Opinião

Referências

Caetano Júnior

Jornalista

Num corredor de um hospital de Lisboa estão expostos quadros com imagens de médicos. As fotos mostram o percurso do profissional na unidade, desde muito cedo, ainda jovem, até aos dias de hoje, já acima dos 50/60/70 anos. Os diferentes momentos das imagens chegam a emocionar pacientes, ao mesmo tempo que lhes transmitem confiança, como que a dizer-lhes que estão entregues em mãos seguras e que, de certeza, o problema de saúde que os traz tem solução.

24/10/2021  Última atualização 08H40
As imagens neste hospital de Lisboa - cenário replicado, se calhar, de outros lugares e de outros sectores - transmitem a ideia de referências, de homens e mulheres conhecedores, experientes, vividos na profissão, que devem, necessariamente, constar do quadro de profissionais das instituições, numa realidade transversal a qualquer ofício. São exemplos de resiliência e competência e servem de inspiração às gerações que se seguem, no natural processo de substituição, para fazer cumprir o ciclo da vida.

Quando a Globo e outras televisões brasileiras nos invadem a casa, o que vemos, em grande parte das transmissões? Repórteres adultos, muitas vezes de farta barba branca, senhoras cujos rostos, belíssimos, revelam avanço na idade, a atestar anos de entrega e dedicação a uma carreira extremamente desgastante. William Bonner, Evaldo Pereira, Pedro Bial, Glória Maria, Zileide Silva, Roberto Cabrini e outras referências da televisão brasileira vêm de longo percurso, durante o qual revelaram matérias surpreendentes, ou até notícias trágicas, no "Globo Repórter”, no "Globo Rural”, no "Jornal da Noite”, no "Fantástico” ou no "Repórter Record”.

Hoje, muitas destas figuras conhecidas de telespectadores angolanos recolheram-se do género noticioso propriamente dito e, fazendo justiça à experiência que acumulam, enchem o pequeno ecrã com outra natureza de informação, em estúdio, como entrevistas, ou oferecem o conhecimento a reportagens especiais, aos grandes debates, pelo Mundo e dentro do Brasil. Paralelamente, jovens são recrutados, treinados, seguidos em estágios para as substituir. O "Profissão Repórter” está aí a comprová-lo, no que é a execução prática do que ensinam os manuais.

Já Portugal vive uma realidade adversa. A crise financeira internacional arrastou a Comunicação Social, lesando até ao coma os grupos de Imprensa. Estes avançaram para uma estratégia de contenção de custos, também forçados pelo advento das novas tecnologias, que trouxe a Internet e, por arrasto, as publicações digitais, provocando o declínio dos jornais impressos - há quem lhes vaticine, irremediavelmente, a morte. Quadros experimentados foram sendo afastados, sob o argumento da redução de gastos. Para rendê-los, foram chamados jovens acabados de formar, a quem são pagos salários tão magros, que as referências agora dispensadas dificilmente aceitariam.

As mesmas referências do jornalismo luso, muitas ainda no activo, também chegaram a sê-lo para angolanos. Alguns destes jornalistas tinham deixado precipitadamente Angola, uma década antes, mais ou menos, no rescaldo dos eventos que culminaram com a proclamação da Independência. Vivia-se, então, um contexto em que quase inexistiam manuais que orientam para o exercício da profissão. Os exemplos vinham, pois, também de Portugal. O jornalismo desportivo beneficiou muito especialmente: Alfredo Farinha, Carlos Pinhão, Omero Serpa, Joaquim Rita, Victor Serpa ou mesmo Rui Santos não apenas eram lidos. Chegavam a ser estudados, em textos no "A Bola”, jornal só acessível semanas depois. O "Record”, o "Independente”, o "Expresso”, o "Diário de Notícias” eram também publicações consumidas com sofreguidão. 


Entretanto, um simples olhar - mesmo preguiçoso - mostra uma realidade na qual vão escasseando, no país, referências profissionais nos diferentes sectores da vida. A remessa de quadros para a reforma, de maneira inesperada, às vezes sem critérios claros, tem contribuído para a situação. Acontece também referências serem atiradas para um qualquer canto, desprezadas, desperdiçadas, "inutilizadas”. Um caminho no sentido inverso da preservação de "cérebros” para a necessária passagem do testemunho. Os mais novos precisam de figuras em quem se inspirar; a geração que se segue merece alguém que lhe sirva de exemplo, que lhe ilumine o caminho. Além de que existem profissões em que só a morte ou recolhimento voluntário - por doença, cansaço ou desilusão - abre a porta para a reforma.

Em Angola, vão, pois, escasseando referências no Jornalismo. Quem entrou para a profissão nos finais dos anos 1980, princípios de 1990, beneficiou da experiência de Alexandre Gourgel, David Mestre, João Melo, Graça Campos, Victor Silva, Gustavo Costa, Manuel Dionísio, Adelino de Almeida…, que, por seu lado, receberem estímulos dos "pioneiros” que iniciaram a edificação da história desta arte no país. Hoje, algumas destas referências, que vêm de um percurso de décadas, continuam no exercício, mas fora do frenesi das redacções, longe da discussão da manchete, distante da controvérsia de um "lead” ou da perspectiva a dar a uma matéria.

Agora, nos espaços de produção jornalística, estão, maioritariamente, órfãos de referências. Aos jovens que entram para a profissão - aqueles que se dedicam e se comprometem com a causa, não os que se preocupam apenas com salário a cada fim do mês - quase falta liderança ou a suprema inspiração, que também os ajudaria a manter a certeza de que o Jornalismo é, de facto, o que pretendem para o resto da vida.

As nossas redacções são hoje amontoados de jovens. Alguns, sonhadores, acreditam poder ajudar a melhorar a profissão; outros apenas na expectativa de colher benefícios, ao mínimo esforço. Falta um elo que os mantenha despertos, interessados no ofício. Parte das referências há muito acordou do sonho de continuar jornalista. Desiludida, ou desinteressada, abraçou outros afazeres, mais lucrativos e menos exigentes e cansativos, do ponto de vista intelectual, emocional e até físico. A menos que se comece a abordar profunda e seriamente o assunto e se encontre uma estratégia que ajude a alterar o quadro, o cenário que se prevê é assustador.
O futuro do Jornalismo está ameaçado. A qualidade e a competência de quem o fará nos próximos anos correm perigo.

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