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Residente lembra visita de Neto ao hortobotânico do Quilombo

Isidoro Natalício | Ndalatando

Jornalista

O primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, protagonizou, em 1979, a mais visível visita ao horto- botânico do Quilombo, a três quilómetros de Ndalatando, Cuanza-Norte.

18/09/2021  Última atualização 06H55
© Fotografia por: DR
A odisseia do fundador da Nação durou 15 dias.
Joaquim Ribeiro "Dibuca” foi o residente  que teve mais tempo de convívio com Neto. Na altura com 23 anos, Dibuca desempenhava a função de chefe do Departamento de Reconstrução Nacional do Comité Provincial do MPLA no Cuanza-Norte.

    Militar das extintas FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola) e comissário municipal de Quiculungo (duas vezes), Ambaca e Cambambe, Dibuca recorda que Agostinho Neto foi ao Quilombo 30 dias antes da sua morte.

    Revela que num certo dia os membros da Comissão Executiva do Comité Provincial do MPLA, encabeçados pelo então coordenador e comissário provincial, Lourenço Ferreira "Diandengue”,  visitaram, no Quilombo, o Presidente Neto, que na altura  reagiu de forma considerada inesperada.

"Os camaradas têm muito trabalho em prol do desenvolvimento da província, assim podemos dispensar as vossas visitas constantes aqui, porque não vim trabalhar. Estou e quero, efectivamente, gozar repouso, mas sempre que tiver necessidade passarei a chamar o camarada Dibuca”.

Na sequência dessa decisão, Joaquim Ribeiro Dibuca lembra que passou a ser solicitado com frequência pelo então Chefe de Estado e, durante vários dias, acompanhou o ilustre "turista” nas visitas a diferentes áreas que compõem o hortobotânico, bem como nas deslocações aos municípios de Cambambe e Golungo-Alto.

"Eu e o Manguxi-Dia-Mulaulá (Agostinho Neto, em língua quimbundu) andávamos a pé distâncias até meio quilómetro. Chegámos a percorrer, a pé, cerca de três, entre a Sé Catedral e o Quilombo”, recorda.

Dibuca disse que Agostinho Neto ocupava também o tempo a escrever, às vezes durante horas, mas diz que nunca teve  acesso ao que ele redigia. Porém,  o que mais atraía Joaquim Ribeiro "Dibuca" era a forma aberta e clara como Neto falava sobre a vida do país.

O antigo comissário lembra que Agostinho Neto "tinha a forte crença de que, com mais empenho e dedicação, era possível produzir bastante comida e fazer da agricultura a base da economia angolana e depois suportar a indústria".
Dibuca referiu que o Presidente aconselhava-o sobre muitos assuntos, sobretudo para ter uma conduta digna de bom pai, esposo, dedicar-se profundamente ao trabalho e ser um militante educado e exemplar.


Emissário para a aquisição do Jornal de Angola em Luanda

Emídio Gonçalves disse que Agostinho Neto enviava, todos os dias, um emissário a Luanda para a aquisição do Jornal de Angola. A casa onde ficou alojado o primeiro Presidente da República localiza-se no cume de uma montanha e situa-se no primeiro desvio para quem entra no Quilombo.

Por força da guerra e outras intempéries o imóvel degradou-se e hoje está sem tecto, janelas, portas, tem as paredes corroídas, muros parcialmente quebrados e invadido pelo capim.

O Quilombo é marcado por um clima húmido, com temperaturas a rondar entre 17 e 20 graus no tempo de calor. Apresenta uma escuridão precoce provocada pela floresta, constituída por árvores frondosas de várias espécies, juntadas em montanhas e rasgadas nas suas baixas pelo rio Muembeje.

 Outras marcas do Quilombo são o silêncio, que é interrompido pelo canto dos pássaros. É marcante o verde de diversas plantas e ruas de quatro metros de largura, com tecto natural criado pelos ramos de plantas que as atravessam.
As avenidas, entre asfaltadas e de terra batida, têm vários destinos, dentre os quais a ponte chinesa, erguida para se chegar a uma das raras ilhas do Muembeje.


"Tratava-me como filho"

Joaquim Ribeiro "Dibuca" lembra que almoçou e tomou o pequeno-almoço com Neto em cerca de 10 dias e na maioria das vezes passava com ele mais de oito horas diárias. "Tratava-me como filho e eu, pasmado, não queria acreditar que estava diante de Agostinho Neto”, disse.

Quem, também, testemunhou a visita do Presidente Neto foi o electricista Emídio de Aragão Gonçalves (já falecido). Este cuidava do funcionamento dos dois grupos geradores que forneciam energia eléctrica à residência de campo do Presidente Neto.

Em 2020, aos 85 anos, Emídio Aragão Gonçalves disse, em entrevista ao Jornal de Angola, que um dia viu Agostinho Neto a saudar senhoras que vinham das lavras. Pediu para pararem e prontamente foi correspondido. "Manguxi” ajudava as camponesas a retirar da cabeça os cestos com mantimentos que carregavam e depois partiu para a conversa, que durou cerca de 15 minutos.

"Como estão as mamãs? Como vai o cultivo? O que vão produzir a partir de Setembro? Conhecem-me? Assim, perguntava Neto, visivelmente alegre e com ligeiro sorriso", segundo Emídio Gonçalves. Lembrou que Neto recebia das senhoras respostas oportunas.
 Acrescentou que as mulheres disseram não conhecer a pessoa com quem falavam mas reconheceram que era muito parecido a Manguxi-Dya-Mulaulá.

Depois do diálogo, Neto voltou a ajudar as senhoras a colocar os cestos à cabeça, despediu-se delas, revelando, antes, que "era mesmo o Agostinho Neto”.
Profunda admiração tomou conta das senhoras, que reagiram com palmas prolongadas. Depois disso, uma das senhoras queria voltar à conversa, mas Agostinho Neto prometeu continuar o diálogo num outro momento, devido à agenda que tinha naquele dia.

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