sem taxas de registo, em 1852.

Nos EUA, a Biblioteca Municipal de Nova Iorque, cuja construção começou em 1849 e terminou em 1901, hoje possui 20.402.004 livros. O governador Samuel J. Tilden (1875) era um bibliófilo. Ele acreditava que os americanos deviam ter acesso a leitura e educação gratuitas.


A maior biblioteca do mundo é a Biblioteca do Congresso, em Washington, construída em 1800 e que hoje possui mais de 32 milhões de livros em todas as línguas do mundo, 61,4 milhões de manuscritos, 12,5 milhões de fotografias, 5,3 milhões de cartas e mapas geográficos e 5,5 milhões de discos.

O Manifesto da UNESCO considera as bibliotecas públicas como “uma porta de acesso local ao conhecimento, fulcral para o desenvolvimento cultural do indivíduo e todos os grupos sociais”. Esse parece-nos um ponto fraco em todo o Mundo e, em particular, em Angola.

As bibliotecas não podem ser apenas depósitos de obras, são centros dinâmicos de conhecimento, pontos centrais de difusão multifacetados de desenvolvimento cultural. Por isso, causam tanto medo aos poderes, que as tentam controlar e censurar.

Mas, qual o papel dos repositórios de cultura e conhecimento, qual o seu sentido, perguntamos, depois de lermos a obra “O Inimigo”, de Charlie Higson, “Alguém sairá vivo? Uma doença tomou conta da cidade e ninguém com mais de 14 anos escapou. As crianças precisam de lutar para sobreviver neste caos, procurando protecção e comida. Mas surge um boato sobre um novo lugar, mais seguro e um grupo de crianças enfrenta o perigo, sai do confinamento e atravessa a cidade, correndo mais riscos do que nunca. O inimigo está à espera, será que as crianças chegarão lá vivas?” A doença endémica que persegue as crianças é a ignorância e elas tentam a cura, perseguem a cura, atravessando a cidade dos adultos doentes e indiferentes, em busca de conhecimento. Os livros, as bibliotecas, os jornais, as músicas, as esculturas, as pinturas são a sua catarse. O manifesto da UNESCO proclama as bibliotecas públicas instituições essenciais para a promoção da paz e do bem-estar espiritual da Humanidade como centros locais de cultura, responsabilizando-se os Governos a apoiar o seu funcionamento autónomo, abrindo o espaço ao acervo moderno e tradicional para todas as faixas etárias da população, promovendo uma educação contínua ao mesmo tempo retaguarda de instituições de todos os níveis de ensino.

Mas não só de livros vivem as bibliotecas. O seu capital humano de qualidade é essencial. E assim uma política de formação de bibliotecários competentes deve ser permanentemente promovida, com cursos de superação, pois, sem quadros eficientes, as bibliotecas não desempenham o seu papel, tornam-se corpos mortos, depósitos de obras jacentes e inúteis.

Em todos os níveis comunitários, deve existir pelo menos uma biblioteca aberta à população, seja a nível nacional, provincial, municipal e de bairro, bem assim como nas instituições de ensino de todos os níveis deve ser reservado um espaço nobre para biblioteca e sala de leitura, competindo à Bibliotea Nacional a formação de quadros para a gestão da recepção, depósito e disponibilidade dos acervos.

Além de ser considerado o “berço” da Humanidade, o continente africano é conhecido pelas suas bibliotecas antigas. Falamos de Alexandria, no Egipto, de Timbuctu, no Mali, etc. Contudo, elas não são muito referidas pelos jovens, nomeadamente, os africanos. A que se deve?

Em África, não proliferam as bibliotecas do tipo de que estamos a falar, os Homens são as bibliotecas, as tradições orais estão presentes de geração em geração, mas a galopante “urbanização” das massas camponesas subverte estes valores. Já não há mais avôs para contar as histórias aos netos, os avôs morreram novos devido às contínuas dificuldades de viver permanentemente em pobreza extrema e em doença.

Os jovens urbanizados e destribalizados já não têm tempo nem disposição para ouvirem as histórias ancestrais, os seus valores são outros, começam a penetrar na sua genética os valores “ocidentalizados” e “modernos”, não querem saber de oralidade, querem ser formados e estar conectados em rede com o mundo.

Em Timbuctu, no Mali, existe um número significativo de manuscritos seculares sobre arte, medicina, ciência e caligrafia e cópias antigas do Alcorão, provavelmente cerca de 700 mil, a maioria escritos em árabe, mas alguns também em línguas locais, como o songai e o tuaregue.

É uma biblioteca que se presume vir do século XIII, a partir da islamização. Muitos manuscritos foram levados pelos franceses para museus e universidades do seu país, mas muitos foram escondidos sob a areia e em baús até serem redescobertos há algumas décadas. A tentativa de destruição deste complexo cultural por “rebeldes” foi contrariada pelo esforço de muitos homens de cultura, que conseguiram transferir um número significativo de manuscritos para Bamako.

Na Mauritânia, os Manuscritos de Chinguetti constituem um acervo muito importante numa região culturalmente muito rica.

Podemos considerar que as bibliotecas, como as consideramos hoje, em África surgiram com a colonização europeia e islâmica e serviram sempre os poderes estrangeiros. Eram públicas, mas restritamente disponíveis para as classes dominantes, que detinham o poder, seja através da religião, seja através da etnia.

Com as proclamações das Independências Nacionais, os poderes nacionais, infelizmente, priorizaram a economia e a repressão política, instituindo-se como classe burocrática estatal importadora de bens das antigas metrópoles, e as populações foram abandonadas à incultura, à fome e à doença.

Digno de relevo, e deve ser assinalado, o Museu das Civilizações Negras, construído em Dakar, capital do Senegal, há cerca de dois anos, com capacidade para mais de 18 mil itens, onde se inclui a arte africana contemporânea. A ideia do museu data de 1966, quando o então Presidente do Senegal, Leopold Senghor, propôs a construção de uma instituição dedicada ao património cultural das civilizações da África Negra, só concretizada mais de 50 anos depois, por alegadas dificuldades financeiras.

A África do Sul pós-apartheid unificou em 1999 as duas livrarias nacionais e construiu a National Library of South Africa (NLSA), a Biblioteca Nacional da África do Sul, que é depositária de manuscritos raros, livros, jornais, relatórios técnicos, acervo aberto ao público, uma autêntica livraria africana virada para o mundo do conhecimento e da sabedoria.

No Ghana, a Ghana Library Authority tem registados cerca de um milhão de livros disponíveis para consulta. No Quénia, sobressai entre as melhores bibliotecas africanas a Kenyatta University Post Modern Library, mas a Balme Library da Universidade do Ghana e a Covenant University Library na Nigéria são igualmente relevantes no depósito e transmissão de conhecimentos, sobretudo para a população estudantil, que preenche hoje uma larga faixa dos habitantes das grandes cidades africanas.

A luta de libertação em Angola está marcada por uma forte presença de intelectuais. Rui Ramos tem história nesse aspecto, nomeadamente, no MPLA. Que importância era dada aos arquivos e às bibliotecas no seio do então movimento, hoje partido no Governo?

O Centro de Estudos Angolanos de Argel, por iniciativa de militantes intelectuais do MPLA, responde em parte a esta questão. Um grupo de nacionalistas considerou ser fulcral o papel da cultura na luta de libertação nacional. Surgiu então um embrião de centro cultural, e a obra mais conhecida produzida nesse exílio foi a História de Angola vista não já do lado do colonialismo, mas do lado nacional, o povo como sujeito do seu próprio destino, as alianças e guerras entre poderes locais na sua luta contra o colonialismo.

Essa obra foi publicada por nós, na revista “Angola” da Liga Nacional Africana, em capítulos, durante 1974-75. No entanto, não são referenciadas muitas obras teóricas sobre a luta de libertação, com excepção dos livros de Mário Pinto de Andrade “Liberté pour l’Angola. Paris, Maspéro, 1962”, com Marc Olivier “La Guerre en Angola: Étude Socio-Économique. Paris, François Maspero, 1971” e “Origens do nacionalismo angolano. Lisboa, D. Quixote, 1997”, Américo Boavida, “Angola - Cinco Séculos de Exploração Portuguesa”, 1967, editora Civilização Brasileira, alguns trechos políticos de Viriato da Cruz e na UNITA a obra de Jorge Valentim, em francês, “Qui libère l'Angola?” (1969), e teses dos falecidos Jorge Sangumba e António Vakulukuta, hoje inéditas.
Na luta clandestina do interior, priorizavam-se as obras políticas de autores marxistas e pan-africanistas, como Franz Fanon, Kwame Nkrumah,“O neocolonialismo, último estágio do imperialismo”, Albert Memmi e a biografia da nacionalista argelina Djamila Boupacha.

As pequenas bibliotecas eram rigorosamente clandestinas. No meu quarto, eu tinha uma biblioteca com obras consideradas pelo fascismo-colonialista como “perigosas e proibidas”, acedida por um grupo restrito de militantes clandestinos, a qual me foi apreendida na totalidade em fins de 1969, pela polícia política, quando da minha primeira prisão. Mas anos mais tarde, foi várias vezes reconstruída, após a saída das cadeias, provando que as bibliotecas são indestrutíveis.

Que retrato pode fazer das bibliotecas angolanas hoje?

Das viagens por estrada que tenho feito por quase todo o país sobressai a grande apetência pela leitura, sobretudo entre os jovens, ávidos por terem um livro, folheá-lo, lê-lo. Mas não há livros disponíveis. Encontro instalações, prateleiras vazias ou quase vazias, governantes mostrando-me salas prontas a serem utilizadas como ponto de leitura, mas sem livros. É assim um pouco por todo o país, seja em escolas, em administrações municipais e comunais.

Não há uma estratégia para a massificação do livro, há políticas avulsas, mas sem continuidade. Há comissões nomeadas, mas não há livros. No Lu ena, quando lá fui apetrechar a biblioteca do centro de formação de professoras Dom Bosco, visitei a Casa dos Rapazes, estava lá um padre italiano e ele mostrou-me uma “biblioteca escondida”, fiquei espantado com tantos livros históricos ali preservados, mas sem utilidade cultural. Este é outro aspecto angustiante da questão, um local com livros históricos, mas fechado, ignorado pelas autoridades da Cultura.

Temos uma Biblioteca Nacional (BNA), criada em 1969, em pleno tempo colonial. Recordo-me de uma média biblioteca no Museu de Angola, no Kinaxixi, havia o Instituto de Investigação Científica de Angola, a Biblioteca Central de Educação, a Biblioteca dos Serviços de Geologia e Minas, na Marginal, a Biblioteca Municipal da Câmara Municipal de Luanda, na Mutamba... E havia livrarias, boas livrarias, hoje destruídas, eram não só locais de venda, mas também salas de leitura com sofás ao dispor. Recordo a Lello (destruída), a ABC (hoje 4 de Fevereiro, uma caricatura), a Argente Santos (hoje Mensagem, inerte), e havia a Livraria Sá da Bandeira no alto da Maianga, muitos eram centros de resistência e luta anticolonial, com tertúlias secretas, com livros proibidos vendidos discretamente. Tudo isso terminou e hoje não há referências, excepto talvez uma ou outra, a Texto Editora, no Largo do Pelourinho, não há uma grande livraria escolar ou universitária, assim como não há bibliotecas juvenis espalhadas pelos bairros. Antigamente, no tempo colonial, cheguei a ver pequenas bibliotecas de rua, por exemplo, na antiga alameda D. João II. Um país sem boas livrarias e sem bibliotecas acessíveis à população é um país estagnado. Mas não se pense que o poder colonial apoiava a cultura. Não. Era um poder racista retrógrado. Foi graças às lutas de resistência de intelectuais que se fez alguma coisa pela cultura.

Voltando à Biblioteca Nacional, o primeiro director creio ter sido Álvaro Carmo Vaz, empossado em 1971. No período caótico de 1974-75, muitas bibliotecas foram saqueadas, muitas importantes obras desapareceram, apropriadas individualmente, até hoje.

Com a Independência Nacional, a Biblioteca Nacional viu o seu estatuto legal aprovado em 1977 e passou a ser tutelada pelo Ministério da Cultura.

Embora não estejam disponíveis dados actualizados, podemos considerar que a BNA possui cerca de 100 mil registos bibliográficos entre livros, jornais, cartazes e folhetos, disponíveis para consultas públicas, disponibilizando duas salas de leitura, com capacidade para 50 pessoas cada, e um espaço cyber com seis computadores. Paralelamente, foram construídas, a partir de 2012, 8 Mediatecas, em Benguela, Huambo, Soyo, Lubango, Saurimo, Cunene e Luanda com duas, incorporando as tecnologias da informação e a digitalização da cultura, abertas à utilização pública de adultos e crianças, com espaço próprio de Internet. Pode considerar-se haver grande dinamismo no funcionamento das mediatecas, com quadros jovens e um modelo de gestão moderno, que as torna particularmente acessíveis e úteis à camada estudantil. Ao nível do universo escolar, como referi, há grande penúria de obras físicas. Muitas escolas nem sequer instalações apropriadas para salas de leitura têm, o que contrasta, por exemplo, com a boa biblioteca que o antigo Liceu Salvador Correia (Mutu ya Kevela) tinha no seu piso superior, aberta à consulta de professores e alunos.

Bibliotecas e Museus em todo o Mundo seguem o caminho da informatização, com muitas dessas instituições a criarem programas on line que permitem visitas e o acesso a documentos e livros que fazem parte dos seus acervos, o que se torna mais claro hoje, com a pandemia de Covid-19. Será esse o caminho a seguir?

A pandemia actual é parte da questão. Houve outras anteriromente, igualmente mortíferas, ainda há a tuberculose, igualmente contagiante, e no meio dela, fazemos a nossa vida normal. Muitas bibliotecas do mundo encerraram fisicamente, mas proporcionam serviços em rede, porque o conhecimento não pode ser travado nem sofrer hiatos. Mas os livros e as obras físicas ainda se mantêm com todo o seu valor, com toda a facilidade e imediatismo de manuseamento, especialmente em situações de dificuldades de rede, como as nossas, que não permitem muitas vezes a abertura nem a visualização digital de obras e quando as permitem gastam todo o saldo disponível.

Tudo está em mudança e se não acompanharmos essa mudança somos factores de estagnação. Para existirem bibliotecas on line a funcionar devidamente, o país tem de estar ligado em rede e em rede rápida, instantânea e, para que tal seja possível, a energia eléctrica deve funcionar ininterruptamente. Se não há rede ou se a rede for lenta, não é possível um trabalho digital.

Por todo o mundo, há acesso a bibliotecas on line, a e-books, já não há mais obstáculos à cultura e à difusão do conhecimento. Eu consigo ter acesso, quando a Internet não falha, a trabalhos universitários sobre a História de Angola, elaborados, por exemplo, por estudantes portugueses e brasileiros, as barreiras físicas terminaram, o mundo que se movimenta “a carvão” está extinto.

Então, a Internet deve democratizar-se a todos os níveis, as operadoras devem proporcionar pacotes a preços moderados e com alta velocidade. Nas ruas de muitas cidades do mundo, eu posso aceder ao “WiFi” e navegar sem problemas como em casa ou no trabalho, os obsoletos sistemas de controlo estatal não são mais tolerados por uma juventude em mudança de mentalidades rápida, os actuais e futuros votantes.

Mas não se deve esquecer que em África existem vastas comunidades rurais, na sua maioria sem acesso ao conhecimento. Então, programas locais de alfabetização e literacia devem ser continuamente desenvolvidos, sobretudo entre a população mais jovem com vista à sua inclusão nacional e mundial, sem o que o desenvolvimento de qualquer país não é mais do que uma falácia com pés de barro.

 

Perfil

Rui Ramos natural de Luanda, é jornalista desde 1964, há 56 anos, tendo-se estreado como director do jornal “O Estudante”.

Estudou Direito na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa, foi colaborador da Rádio France Internacional, BBC, TSF, chefe de Redacção da revista “África Hoje” e do jornal do MPLA “Vitória Certa”,

Director da revista “África Confidencial” e fundador do jornal “Voz d'África”, foi professor do ensino secundário em Luanda e Cabinda em 1974-75-76, membro do Governo de Transição de 1975 pelo Ministério da Informação, editor no jornal “Expresso” e actualmente do Jornal de Angola.

Em 1980 como director do Departamento de Informação da Cruz Vermelha de Angola, criou uma minibiblioteca vocacionada para os trabalhadores da instituição e seus familiares com cerca de 500 livros.

Em Novembro de 2012 há quase oito anos, lançou a iniciativa cultural “Um Livro Uma Criança Muitas Leituras” com o objectivo de criar pequenas bibliotecas em pediatrias, escolas, centros de acolhimento de crianças vulneráveis e instituições comunitárias.

 

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