Opinião

Repensar a Indústria Têxtil

Juliana Evangelista Ferraz |*

O sector petrolífero nacional é responsável por cerca de 90 por cento das exportações e 80 por cento das receitas fiscais.

20/07/2021  Última atualização 08H10
 Desta forma, constitui uma grande fragilidade para a economia nacional, principalmente quando o preço do barril do petróleo desce nos mercados internacionais. Porém, um dos grandes desafios para a economia nacional será a revitalização de outros sectores fora do petrolífero, como, por exemplo, o têxtil. Este ocupa, a nível da economia mundial, um lugar cada vez mais decisivo, na medida em que gera postos de trabalho e contribui para o aumento do Produto Interno Bruto e das exportações.

Angola é um país que tem inúmeras necessidades nesta área, em primeiro lugar, devido à inexistência/obsolescência da infra-estrutura e, em segundo, porque estas necessidades devem ser transformadas em oportunidades de criação de indústrias modernas com capacidade para competir e cobrir grande parte da procura interna.

As especificidades e contingências inerentes a este sector mudaram muito, comparativamente as que eram há três décadas atrás. Hoje, estamos perante um fenómeno de internacionalização, na qual estas indústrias se enquadram com uma estratégia comercial agressiva de aquisições, parcerias e fusões, com enorme capacidade criativa, rompendo com toda a filosofia tradicional. Podemos constatar, entre nós, uma vontade e potencial criativos que alguns empreendedores nacionais manifestam. Porém, estes negócios devem ser formatados de maneira comercial, dando uma clara primazia à qualidade, internacionalização e Marketing. Ao invés do empresariado nacional se centrar na importação, deve apostar fortemente na implementação de tecnologias novas e "know how”, para que este esforço, com incentivos, dê vantagens apreciáveis de retorno e lucratividade.

Um sector têxtil renovado compreende um forte benchmarking, copiar os melhores exemplos e atrair tecnologia, que é inexistente, com vista a uma maior exploração do mercado. Vários criadores nacionais participam, um pouco por todo o mundo, em exposições, feiras e eventos diversos, demonstrando grande capacidade criativa. É esta experiência que devemos aproveitar, pois o potencial de mercado é enorme.

Actualmente, grande parte das nossas necessidades é suprida por via do mercado externo, como Brasil, Portugal, Turquia, China, entre outros. Competir nestes mercados é um grande desafio. Com a instalação de indústrias com esta filosofia no país, teremos a capacidade de cobrir grande parte da procura local, partindo do pressuposto de que o mercado deverá pautar pela função custos/benefícios e qualidade/preço.

Existe já uma iniciativa nacional que é facilmente perceptível na atitude comercial exercida por alguns empreendedores. Verificamos um rápido desenvolvimento do comércio, principalmente a nível de Luanda, impondo, em muitos casos, estratégias comerciais agressivas, tendentes a uma política de incentivos, que poderá passar pelo subsídio a fundo perdido a projectos idóneos, que preconizem o desenvolvimento empresarial e sustentabilidade a médio prazo.

A ideia passa por estimular a fixação, no país, de indústrias incorporadoras de tecnologia e "know how”, o que, de certa forma, desencadearia uma expansão acelerada do sector com contrapartidas mais estimulantes. Na primeira fase de relançamento desta actividade, é importante focar a produção para o mercado nacional e posteriormente aposta na internacionalização.

Os dois elementos-chave que deverão acompanhar esta estratégia serão, sem dúvida, a qualidade sustentada por um "Design” adequado e a subcontratação de produtos ajustados às características do mercado interno. Este segundo instrumento determinará, a longo prazo, a capacidade de desenvolvimento e sustentação deste sector, que se encontra praticamente paralisado e terá de surgir com outra filosofia.

O sector têxtil ainda é pouco desenvolvido, o que, de certa forma, favorece a entrada de produtos oriundos do exterior. Os pequenos empresários do ramo da moda devem afinar as suas estratégias, tendo em conta a orientação para o cliente mediante um serviço de qualidade. É notório que este sector precioso exige a implantação de uma lógica tendente à capacitação e qualificação do tecido empresarial e esta deve abarcar toda a cadeia de distribuição.

Portanto, o desafio passa por reestruturar e modernizar  toda a infra-estrutura e, por outro lado, a criação de escolas e atelier de alta costura que serão outras formas de fomentar o crescimento de sector têxtil nacional. Afinal, o país regista um elevado índice de entrada de produtos exportados a serem comercializados no mercado local e províncias ao triplo do seu preço.  A produção interna de têxteis será também uma forma de incentivar os turistas, principalmente, os da zona SADC, visto que sempre desenvolveram uma tendência de moda idêntica à nossa região. 

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