Opinião

Repensar a família

Editorial

A educação deve ser passada de geração para geração, um testemunho que permite que os filhos, quando chegarem à idade adulta, sejam o espelho daquilo que receberam, podendo, assim, transmitir, ciclicamente, a mesma mensagem aos seus filhos”, disse há dias a directora-geral adjunta do INAC, Elisa Gourgel.

16/05/2022  Última atualização 08H10

Numa altura em que assistimos a uma espécie de transformação rápida, e nem sempre positiva, das bases em que assentam as relações familiares, a quase inversão dos papéis no seio de numerosos agregados, vale questionar com que famílias a sociedade angolana conta e contará. São reflexões  que se impõem porque, contrariamente à ideia de que a falta dos meios básicos de subsistência influenciam negativamente nas transformações que notamos, nada justifica hoje o fatalismo e resignação com que  encaramos a situação.  As dificuldades económicas, independentemente do papel que desempenham na desestruturação das relações no seio familiar e na sociedade, não devem justificar a degradação acentuada de valores ao ponto de, por exemplo, os pais colocarem as crianças a trabalharem por eles.

Como exemplificou a alta funcionária do INAC, há pais que, em condições físicas e mentais normais, em vez de se dedicarem, eles próprios, na busca  do pão de cada dia, chegam a colocar os menores nesta condição, quer na venda nos mercados e, algumas vezes o que é ainda grave, na via a pedir esmolas. Não se trata apenas de situações decorrentes da pobreza, da falta de comida em casa, que leva à exploração do trabalho infantil para assegurar o agregado familiar, em que os mais velhos passem à condição de dependentes dos menores.

Há numerosos angolanos adultos, muitos inclusive na condição de portadores de deficiência, com dependentes sob a sua guarda, que decidiram ganhar a vida com decência e dignidade, em vez de recorrerem à inversão de papéis, por exemplo socorrendo-se da deficiência física.

Regressando ao passado, para desconstruir a ideia de pobreza como causa dos actuais níveis acentuados de degradação dos costumes, de valores e a ascensão dos contravalores, vale lembrar que a condição da generalidade das famílias angolanas era de baixa renda, não muito diferente como actualmente.

"Em muitas das nossas famílias, mesmo com as dificuldades da vida, a educação escolar era primordial”, lembrou Elisa Gourgel, um facto que hoje em dia começa a dar lugar à consciencialização, errada e inaceitável, de que os bens materiais devem estar na primeira linha da agenda das famílias.

Desde muito cedo, os menores em alguns agregados começam a crescer com dura realidade de que, em certas circunstâncias, deverão contar consigo mesmos para terem o pão de cada dia.

Independentemente da importância vital que os alimentos jogam na vida das pessoas, obviamente que a educação, os valores e comportamentos que nos dignificam como pessoas não deveriam nunca ficar refém da barriga.

E com todas as dificuldades que se enfrentam hoje, uma das perguntas, levantadas pela número dois do INAC, que cada pai, mãe, encarregado ou encarregada, ou ainda tutor, deve fazer-se a si mesmo é a seguinte: "que tipo de educação estou a passar para os meus filhos?”.

As famílias, igrejas, instituições do Estado, as organizações da sociedade civil e cada um de nós deve repensar os moldes em que funcionam as nossas famílias.

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