Opinião

Reconstituir a alma angolana para reformar em chão firme

O Presidente João Lourenço está determinado a escrever uma nova página na história de Angola, a fixar as balizas de uma nova Angola, e, por isso mesmo, a par do combate à corrupção, da reforma do Estado, tratou de consagrar o aniversário do 27 de Maio, este ano, como um momento ímpar para a reconstituição da alma angolana.

28/05/2021  Última atualização 06H10
Quarta-feira, em véspera da data que assinala o aniversário da intentona golpista ocorrida a 27 de Maio de 1977 e dos trágicos acontecimentos que enlutaram o país naquela época, o Presidente João Lourenço apresentou, às vítimas dos conflitos e aos angolanos em geral, em nome do Estado angolano, desculpas públicas e o pedido de perdão "pelo grande mal que foram as execuções sumárias (ocorridas) naquela altura e naquelas circunstâncias”.

A cerimónia realizada no Palácio Presidencial fica registada, no plano político e moral, como um momento de grande alcance; o da construção de um novo ponto de partida para uma Angola melhor, mais amadurecida e ciente das consequências dramáticas que os conflitos trazem para as pessoas, para as famílias, para a sociedade e para o país, no seu todo.

João Lourenço entendeu cedo que as grandes reformas que almeja concretizar não poderão ser profundas e genuínas se o país não estiver reconciliado consigo próprio, se não procurar sarar as feridas provocadas pelos vários conflitos que marcaram a sua existência desde a proclamação da Independência nacional.

Por isso, criou, por despacho presidencial de 16 de Maio de 2019, a Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP) ocorridos entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002. Justificou a decisão como um "imperativo político e cívico do Estado”, para "prestar condigna homenagem à memória de todos os cidadãos que tenham sido vítimas de actos de violência, resultantes dos conflitos políticos”.

Defendeu ainda que o mecanismo criado cuidasse de "promover a auscultação e a realização de um diálogo convergente, no sentido de se assegurar a paz espiritual da sociedade, face a episódios do passado na convivência nacional que possam perturbar a unidade e o sentimento de fraternidade entre os angolanos”.
Ainda em Maio de 2019 e por impulso presidencial, uma equipa multissectorial do Governo trabalhou com a UNITA para a exumação e transladação dos restos mortais do seu líder fundador, Jonas Savimbi, cujo funeral teve lugar a 1 de Junho do mesmo ano, na aldeia de Lopitanga, no município do Andulo, província do Bié, 17 anos depois da sua morte em combate no Lucusse (Moxico).

Ao instituir a CIVICOP, o Executivo não escondeu o alcance que pretendia imprimir ao seu trabalho. Ao apontar como âmbito da sua intervenção os conflitos políticos ocorridos de 11 de Novembro de 1975 a 4 de Abril de 2002, estava, desde logo, definida uma abrangência que não se circunscrevia aos conflitos internos no MPLA ou àqueles que tenham ocorrido debaixo da sua jurisdição enquanto força política no poder. De resto, não fazia sentido que, enquanto Presidente da República, João Lourenço se comprometesse a levar o Estado a ocupar-se da reparação das almas de uns angolanos e de outros não.

Por isso, foi sem surpresa que vimos o Chefe de Estado fazer, na quarta-feira, um apelo para que "quem tem a responsabilidade de o fazer apresente também um pedido público de desculpas e de perdão pelas almas de Tito Chingunji, de Wilson dos Santos e respectivas famílias, das valentes mulheres das fogueiras da Jamba, dos passageiros do comboio do Zenza do Itombe, dos mártires da cidade do Cuito (Bié) e do Huambo…”. Um apelo que não caiu no goto da UNITA.

Eugénio Manuvakola, da UNITA, que encorajou a iniciativa do Presidente da República de dar início ao processo de localização das ossadas das vítimas do 27 de Maio e a entrega dos corpos dos dirigentes da sua formação política tombados em combate em 1992, em Luanda, foi de opinião que o Chefe de Estado devia "separar as responsabilidades”.
Nota-se, da parte da UNITA, um certo complexo por não lhe couber a primazia da iniciativa, por não estar na dianteira e, com isso, poder ganhar alguns pontos no plano político, nomeadamente, mostrar à sociedade ser uma formação consciente dos seus erros, reconciliada consigo mesmo e pronta a inaugurar uma nova era, consentânea com as condutas que devem ser seguidas em tempo de paz e num contexto de valorização dos princípios da democracia, de respeito pelas liberdades de expressão e de opinião.

A verdade é que a UNITA teve tempo (de pedir desculpas e perdão) e não o fez. Continuou sempre a endeusar o seu ex-líder e a vender a propaganda de que a Jamba era o paraíso na terra, que as coisas lá corriam às mil maravilhas, quando na realidade foram cometidas atrocidades que, a bem da história, a bem da reconciliação nacional e da moralização do país, devem ser reconhecidas que ocorreram. As famílias das vítimas estão à espera de ver o partido fundado por Jonas Savimbi retratar-se.
Enquanto por cá se trabalha, uns quantos angolanos, principalmente lá fora, que entretanto se auto-excluíram, vão, no conforto das suas poltronas, fazendo o que é mais fácil: lançar farpas ao processo, desgostosos. Mas o comboio da história não pára!

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