Reportagem

Rede de Mulheres Jornalistas Africanas adopta plano sobre emergência climática

O tema “Agentes de Mudança na Media” está no topo das prioridades do plano de acção Fórum Africano de Mulheres Jornalistas denominado “Les Panafricanes para o corrente ano. Eleito mediante votação, o tema adoptado mereceu, entre os sete propostos, a preferência das participantes, no encontro que juntou mais de trezentas profissionais de 54 países do continente, em Casablanca, nos dias 6 e 7 do corrente.

10/03/2020  Última atualização 11H10

Realizada sob o lema “Emergência climática: os actores da mudança na mídia”, a terceira edição da jornada pan-africana produziu propostas enriquecedoras ao longo das discussões em plenária e dos 7 painéis temáticos.

Com 24% dos votos, o tema escolhido por sufrágio secreto e electrónico para o topo da agenda das “ Panafricanas”, traduzido da versão original em Língua Francesa, assume a forma de gru-po de trabalho itinerante, imbuído do objectivo de reunir as várias propostas apresentadas pelas mulheres pan-africanas e reflectir sobre a efectiva implementação das mesmas.
O senegalês Aziz Diouf, Presidente da Rede Marroquina de Jornalistas em Energia e Desenvolvimento Sustentável, destacou que, sejam quais forem as recomendações feitas por cada um dos workshops organizados em torno da questão das mudanças climáticas, “é essencial que todas sejam sujeitas a uma reflexão profunda na sua implementação.
“Antes da votação, a sessão plenária registou a intervenção dos chefes dos coordenadores dos sete painéis, acompanhados por especialistas supervisores que apelaram a favor dos temas propostos. Apoiadas por intermédio de projecções de entrevistas na tela gigante, as alegações destacaram os diferentes ângulos de abordagem feitas pelas intervenientes. No dia anterior, as oficinas permitiram às pan-africanas, acompanhadas por especialistas, discutir as diferentes facetas da emergência climática e daí a gizarem as propostas apresentadas à plenária.
O primeiro workshop privilegiou a “Transição energética bem-sucedida em África: questões e desafios”, no decorrer dos trabalhos liderados por Abderrahim Ksiri, coordenador nacional da Aliança para o Clima e o Desenvolvimento Sustentável do Reino de Marrocos. O especialista afirmou que cerca de mil milhões de pessoas, ou 13% da população mundial, ainda vive sem electricidade no continente.
“Em África, uma em cada três pessoas residentes em áreas rurais não tem acesso à electricidade.
“Os desafios da gestão racional dos recursos hídricos” foi o tema do segundo workshop, facilitado pelo professor universitário Fouad Amraoui, segundo quem um terço da população africana não tem acesso à água potável. Ou seja, cerca de 330 milhões de pessoas, “quase metade dos africanos sofre de problemas de saúde devido à falta de água potável”.
Por seu turno, Fettouma Djerrari Benabdenbi, co-fundadora do Movimento Terra e Humanismo em Marrocos, insistiu na avaliação da agricultura africana como um sector vital, “que concentra um número muito grande de empregos directos”, aos quais se atribuem os rendimentos de aproximadamente 70% da população africana. Os dados foram introduzidos no painel sobre “Agricultura sustentável: uma economia verde para a África”.
O “Impacto das mudanças climáticas na Saúde, que estratégia adoptar?”, segundo tema mais popular, na óptica das participantes, produziu igualmente números e afirmações que traduzem a inquietante realidade africana. Rachid Wahabi, chefe da Divisão de Saúde Ambiental do Ministério da Saúde de Marrocos, aproveitou a oportunidade para dar ênfase ao facto de as mudanças climáticas terem “impacto directo e indirecto na saúde humana. Isso manifesta-se, por um lado, através de de-sastres naturais que causam ferimentos e morte e, por outro, por desnutrição e doença, salientou.
O quinto grupo de trabalho do Fórum forneceu respostas para a recorrente pergunta: “Que desenvolvimento sustentável para as cidades africanas?” Para Mohamed Nbou, Assessor Especial do Secretário-Geral da Força-Tarefa Climática na África da UCLG (Cidades e Governos Unidos), “as cidades africanas são grupos de problemas, mas também de soluções. A nível global, consomem dois terços da energia e são responsáveis por mais de 70% das emissões de carbono”.
A brasileira Ana Lê Moraes Rocha, residente na Tanzânia há mais de dez anos, conduziu os debates em torno da “Gestão de resíduos, uma alavanca decisiva na luta contra as mudanças climáticas”. Directora executiva da Nipe Fagio, organização pioneira da Tanzânia na área de meio ambi-ente e gestão de resíduos, Ana Lê Moraes Rocha considerou que “a má gestão de resíduos prejudica as populações mais vulneráveis. Mais de 90% dos resíduos queimados ou despejados em aterros sanitários estão em países de baixa renda.”
A marroquina Samira Sitail, membro do Comité Permanente das Panafricanas, declarou no encerramento da terceira edição do Fórum Africano de Mulheres Jornalistas que hoje, “como membros da sociedade civil, somos obrigados a ter sucesso onde organizações políticas e funcionários do governo falharam”.
Integrante da organização do fórum desde o início do projecto, Samira Sitali sublinhou que “somos todas diferentes e, ao mesmo tempo, todas iguais, pois, enquanto jornalistas, “enfrentamos os mesmos problemas e dificuldades. Também compartilhamos a mesma energia e o mesmo desejo de levar a África adiante. Vamos unir-nos; é a união que nos fará fortes”.

Reencontro em Rabat

A questão das mudanças climáticas foi levada à sede do Ministério das Relações Exteriores, da Cooperação Africana e dos Marroquinos Residente no Exterior, durante um encontro entre o titular da pasta, Nasser Bourita, e cerca de 150 jornalistas, realizado na véspera da abertura do Fórum. Durante o pequeno almoço, com direito a debate, o ministro realçou a pertinência da acção da mídia diante das sérias consequências das mudanças climáticas, problema de capital importância para o continente africano.
“Lidar com a questão das mudanças climáticas não é um luxo para a África, mas sim uma emergência e uma necessidade"», afirmou Nasser Bourita, conhecido das Panafricanas de fóruns anteriores.
De acordo com o governante, o Reino de Marrocos está comprometido com a promoção de energias limpas, com vista a elevar para 52% a proporção de energias renováveis até 2030. Lamentou o facto de as mulheres africanas serem as mais afectadas pelo impacto do aquecimento global no continente, incluindo nas componentes socio-económicas, razão pela qual as pan-africanas decidiram este ano debruçar-se em torno do tema. Nasser Bourita reitera que “as pan-africanas devem ser as porta-vozes de uma África que vai da advocacia à acção.
No final da reunião, um grupo de cinquenta mulheres deslocou-se à Cité Universitaire Internationale, em Rabat, onde foram recebidas por Mohammed Methqal, embaixador-director-geral da Agência Marroquina de Cooperação Internacional (AMCI). ) A missão da AMCI é desenvolver, ampliar e fortalecer todas as relações culturais, científicas, técnicas e económicas com os países parceiros, em particular no âmbito da cooperação Sul-Sul.
Durante sua visita à Cité Universitaire Internationale de Rabat, as jornalistas inteiraram-se do modo de vida dos estudantes estrangeiros em Marrocos, tendo as profissionais de alguns países interagido directamente com os seus compatriotas.
Mohammed Methqal caracterizou a Cité Universitaire Internationale de Rabat como o símbolo do compromisso histórico e permanente do Reino de Marrocos com a formação da juventude africana. Mais de 70 nacionalidades coabitam no espaço, incluindo 47 países africanos, factor que o torna num dos “lugares onde há uma das maiores diversidades por metro quadrado de representação do continente africano”, declarou Mohamed Methqal.
Neste momento em que os países africanos enfrentam grandes desafios económicos, de segurança e ambientais, “afigura-se urgente para todos nós mantermos o compromisso na batalha contra a ameaça das mudanças climáticas” acrescentou o diplomata.

A Rede
A rede "Les Panafricaines" resulta de uma iniciativa da Rádio Televisão marroquina 2M, materializada em 2017. A plataforma congrega mulheres jornalistas de 54 países do continente, apostadas em contribuir para uma maior responsabilidade da Media em lidar com questões centrais de interesse da opinião pública no continente.
Inspiradas no provérbio africano “Sozinha caminho depressa, juntas vamos longe" , a rede também se atribui à missão de constituir uma força real de reflexão e concepção de propostas realistas. Na edição deste ano, várias personalidades, com relevância para o Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres, e o cantor senegalês Youssou Ndour, endereçaram mensagens de encorajamento às participantes.
A segunda edição do Fórum de Mulheres Jornalistas, organizada pela estação 2M, com parceiros locais discutiu, du-rante três dias, em Outubro de 2018, igualmente em Casablanca, a realidade no continente, focada na inquietante problemática da migração.

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