Reportagem

Refugiados da RDC refazem a vida no Lôvua

Muanza Simão, 14, Rosete Isa, 15, Ndele Afonso, 13, Tshibola Sara, 13 e Zembele Júnior, 12, têm algo em comum: são alunos da 4ª classe e refugiados da República Democrática do Congo (RDC) colocados no assentamento do Lôvua, a 15 quilómetros da sede municipal, 85 da cidade do Dundo e 500 metros da Estrada Nacional 225, na Lunda-Norte.

20/06/2021  Última atualização 13H40
Passy Mahone é uma das refugiadas integradas no grupo de mobilizadores do projecto de reforço da dieta alimentar do assentamento do Lôvua © Fotografia por: Contreiras Pipa | Edições Novembro
Tranquilos, sem mochilas e com os cadernos e livros às mãos, afluem à escola do primeiro ciclo do assentamento. Sem batas brancas, vestidos cada um a seu jeito, pedem licença, saúdam ao professor e dirigem-se aos seus lugares. Sentados, acompanham com atenção a matéria sobre as vogais e as consoantes do alfabeto, dada pelo professor Michel Kalombo Lumbala, também refugiado da RDC, onde deu aulas na primeira classe.


À primeira vista, tudo parece difícil, já que a língua portuguesa é só o primeiro desafio da adaptação ao sistema de ensino angolano. Apesar disso, não são tímidos. Acostumados ao lingala, tshiluba e cokwe, línguas maioritariamente faladas na RDC, eles levantam as mãos a cada pergunta sobre língua portuguesas sem vacilar. 


O professor Michel Kalombo Lumbala tem domínio do lingala, tshiluba e cokwe. Quando nota que os alunos não entendem a matéria na língua de Camões, comunica e interage constantemente com eles na língua materna, facilitando a compreensão dos mesmos. "A maneira de explicar as coisas é fácil. Pergunto ao aluno como se chama em português. Se ele não entender, pergunto em tshiluba. Se não entende tshiluba, pergunto em lingala ou cokwe. Assim, eles entendem bem o que eu falo e participam mais na aula”, explicou.

Com uma desenvoltura impressionante, Muanza Simão, citado no início dessa reportagem, não apresenta problemas de adaptação à escola. Na sala de aula, se comunica bem, participa de tudo e é muito inteligente. Não fosse o sotaque, ainda forte, ninguém diria que veio da RDC.  
 
Mais mil alunos inscritos


A escola do primeiro ciclo do assentamento do Lôvua conta com 39 professores, dos quais 30 masculinos e nove femininos. Destes, 16 são do Ministério da Educação, dez da Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP), dez professores auxiliares da República Democrática do Congo e três estagiários vindos da Escola de Formação de Professores do Futuro da ADPP em Cabinda.

Com as 16 salas, foram criadas 39 turmas, sendo sete para a primeira classe, cinco da segunda classe, quatro da terceira classe, igual número para a quarta classe, três da quinta classe, igual número para sexta e três da sétima.
A escola trabalha em dois períodos. As salas são compostas por 56 alunos. Devido a pandemia da Covid-19, as turmas foram divididas em dois grupos de 28 alunos cada. No período da manhã, o primeiro grupo entra às 7h30 e sai às 9h30. Já o segundo começa as 9h40 e termina as 11h40.

 O sub-director pedagógico, Gilson Chicango, considera "muito bom” o nível de aproveitamento dos alunos, facto que ficou comprovado num concurso académico realizado no município do Lôvua, em que foram os melhores e as turmas mais destacadas.


"No passado éramos criticados pelos pais que diziam que não ensinávamos quase nada, não sei onde eles encontraram essa informação, mas nós realizamos um concurso académico eles mostraram o que tinham aprendido durante o primeiro trimestre”.
Relativamente às relações com a comunidade congolesa, assegura ser "óptima”, mas também reconhece que a "comunicação tem sido uma grande luta” por causa da língua, tendo sido criados mecanismos para ultrapassar o problema.
"Além das aulas normais, criamos grupos de professores que trabalham aos sábados no melhoramento da língua portuguesa para crianças e temos tido grandes êxitos”, disse.


Um professor poliglota


Michel Kalombo Lumbala, 40 anos, foi professor da primeira classe na República Democrática do Congo. Está no assentamento do Lôvua desde 2017. O processo de ensino no centro começou em 2018, com a chegada do Serviço Jesuíta aos Refugiados. Sem professores suficientes, aquela organização não-governamental recrutou 20 auxiliares da RDC.

"Os professores do Serviço Jesuíta aos Refugiados tinham dificuldades de transmitir os conhecimentos aos alunos, que não dominavam a língua portuguesa. Devido a nossa experiência, fomos recrutados como professores auxiliares para facilitar a comunicação com os alunos. O professor explicava em português e nós traduzíamos na língua materna dos alunos”, recorda

Um ano depois, ou seja, em 2019, a Ajuda de Desenvolvimento de Povo para Povo (ADPP) passou a coordenar a componente de educação no assentamento. Com o início do processo de repatriamento de refugiados, 13 dos professores auxiliares regressaram à RDC. Os restantes sete foram enquadrados na ADPP, passando a ser professores principais. "Neste momento, sou professor da 4ªclasse. já não sou professor auxiliar”, realçou.
Michel Kalombo Lumbala é natural de Mbuji-Mayi, província do Cassai Oriental, a segunda cidade mais populosa da RDC, depois da capital Kinshasa, com mais de dois milhões de habitantes.

Em busca de melhores condições de vida, mudou-se com a família para a fronteira de Kamako, onde trabalhou como fiscal do posto aduaneiro. Lá viveram sete anos até eclodir a guerra, que os obrigou a procurar refúgio em Angola.  
"Primeiramente, eu fugi, porque, como funcionário do posto aduaneiro, fui perseguido pelos rebeldes para ser morto. A minha fuga deu-se a 6 de Abril de 2017. Quando o Governo recuperou Kamako, a minha família também fugiu”, lembrou Lumbala, pai de nove filhos, sendo sete rapazes e duas meninas.

Na Lunda-Norte, foram instalados, primeiro, no centro de refugiados de Cacanda, onde aprenderam a língua portuguesa. A primeira filha, de  20 anos, é também professora do pré-escolar. Tem três filhos a estudar a 7ª classe e os restantes frequentam a 5ª, 3ª, 2ª e 1ª classes. O último filho está no pré-escolar e a esposa trabalha no World Vision.
Embora reconheça que a RDC é o seu país, Michel Kalombo Lumbala decidiu não voltar às suas origens. Mas esta não foi uma decisão isolada. Antes contactou a família na RDC para saber se havia condições para regressar, mas foi aconselhado a não faze-lo, já que, embora seja refugiado, estava a reorganizar a vida em Angola. "Estou consciente que um dia, provavelmente, voltarei à RDC para visitar a minha família. Aqui só tenho uma irmã, a maior parte ficou em Mbuji-Mayi. Aqui já tenho um emprego e tento reorganizado a minha vida”, frisou.  


"Tem sido uma boa experiência”

Nascido em Luanda, mas com origens no Uíge, António Félix Kimbambi, 25 anos, é professor há quatro anos. Formado na Escola de Professores do Futuro (EPF) da  ADPP no Cuanza-Norte, há dois anos assentou arraiais no centro de refugiados do Lôvua, onde dá aulas de Geografia e História aos alunos da 5ª e 7ª classes.
Antes do Lôvua, Kimbambi, tão longo terminou a formação, leccionou durante um ano na EPF do Cuanza-Norte. No segundo ano, trabalhou na agregação pedagógica dos professores sem formação para o efeito, no sentido de melhorar a qualidade do ensino em alguns municípios do Cuanza-Norte. "E, desde 2019, que dou aulas no assentamento de refugiados do Lôvua”, disse.
Longe da família, António Félix Kimbambi garante estar a viver "uma boa experiência” no assentamento do Lôvua. Admite ter vivido seis meses dramáticos no primeiro ano no centro, devido a alguns conflitos provocados pelos refugiados que pretendiam regressar à RDC.
Conta que, durante esses conflitos, os professores eram o principal alvo, na medida em que os refugiados pensavam que o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) não os deixava regressar pelo facto das crianças estarem a estudar.

Sob risco de serem vítimas de agressão, os professores foram obrigados a parar com as actividades lectivas. "Esta era uma forma de pressionar o ACNUR a deixá-los regressar. Foi complicado, mas também foi uma boa experiência. Tivemos de ser fortes, sentar, conversar com os refugiados e permanecemos aqui até hoje”, conta.
A língua tem sido um obstáculo no processo de ensino. "Tem sido difícil ensinar alguém que não fala o português”, reconhece.

O jovem professor tem sido dinâmico. Para facilitar o processo de ensino, tem contado com o apoio daqueles alunos que entendem o português que, depois explicam aos restantes colegas em lingala, tshiluba e cokwe, fazendo com que compreendam a matéria.
"Na 5ª e 7ª classes, os alunos, por serem mais crescidos, conseguem entender um pouco o português. Já nas classes iniciais, ou seja, da 1ª a 5ª classe, os alunos não sabem falar o português”.    



Projecto de reforço da dieta alimentar


Com uma extensão de 300 hectares, entre os quais 240 destinados à habitação, Educação, Saúde e água potável, o assentamento de refugiados do Lôvua tem, igualmente reservada uma área para a prática da agricultura de subsistência.

Um projecto de reforço da dieta alimentar dos refugiados, com a inclusão de alguns membros da comunidade angolana, foi criado em 2020. Implementado pela ADPP,  em parceria com o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), o projecto possui hortas-modelo, onde os camponeses aprendem novas técnicas de cultivo. À reportagem do Jornal de Angola, o agrónomo e formador  do  projecto,  Luís Mukonda, explicou que os conhecimentos adquiridos pelos camponeses são posteriormente aplicados  em campos agrícolas individuais, concedidos pelo Governo angolano aos refugiados.

"Os camponeses aprendem novas técnicas de cultivo sem grandes custos. Pretendemos com isso ajudar na  redução da fome entre os refugiados e em algumas famílias da comunidade angolana residente no Lôvua”, disse.
Luís Mukonda disse que foram criados três clubes, compostos por 20 agricultores cada,  tutelados por comités integrados por cinco elementos, sendo um presidente, um secretário, um tesoureiro e dois ajudantes.
"Os camponeses contam também com o apoio de dez  mobilizadores da ADPP”, disse  o agrónomo, acrescentando que entre os conhecimentos transmitidos aos agricultores  constam técnicas de melhoria do solo e criação de compostos orgânicos. Além da formação, os camponeses  recebem também instrumentos agrícolas, como enxadas, catanas, moto-bombas, botas, sementes e fertilizantes.
Além do tomate, couve, couve-chinesa, cenoura, pepino, cenoura e  gimboa, os refugiados produzem igualmente o milho, a ginguba, a mandioca e o arroz. Os produtos são comercializados no mercado do assentamento e na cidade do Dundo.
Construído numa área de 1.500 metros quadrados, o  mercado comporta 90 bancadas  repartidas em diferentes áreas de venda. Entre as secções existentes constam a de venda de produtos agrícolas, restaurantes, salões de beleza, farmácia, boutiques, equipamentos eletrónicos e mercadoria geral. No local foram criadas condições de biossegurança para prevenção da Covid-19, em conformidade com as recomendações das autoridades sanitárias.

Manguenda Nando, 16 anos, reconheceu que a criação de um mercado  no assentamento do Lôvua foi "uma excelente ideia das autoridades”. Ela ajuda os pais na actvidade comercial, com a venda de vestuário, produtos alimentares não perecíveis, como óleo , açúcar e sal. "A minha  mãe  vai  sempre ao Dundo comprar produtos para revender aqui. Estudo no período da manhã e, quando saio da escola, venho aqui ajudar a minha mãe e o meu pai”, disse.
Os camponeses têm recebido treinamento para a prática da agricultura com recurso a fertilizantes orgânicos, abdicando dos produtos químicos, tendo em atenção a segurança alimentar e nutricional. Por outro lado, o projecto prevê, no futuro, a apostar na avicultura e pecuária.
Proveniente da Província do Cassai, Passy Mahone é uma das refugiadas integradas no grupo de mobilizadores do projecto de reforço da dieta alimentar do assentamento do Lôvua.

Em Angola desde 2017, depois de fugir dos conflitos políticos e étnicos na RDC, Passy Mahone vive no assentamento com o esposo  e  quatro filhos. Elogiou a implementação do projecto  agrícola, que tem sido  importante no sustento da família. Ou seja, com o dinheiro da venda de produtos do campo consegue satisfazer outras necessidades da família, principalmente a  aquisição de vestuário para os filhos.
Além de mobilizadora e formadora, Passy Mahone tem também uma lavra individual onde produz hortaliças. A jovem pretende regressar ao país de origem,  para  dar continuidade  à formação académica, interrompida em 2017.
"Estou apenas à espera que a pandemia da Covid-19 seja erradicada para regressar com a minha família. Fomos bem acolhidos pelo povo e  Governo angolano. Agradeço muito por isso, mas pretendo  regressar”, disse.                       


Um exemplo de resiliência
Vítima de perseguição dos rebeldes, por ser funcionária do Governo, mamã Anton foi obrigada a fugir da República Democrática do Congo no dia 13 de Abril de 2017. Acompanhada de alguns filhos, netos e outras crianças sem pais, provavelmente mortos durante o conflito, encontrou refúgio em Angola.
Primeiro, foi instalada no campo de refugiados do Mussungue, arredores da cidade do Dundo, onde passou quase quatro meses. A seguir, a 9 de Agosto, chegou ao assentamento do Lôvua.

No Lôvua, mamã Anton não quis cruzar os braços e depender apenas do Alto Comissariado das Nações para os Refugiados (ACNUR). Na busca de alternativas para se auto-sustentar, encontrou na produção de mandioca uma forma de agregar renda à família. Hoje tem quatro campos agrícolas.  "Vamos produzir muita mandioca”, garantiu.
 A escolha pela produção da mandioca não foi em vão. Proveniente da província do Cassai,  mamã Anton têm história na produção e venda do tubérculo. À reportagem deste diário revelou que por muitos anos a plantação era destinada ao consumo da família na República Democrática do Congo.

Mas mamã Anton não quis ficar apenas pela mandioca. Numa zona foram do assentamento do Lôvua, começou a produzir o arroz. Esta nova aposta não tem sido fácil, porque acarreta muito custos financeiros, porque a cada uma das suas trabalhadoras paga 20 mil para preparar a terra e fazer o plantio do cereal. Apesar dos constrangimentos, mamã Anton não vira a cara à luta. "Este ano está tudo difícil, mas não vamos deixar de produzir o arroz”, promete.

A produção da mandioca é um projecto de vida. O arroz também é, mas ainda numa fase embrionária. "Na vida é preciso ter projecto. Se você não tem organização, não pode subir na vida. A produção da mandioca foi um projecto bem pensado. O arroz também, embora esteja ainda na fase inicial”, disse.


Mamã Anton lamenta apenas não ter uma máquina de descasque de arroz. Em casa tem mais de dez sacos de 25 quilos de arroz a estragarem-se por falta da máquina e no campo o cereal está pronto para a colheita. "Dizem que já há uma máquina de descasque, mas não funciona por falta de técnico. Está complicado. Fizemos o descasque com as mãos, o que é muito difícil”, queixa-se

A pensar na idade avançada, mamã Anton não pensa, pelo menos para já, regressar à RDC, onde diz ter perdido tudo. "Preciso reorganizar a minha vida. Tenho filhos, netos e outras crianças que vieram comigo sem os pais.  Devo pensar neles. Hoje, não sei, posso morrer, e as crianças vão ficar como?”, questiona-se.

Filha de mais de 25 irmãos, mamã Anton tem falado com a família, principalmente com o filho mais velho. Admite ter saudades da terra que a viu nascer, mas já considera Angola a sua segunda casa. "Na RDC perdi tudo que tinha. Aqui estou a começar do zero. Já estou habituada, se voltar vou morrer de desgosto. Prefiro continuar aqui. Estou a criar projectos para reorganizar a minha”.
                                        

Angola tem mais de 56 mil refugiados e requerentes de asilo
A última avaliação feita pelas autoridades indica que, actualmente, na Lunda-Norte, existem 9.622 refugiados, dos quais 6.728 estão instalados no assentamento do Lôvua.


A oficial de protecção do ACNUR, Stephany Contreras, frisou que os 6.728 refugiados do assentamento representam um total de 1.661 famílias. "Ou seja, 70 por cento dos  9.622  refugiados estão no assentamento do Lôvua. Já são 30 por cento, num total de 2.894, representando 903 famílias, estão nas zonas urbanas”, disse.


Actualmente, o ACNUR tem sob controlo 56 mil refugiados e requerentes de asilo em Angola. Stephany Contreras explicou que na sua maioria são refugiados da RDC, Serra-Leoa, Rwanda, Libéria e Mauritânia.


"Além de refugiados e requerentes ao asilo,  estão também os apátridas (imigrantes sem nenhum estatuto ou reconhecimento pelo país acolhedor)”, explicou, acrescentando que, nesse momento, está em curso um mapeamento com vista à identificação desse grupo de cidadãos.

A secretária do Estado para os Direitos Humanos e Cidadania garantiu que o Governo está a imprimir uma nova dinâmica na implementação da Estratégia Nacional  dos Direitos Humanos para os migrantes, sobretudo os refugiados. 


Ana Celeste Januário frisou que a intenção  é assegurar uma resposta rápida às questões migratórias.  A  dinamização  efectiva do funcionamento do Conselho Nacional de Refugiados, incluindo melhor cooperação com a sociedade civil na protecção dos  migrantes e requerentes de asilo, consta dos principais desafios do Executivo.


Em coordenação com o ACNUR e parceiros, foram criadas condições de habitação, saúde , alimentação, educação  e  programas de integração em actividades produtivas, particularmente a agricultura de subsistência.
"O Executivo assumiu igualmente a responsabilidade perante as crianças refugiadas nascidas em território nacional, tendo lhes atribuído o  registo de nascimento,   atendimento neonatal, entrada no sistema nacional de ensino e assistência nas questões de violência, baseada no gênero .

Dados estatísticos indicam que mais de três mil crianças do assentamento do Lôvua foram  registadas  nos serviços do Conselho Nacional de Refugiados. "Só na Lunda-Norte  foram criados este ano, três comités dos Direitos Humanos  em igual número de municípios”, disse.

Domingos dos Santos
e Armando Sapalo | Lôvua 


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