Cultura

Retrospectiva/2020: O ano em que a Cultura “migrou” para a Internet

Matadi Makola

Um ano de sobrevivências arrojadas, de mudanças bruscas e de adaptações sem precedentes, 2020 enfim finda. No geral, com as restrições de movimentações em todo o mundo, o definido “novo normal” não parece ser apenas uma conveniente actuação preventiva.

31/12/2020  Última atualização 19H06
© Fotografia por: DR
Entre as diversas vozes sobre o assunto, uns acreditam estar para breve o regresso à normalidade do afecto dos abraços e enchentes nas diversas tertúlias e actuações públicas da produção cultural, enquanto outros opinam não ser para já e, na consequência, defendem ser desta que a cultura tenha migrado derradeiramente para a internet, carregando as makas que sempre abundam no sector. 

Para a página que se abre a partir de hoje, o secretário-geral da UNAP, o artista plástico Tomás Ana "Etona”, reconhece não ser assim tão fácil perspectivar o próximo ano. Por ser, na sua visão, um mercado de dependência estrangeira. "A nível interno o nosso mercado não evoluiu. Não temos como esperar mudanças num curto espaço de tempo”, prevê Etona.

De outro modo, observa que seria preciso haver investimento, chamando a atenção para a responsabilidade do governo, por ser um assunto que o ultrapassa nas competências, enquanto secretário-geral da UNAP.  "Tem de haver políticas concretas de investimento, não é apenas fazer festas.

E esse investimento passa por aquilo que devia ser uma aposta nacional ou o plano nacional sobre o desenvolvimento cultural, que devia ser discutido na Assembleia Nacional”, opina. Quanto ao facto de a apresentação pública do produto cultural depender de tecnologias de informação, alerta que se não haver mercado, enquanto público e consumidores, é à mesma um sonho possível em outros países mas ainda não em Angola.

 Especificamente sobre a concorrência de espaços no grande ecrã e mídias digitais no nosso país, acusa haver um fosso muito grande, permitindo uma concorrência desleal entre as igrejas e a cultura.  "As tecnologias de informação estão aí, mas vimos as igrejas a fazerem aproveitamento dos elementos todos.

Há programas musicais, debate de música, claro que muitos estão na cultura do consumismo. Mas não acontece com as outras artes fora da grelha do consumismo, certamente por não alimentarem as ilusões, mas sim um grau de intelectualismo mais profundo”, defende.  

Num período desolador como este da pandemia, a outra preocupação seria, como a exemplos de outras realidades, manter uma diálogo com o Governo que permitisse uma ajuda substancial para os artistas puderem sobreviver com alguma dignidade. 

Nesse quesito, o secretário-geral da UNAP garantiu haver sim espaço para o diálogo, embora classifique como "comunicação superficial”, justificando não ser uma comunicação profunda que possa ser feita uma análise científica para se encontrar e desbravar os problemas que degradam cada vez mais a cultura o nosso país. Para Etona, os investimentos na cultura deveriam ser maiores, com projectos dinâmicos e transversais. 

"Nós ainda não estamos a acompanhar a nível da cultura. Vejamos o exemplo da Europa, no caso concreto do investimento feito na Alliance Française, onde se investe muito dinheiro. Claro que numa forma de pensar diplomaticamente em termos de relações internacionais, os meios justificam os fins”, analisa o artista plástico.     
Dançar a esperança…  
Para Menco Vieira Dias, à frente da recém-nascida Associação Angola de Dança, o ano a começar deverá ser de esperança.  "É importante referir que nós, enquanto associação, queremos ser parceiros do Estado, não apenas para pedir mas também para darmos a nossa opinião. 
Às vezes o que acontece é que aquilo que se traça nos gabinetes não é aquilo que os artistas gostariam de ver materializado. Porque são os artistas que conhecem bem as suas dificuldades”, traça. Nessa virada brusca da Cultura para os suportes digitais, reconhece que hoje as redes sociais acabam sendo o veículo que mais transmite rapidamente para o mundo. Na dança, salienta que se fez algumas actividades, embora com alguma timidez. 

Por outro lado, também é de opinião que as medias estão voltadas a uma certa franja de artistas, deixando os demais à margem.  "É só observar quantas lives houve com intervenção da dança. Infelizmente até fica a ideia que na dança não se consegue realizar lives à dimensão de outras modalidades artísticas que vão dando o ar da sua graça”, lamenta.  

Quanto a possibilidade de diálogo de um algum apoio por parte do ministério de tutela, Maneco lembra "já ter havido em tempos idos um fundo de apoio”, destinado a cobrir situações como a que se vive hoje.  No que se refere a subsídios, como a exemplos de alguns países, explica que aqui em Angola ainda não aconteceu. 
Entretanto, ainda no tempo da anterior ministra, Adjany Costa, sublinha que as associações culturais mantiveram um encontro com a titular da pasta cujo fim seria naturalmente o apoio. Para efeito, foram solicitados toda uma série de dados que as associações forneceram atempadamente. 

"Era suposto que nos dissessem como haveria de ficar, visto que até tinham dado garantias que no intervalo de um mês apresentariam os resultados de todas as reuniões e informações obtidas. Mas lamentavelmente, passados mais de seis meses não nos foi dito absolutamente nada”, explica Maneco.   
Teatro viu dificuldades piorarem 
"A situação para os grupos de teatro é péssima”, classifica Adelino Caracol. Antes da pandemia, explica, já era difícil conseguir apoios, e agora só piorou porque o sector económico mundial ficou fragilizado.  Se a abertura para o espaço público por via dos órgãos de informação serviu ou não para melhorar um pouco a situação, Adelino corrobora com Etona e Maneco quanto à distribuição dos espaços das mídias. 

Não considera como tal um desafogo para o teatro. "Claro que os músicos, como sempre, tiveram mais vantagens e privilégios em termos de desafogo, e tiram mais proveito com o espaço nas redes sociais. Para eles só foi uma transição. Mas o teatro precisa de encontrar modelos de produção, que variam de grupo para grupo”, sustentou. 

Como exemplo, aponta os festivais Circuito Internacional de Luanda e FESTECA, ambos realizados no meio da pandemia e cujas produções foram igualmente onerosas para os grupos.   "Essa forma de publicar tem mais-valias, mas é preciso organizar e regularizar para que possa trazer algum retorno para os grupos. Porque tem de facto adesão de público de várias partes do globo. 
Também seria bom se o Governo se responsabilizasse por algumas coisas. Seria bom que a classe artística se reunisse numa plataforma em que pudesse exigir do Governo alguma maior atenção”, frisou.  Adelino também confirmou que o ministério de tutela chegou a reunir com os artistas para ver se resolvia alguns problemas, como é o caso de uma cesta básica. Porém, nem isso acabou acontecendo.  "Inclusive a falta de respeito de nem sequer dizer como ficou o problema. Sabemos que não é fácil o executivo dar conta de tudo, mas é importante sentar para ver como equilibrar”, lamentou.     

UNAC  já na corrida dos direitos de autor
Foi já neste Dezembro que Jomo Fortunato, ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, fez a entrega oficial do certificado da licença de cobranças de autor a Zeca Moreno, actual secretário-geral da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-SA). 

A entrega, confirmou Zeca Moreno, do certificado que habilita a UNCA-SA a gerir direitos de autor não significa o fim deste processo.  "Na verdade, começa agora um período de sistematização de todo o processo da cobrança de autor. É imperioso que os artistas se filiem nessa sociedade de gestão, para assim verem os seus direitos salvaguardados”, explicou. 

Por várias vezes artistas e responsáveis culturais vieram a público manifestar as diversas vicissitudes agravas com o surgimento da pandemia da covid-19. Ainda assim, essa classe viveu momentos de desafogo com a oficialização dos lives, vistos por Zeca Moreno como "oportunidade para afirmação dos nossos géneros artísticos, mostrando que as imitações ou plágios dos géneros estrangeiros não é o melhor caminho”.        

 O fim da "Mulher Infinita”, de Lourenço Mussango? 

As letras angolanas sofreram, já a finalizar o ano, um abalo quando o secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, David Capelenguela, chegou a levantar a hipótese de "fechar as portas da União dos Escritores Angolanos”.  O móbil deste recuo até então impensável tinha como fundamento a falta de subsídio pelo órgão de tutela. 

A União dos Escritores Angolanos atravessa o ano ainda com essa maka em cima da mesa, com as suas acções condicionadas a todas intempéries surgidas com a pandemia da Covid-19. Espera-se um ano diferente para a UEA, no mínimo, arrasada.  

Porém, para agudizar ainda mais o "grand finale” 2020 das letras angolanas, a obra vencedora do Prémio António Jacinto, precisamente o conto que dá título à obra "Mulher Infinita”, da autoria de Tetembwa, pseudónimo literário de Lourenço Mussango, é acusada de plágio da obra de um escritor brasileiro. 
O visado foi o escritor  Paulo Cantarelli, no seu conto "Serena”, da obra Recifenses.  Já do conhecimento do júri do Prémio António Jacinto, o desfecho desta novela poderá ditar o fim ou a sobrevivência de "Mulher Infinita”.   

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