Opinião

Roupagens do semba

Luciano Rocha

Jornalista

O semba, cadência das nossas vidas, com origens em tempos de muito longe, dançadas consoante circunstâncias de cada qual, ganhou novas roupagens costuradas por mestre Liceu, que introduziu “estranhos” instrumentos musicais, orifícios para liberdades amordaçadas.

13/06/2024  Última atualização 09H29

celestes, viuvinhas, permitiam que os sons do novo ritmo, voassem dos areais vermelhos para a cidade.

Aqueles buracos, apesar do tamanho, pequeninos que nem corações de bicos-de-lacre, peitos nossos musseques de então a Luanda "asfaltada”. As músicas saídas das violas, dikanzas, caixas, ngomas embrulhavam sempre mensagens subentendidas em genuíno quimbundo, também misturado com a língua do ocupante, unicamente, até, em português vernáculo.

Naquele último caso, eram "êxitos” passados e repassados nas emissoras de rádio de Angola, os mesmos que atafulhavam os ouvidos de habitantes residentes no Portugal salazarento "de Minho a Timor”. A que se juntavam os dos militares em "comissões de serviço”, além da chusma de funcionários e bufos da polícia política.

Nesta fase da crónica impõe-se a abertura de parêntese para avivar memórias de distraídos e alertar as dos ignorantes, revelando-lhes que há meio século havia censores que decidiam o que se podia ler e auscultar. Este garrote destinava-se, também, aos portugueses, entre os quais se contavam músicos, cantores, poetas, intelectuais, operários, pequenos comerciantes, desempregados, famintos, miseráveis. Parte deles pagaram caro a ousadia de pensarem e exprimirem o que lhes ia na alma face à injustiça reinante no tal país, rectângulo minúsculo à beira-mar plantado na cauda da Europa, mas anunciado como "de Minho a Timor”, o mais retrógrado do Ocidente, em todos os sectores, com reflexos evidentes nas então colónias.

Colchete fechado, regresse-se aos sons com novas roupagens costuradas por mestre Liceu, em substituição, essencialmente, dos de gaitas de beiços, concertinas, cornetas, toques em garrafas com qualquer metal, apitos, vozes de comando. Em qualquer dos casos, não raro, com rodas, umbigadas, batimentos de pés, insuspeitas "palavras de ordem”, outrossim, trocas de pares para passagens de recados surdinados, inaudíveis a estranhos e curiosos ouvidos.

A passagem dos sons de quintais e terreiros de chãos avermelhados dos musseques circundada com aduelas de barril para a cidade, ainda sem luz eléctrica, nem água potável, obedecia durante as épocas carnavalescas à mesma cadência. Os primitivos, ao ritmo de número reduzido de instrumentos musicais, culminavam na "quarta-feira da mabanga”, dia em que os foliões, no regresso a casa, aproveitavam para angariar "receitas” que atenuassem gastos nas vestimentas usadas nos três dias de danças e cantares, vendendo, de porta em porta, aquele molusco guisado e respectivo molho de cebola, tomate, azeite doce e jindungo pequenino, chamado do quimbundo.  Havia, poucos, a darem dinheiro - ainda angulares -.  que os salários eram baixos, também sal, açúcar, fruta, alimentos de primeira necessidade. Era a solidariedade a sobrepor-se às dificuldades.

Os donos das "lojas de vender tudo” contribuíam com "vinho do puto”, branco, tinto, palheto. Qualquer deles, regra geral, baptizado com água do Bengo, também ela vendida. A negociata da falta daquele imprescindível líquido em qualquer sociedade, como se comprova, não é de agora.

Altura de abrir novo parágrafo para lembrar distraídos e alertar ignorâncias: a generosidade daquelas contribuições era dinheiro em caixa para quem a praticava, confirmação da máxima, "dar com uma mão e tirar com a outra” Os operários daquele tempo recebiam o salário naquele dia, o que, vulgarmente, se chamava semanada, que continua em uso em vários países, incluindo os mais desenvolvidos economicamente, estendendo-se a vários sectores, designadamente o desportivo.

A diferença entre aqueles países e o "rectângulo à beira-mar plantado”, que se estendia de "Minho a Timor, incluindo as então colónias” estava nos ordenados pagos.

Os operários angolanos, a caminho de casa, paravam na tasca, para pagarem o kilapo que, na verdade, não tinha fim, pois mal pagavam o que deviam começava nova dívida: compras de água do Bengo; petróleo, que candeeiros e lamparinas não funcionam por se olhar para eles; carvão para fogões e ferros de engomar; material escolar para os filhos; rendas de casa; qualquer coisa para enganar a fome. 

Altura de dar novamente utilidade ao colchete, para voltar aos sons e ritmos do semba, cujos passos foram debatidos, este mês, em Luanda, no espaço "Ponto Zero, por gente que sabe do que fala: os músicos Lito Graça, Dom Caetano, Eduardo Paim; Maneco Vieira Dias¸ coreógrafo; e Calado Show, humorista.

A iniciativa é, em princípio, louvável, por levantar, inclusive, dúvidas quanto a actuação de outros sectores, como, por exemplo, do ensino escolar, designadamente o primário e aquilo que deve ser e não é.  A ideia generalizada de que o importante é incutir na criança e adolescente que importante é a obtenção de uma licenciatura, a qualquer custo, para ter” bom emprego”, salários chorudos, mais mordomias a condizem, é estar a formar ignorantes emproados. Que jamais hão-de saber o que é, por exemplo, o semba, como começou e o que representou na luta para a nossa independência como país.   

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