Cultura

Restos mortais de Nagrelha repousam no Santa Ana

Manuel Albano

Jornalista

O corpo do kudurista Nagrelha dos Lambas repousa, desde terça-feira , no Cemitério de Santa Ana, em Luanda, num acto acompanhado por familiares, milhares de admiradores e músicos, sob fortes medidas de segurança.

23/11/2022  Última atualização 06H00
© Fotografia por: Agostinho Narciso |Edições Novembro

Por volta das 7h00, o cenário estava a ser montado para os elogios fúnebres ao "Estado Maior do Kuduro”. O som foi montado pela produtora Mbaxe  Eventos. Tudo corria na normalidade e logo nas primeiras horas, os trabalhadores da limpeza, sob a orientação do director do cemitério João Lavente, procuravam deixar o local o mais limpo possível para que o "Naná”, como era carinhosamente tratado, fosse enterrado com dignidade.

Depois de prestarem tributo à memória de Nagrelha,  milhares de cidadãos deslocavam-se do Estádio Nacional da Cidadela, para o local do enterro, onde foi prestado o último tributo em sua memória. À distância era possível observar a enchente de admiradores que em uníssono dançavam e cantavam os grandes sucessos dos Lambas.

 

Os coveiros de Nagrelha

A experiência de vários anos de profissão permitiu que a gestão do cemitério escolhesse os melhores coveiros para cavar a cova do kudurista. Fonseca Tandala e Alexandre João (12 anos de profissão), bem como José Paulo (15 anos de profissão) foram os seleccionados. 

Para o coveiro Fonseca Tandala, o momento vai ficar marcado para sempre na sua vida. Segundo o interlocutor do Jornal de Angola, quando foi informado que seria um dos escolhidos para fazer parte da equipa que iria participar nas exéquias de Nagrelha sentiu-se feliz, por ser um momento único e inesquecível. O mesmo sentimento foi manifestado pelo colega de trabalho Alexandre João que se mostrou comovido pelo acto.

Por sua vez, José Paulo disse, à nossa reportagem, que o momento é indescritível, por fazer parte de momento histórico da história da música angolana. "Não foi fácil para nós saber que seríamos os escolhidos para cavar a cova do nosso ídolo. O Nagrelha nos fez muito felizes, era muito querido pelos seus admiradores”. A cova começou a ser feita no domingo e terminou às 12h00 de segunda-feira.

 

Momentos indescritíveis

O sol foi surgindo, anunciando um dia de muito calor. Um grupo de zungueiras do mercado dos Congoleses aproximava-se junto da barreira de protecção e limitação a cantar várias estrofes dos  Lambas, em homenagem à maior referência do estilo kuduro da década de 2000 até aos dias de hoje. Nesta altura, notava-se que seria melhor pensar no reforço do aparato policial e do próprio cordão. O número de fãs crescia e a Polícia Nacional decidiu reforçar todo o sistema de protecção nos arredores. O clima mostrava-se tenso à medida que as horas e minutos passavam. Entre os admiradores, uns procuravam subir no topo das árvores para ter uma melhor visibilidade, enquanto outros em terra cantavam euforicamente as músicas dos Lambas. Toda demonstração de carinho, mesmo as mais "bizarras” valiam para mostrar o carinho pelo Nagrelha.

Os milhares de admiradores  renderam um tributo ao malogrado, quando por volta das 10h00, percorreram a Avenida Deolinda Rodrigues. De forma diferente várias alas manifestaram a sua emoção. Nem mesmo as fortes temperaturas que se fizeram sentir durante o dia de ontem, afugentaram os milhares de admiradores do "Estado-Maior do Kuduro”, que desde as primeiras horas se deslocaram ao local da sepultura para render a última homenagem à figura que eternizou as frases: "A morte e a vida são irmãos do mesmo pai/só que um não sabe brincar” e "Já não há nada que me seduz/todo cristão reza na cruz/Jesus Cristo morreu por nós…”

O Instituto Nacional de Emergência Médica de Angola (INEMA) e os Bombeiros colocaram no local meios para acudir eventuais incidentes. Com o aproximar do momento do enterro, a população descontrolada invadiu as duas faixas da Avenida Deolinda Rodrigues.

 

Actos de vandalismo

Nem mesmo os apelos do Governo da Província de Luanda, aos admiradores do kudurista Nagrelha (dos Lambas), falecido na sexta-feira, em Luanda, vítima de cancro no pulmão, para pautarem pelo civismo e evitarem criar arruaças ou distúrbios na via pública antes, durante e depois do funeral adiantou para alguma coisa. Com a chegada do carro fúnebre, os ânimos aumentaram porque os admiradores de Nagrelha queriam invadir as barreiras de protecção para acompanhar o malogrado até ao último destino. A população começou a arremessar pedras e garrafas em direcção à Polícia de Intervenção Rápida (PIR). Em reacção, às formas de segurança e manutenção da ordem pública começaram a lançar gás lacrimogéneo para dispersar a multidão.

Neste momento, o pânico alastrou-se um pouco por toda a extensão da avenida. Cada um no local procurava um refúgio, mas, nem com isso, os fãs de Nagrelha se ausentaram do local, o que originou alguns feridos e uma morte. Os motoqueiros tomaram de assalto o tapete asfáltico da avenida para fazer algumas exibições de malabarismo. Uns subiam nos postes de electricidade de alta tensão, enquanto outros, se penduravam nas viaturas particulares e nos transportes públicos, criando vários momentos de arruaça ou distúrbios na via pública. 

No velório estiveram presentes músicos, actores, realizadores, bailarinos, desportistas, dirigentes e os admiradores de Nagrelha.

 

O legado

Sebem do Gueto e Da Leve-se, são dos kuduristas que consideram que o Nagrelha continua vivo por ter deixado um legado positivo em prol do estilo, segundo eles ainda muito marginalizado. Para Sebem do Gueto, Nagrelha é um ícone nacional que merece todo o respeito da sociedade angolana. "O seu nome nunca será apagado e temos que honrar o seu percurso artístico”.

Augusto Paulo Catanha "General Tembe Tembe”, veio da província do Huambo e chegou à madrugada de ontem a Luanda para participar, igualmente, nas exéquias do ícone do estilo kuduro no país e no mundo. Morador do Alto Hama, o kudurista disse que todo o sacrifício é válido para render um tributo ao maior expoente de todos os tempos do estilo mais mediático do país, o kuduro.

Com os ânimos exaltados, alguns dos seguidores de Nagrelha, junto à zona onde foi sepultado, apelavam para que fosse construído em local a indicar uma estátua em  sua memória como reconhecimento dos seus feitos.

 

Agradecimento

O irmão mais velho de Nagrelha, Osvaldo Mendes, em nome da família agradeceu o excelente trabalho abnegado desenvolvido pela comunicação social, a Polícia Nacional e os próprios admiradores do malogrado, antes, durante e depois do funeral. Disse que a família vai procurar estar mais unida e que o legado do irmão possa ser devidamente transmitido às novas gerações. O reformado e ex-director do Gabinete Provincial da Acção Social, Cultura e Desporto do Governo da Província de Luanda (GPL), Manuel Sebastião referiu que Nagrelha procurou imortalizar o estilo kuduro. "Ele foi uma figura incontornável deste género que merece o respeito e consideração de toda a sociedade”.

No elogio fúnebre da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC-S.A), referiu que Gelson Caio Manuel Mendes, popularizado com o nome artístico de Nagrelha, que depressa se tornou um símbolo de superação e crescimento integral saudável. Pertencente a uma geração de jovens que fizeram do Kuduro um instrumento de luta pela emancipação, onde as más práticas deram lugar a um caminhar tranquilo com a bandeira do amor e do su-cesso, com talento e carisma, edificando em si o ídolo que arrastou multidões.


Missa de corpo presente na Cidadela Desportiva

Milhares de fãs estiveram reunidos ontem, na Cidadela Desportiva, em Luanda, para o último adeus ao kudurista Nagrelha, a quem o padre José Baptista Nunda, da Paróquia São José considerou um ícone da música popular urbana angolana, da nova geração.

Com um registo sem igual de fãs, a missa de corpo presente serviu para recordar e enaltecer o contributo do cantor à música e à sociedade. "Nagrelha foi um homem de bem, com boas obras e chefe de família. Devemos honrar os feitos deste, em prol da música nacional, em particular o kuduro”, disse.

Com dor e tristeza nos semblantes, os seguidores da estrela do kuduro entoavam algumas canções do cantor, como "Provou e gostou” e "Comboio”. Num cenário sem igual, os fãs saíram da Cidadela e acompanharam o corpo do malogrado até ao Cemitério de Santa Ana.

O músico Baló Januário, que também assistiu a missa, considerou a morte de Nagrelha uma perda sem igual, em especial para uma geração de artistas. "É preciso que agora o legado do kudurista seja imortalizado”, defendeu, além de acrescentar que alguns artistas já gravaram o tema, "Uma Nação em Lágrimas”, em homenagem ao cantor.

Mário Cohen


Uma morte e actos de vandalismo marcaram funeral do kudurista


Um menor, ainda por identificar, e 33 feridos, dos quais 16 efectivos da Polícia Nacional, dos quais dois em estado grave, e outros 17 cidadãos, marcaram, ontem, o funeral de Nagrelha, com base nas ocorrências registadas pelo Comando Provincial de Luanda.

O superintendente-chefe Lázaro da Conceição, director de Segurança Pública e Operações da Polícia em Luanda, disse que os feridos receberam tratamento médico em diversas unidades de saúde. 

Os actos de arruaça e vandalismo verificados ontem,  no interior e exterior do Cemitério de Santa Ana, disse, culminaram com a detenção de 18 cidadãos, suspeitos de cometerem crimes diversos.

Alguns danos, adiantou, ainda estão por ser calculados, como a destruição de uma esquadra móvel, quatro viaturas da Polícia Nacional, uma motorizada e cinco autocarros. "Os actos de vandalismo resultaram ainda no roubo de várias botijas de gás, no interior de um camião, e assim como de grades de cerveja”.

Lázaro da Conceição apelou à calma e pediu compreensão pelos transtornos criados na reposição da ordem pública, sendo que a situação voltou à normalidade com a abertura das vias que tinham sido fechadas ao trânsito automóvel.

"A tentativa de invasão do Cemitério, por parte dos fãs, obrigou a corporação a dispersar a multidão, com o uso de gás lacrimogénio, durante a operação de reposição da ordem pública”.

 

Confusão

Por volta das 7h00, centenas de jovens concentraram-se nas imediações do Cemitério de Santa Ana, que até às 9h00, já estava cheio de fãs. Neste momento, alguns começaram a fazer racha, de motorizadas, no recinto. Outros decidiram subir por cima dos autocarros estacionados.

Um ponto comum, enquanto aguardavam a chegada da urna, era o consumo de bebidas alcoólicas no recinto. Um caso caricato é o de um jovem que tirou a roupa e começou a andar entre a multidão.

A reportagem do Jornal de Angola verificou vários desmaios de homens e mulheres, arruaça e roubo do negócio das vendedoras do mercado, junto das Pedrinhas.


André da Costa


Herói do kuduro partiu para a eternidade  e deixa um legado inspirador à juventude

O legado do carismático kudurista Nagrelha, sepultado ontem, em Luanda, representa o suporte  mínimo de consolo e inspiração confiado aos músicos, fãs e amantes do kuduro, em Saurimo, província da Lunda-Sul.

O intérprete da conhecida música "Na Muleleno” e baterista da banda "Os Moyo Wenu da Lunda-Sul” destacou que Nagrelha marcou uma etapa de viragem e afirmação do kuduro em Angola.

Segundo Domingos Mutambi, a forma singular de expressividade popular de "Nagrelha” vincou na continuidade e influenciou todas as franjas amantes do género musical, Made in Angola.

Referiu que a morte do Gelson Caio Mendes quebra um segmento da criatividade artística dos últimos tempos e nota que  "a obra feita prevalecerá no perfil da dinâmica musical que rompeu fronteiras”.

Perante a perda de um ícone do kuduro, o jovem Agostinho Satxilomba perspectiva para este estilo musical um futuro reticente. "Não sei se será o mesmo, porque o Nagrelha foi o porta bandeira, com uma forma que arrastava multidões”. Augura que a nova geração perpetue o legado, mesmo em outros géneros.

"O país perdeu uma figura inédita na história da música kuduro que representa um dos géneros mais vulgarizados em Angola”, afirmou a jovem Gisela Gazuza, que defende o reavivamento do legado pelo Gabinete Provincial  da Cultura da Lunda-Sul.

O director do Gabinete Provincial  da Cultura da Lunda-Sul, Salvador Wanuque, avançou que foi aberto um livro de condolências subscrito por dezenas de munícipes. Na região despontam indicadores promissores a favor do kuduro que aos poucos enfrentam a tchianda, género rei na cultura lunda cokwe.

Adão Diogo | Saurimo


Um adeus à dimensão do "Estado Maior” 

Em vida, arrastou multidões e na morte, não podia ser diferente. O comboio partiu, mas com uma moldura humana jamais vista em Angola, que explicou, na perfeição, a dimensão do apelido "Estado Maior do Kuduro”.

Considerado das maiores referências da música angolana, para assegurar o funeral de Nagrelha foi necessário interditar a Avenida Deolinda Rodrigues e colocar mais de mil efectivos da Polícia Nacional nas ruas. Um cenário raramente visto.

O Cemitério de Santa Ana foi pequeno para albergar tamanha multidão. Pessoas vieram de vários pontos do país para dar o último adeus ao "Naná”. Centenas de viaturas foram disponibilizadas gratuitamente, por associações de taxistas e personalidades individuais, mas foram insuficientes para os milhares de fãs, que decidiram acompanhar o kudurista, a pé, cantando alguns sucessos do líder dos Lambas, ao ponto de causar um congestionamento na Avenida Deolinda Rodrigues.

Pessoas de diversos estratos da sociedade, desde músicos, zungueiras e taxistas juntaram-se aos familiares e amigos, na hora do adeus, assim como entidades governamentais e alguns líderes de associações civis.

Considerado por muitos jovens como um expoente máximo, Nagrelha possui uma história de vida que tem inspirado a juventude, inclusive a abandonarem a delinquência e contribuírem mais no desenvolvimento da comunidade. Enquanto vivo, Nagrelha transformou o kuduro numa referência, não só nacional, como internacional, capaz de ultrapassar barreiras.

Com a música, o kudurista conseguiu ultrapassar a consciência das classes sociais, en-tregando-se de corpo e alma a um estilo marginalizado por muitos, sem descurar a própria identidade, criada a partir das ruas do Sambizanga.

Como filho do Sambizanga, o legado de Nagrelha deve ser preservado e transmitido para as novas gerações. Para muitos, a solução seria colocar o nome do kudurista numa escola ou rua do distrito, para não calar "a voz que deixa tristeza a todos nós”.

Regina Ngunza



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