Opinião

Retrato de um escritor em crise

Pedro Kamorroto

Havia um escritor que muito amava escrever. Para ele, escrever era de uma vitalidade qual água para o organismo. Rejuvenescia em cada palavra, em cada alma que imprimia no papel.

08/05/2022  Última atualização 14H30
Escrever dava-lhe a paz que o mundo imundo nunca lhe deu, humanizava-se por via da escrita. Escrever para o escritor era um acto de inconformismo. Se não fosse inconformado talvez não escreveria, não criaria mundos paralelos por via do médium chamado escrita criativa. O inconformismo era a sua predilecta clausura. Preferia este tipo de clausura a aceitar a banalidade da vida e do ser veiculada há muito.

Era graças ao fruto agridoce chamado acto de inquirir, de procurar por respostas, que a sua canoa atracara num cais seguro. O acto de inquirir levou-o  à curiosidade, à "big picture”, à grande questão. Literatura é senão a grande questão, alegoria da humana condição – considerava o inveterado escritor.

O que mais temia era um dia parar de escrever.

Via a morte de forma leviana, aliás, no final do dia, ela acontece mesmo a todos sem excepção, dizia. O fatalismo é um estado imanente à condição humana. É irreversível, uma flecha que uma vez lançada já não volta ao ponto inicial.

Para o escritor morrer é não ter sensibilidade alguma. Ser-se escritor, continuou ele, é ser sensível. Ninguém chega à escrita artística sem vestir a dura couraça da sensibilidade.

Dizia para as pessoas que o rodeavam que devia haver uma revolução pura e dura a nível da semântica. Certas palavras deviam ser mais expressivas. A palavra escritor no lugar dela devia estar a palavra sensível.

O escritor escreveu uma centena de livros, participou de tertúlias literárias, publicou crónicas, contos, excertos de novelas e de romances, recensões, artigos e ensaios para jornais, cedeu textos para revistas, colectâneas e antologias.

Um belo dia sentiu-se cansado, o sono  domou-o sem piedade como se tivesse ressentimento dele. Dormira como uma estátua. O sono o petrificara.

Quando despertou, já era dia seguinte, o sol nutria simpatia por todos, estava de bom humor, uma angústia habitava nos vários anexos que havia dentro de si. O seu rosto era o canal de Suez onde fluía a tal angústia.

Teve um acesso de crise existencial irreversível, parecia que sofria de uma doença degenerativa, estava confuso, sentiu um vazio que viria mudar radicalmente a sua vida para sempre. Quanto pesa o vazio na balança de um homem? O peso do vazio é uma leveza suportável?

O escritor levou à fogueira tudo que escrevera, incinerou sem piedade várias vidas que algum dia expelira da sua pena. A verve que o caracterizava desapareceu num ápice, o fogo-combustão que ardia-se-lhe durante o momento de divina luz, só era já cinza, lembrança. Não teve sequer consideração e respeito pelas obras que ergueu quando dava largas à imaginação, quando estava em transe. Fazer arder as personagens assim sem apelo nem agravo, senti-las a implorar por um fio de vida é coisa de insanos, de sádicos. Será que perdera um dedo de lucidez? Será que perdera o conector da sensibilidade?

O escritor que um dia já foi tão entusiasta deixou tudo para atrás, partiu sem a habitual bagagem, construiu um outro idílio para viver um novo idílio, o calvário de escrever para a posteridade já não o perseguia, sentiu um alívio enorme, já não havia pressão alguma sobre si, meteu-se no meio da multidão, desapareceu para sempre, deixou morrer o ser que dava sentido à sua existência.

A estrela maciça qual supernova após um intenso brilharete minguou, perdeu o fulgor. Novos pensamentos passaram a dominá-lo, a domá-lo, estava debaixo de um novo cerco, finalmente rendera-se, nada mais fazia sentido, ou seja, viver, apenas viver era a única coisa que realmente importava.

Assim chegará a essa conclusão – o escritor em crise.

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