Cultura

Recomendado apoio aos jovens pesquisadores

Analtino Santos

Jornalista

Na quarta-feira, 25, Dia de África, o auditório do Memorial Dr. António Agostinho Neto (MAAN) acolheu, enquadrado no Centenário do seu patrono, o 4º colóquio da instituição sob o tema “Da Sagrada Esperança à Renúncia Impossível”.

29/05/2022  Última atualização 12H05
José Luís Mendonça, A psicóloga Fátima Fernandes, e O professor universitário Benjamim Fernando © Fotografia por: DR

António Fonseca, director-geral do Memorial Dr. António Agostinho Neto, deu as boas-vindas no evento prestigiado pela presença da secretária de Estado da Cultura Maria da Piedade de Jesus. "O legado de Agostinho Neto ultrapassa o nosso tempo e deve perenizar-se, para que, como agora, continue a merecer o estudo dos académicos e a inspirar novas gerações”, disse o também escritor António Fonseca.

Maria da Piedade de Jesus afirmou que o legado de Neto "tem sido, sem dúvida, fonte de inspiração, uma valiosa ferramenta de incentivo à criatividade literária entre os autores nacionais que vêm reproduzindo o imaginário e a identidade cultural das comunidades angolanas, através do texto literário, dando assim origem a uma nova vaga”.

Logo no início do colóquio foi assinado o Protocolo de Cooperação entre o Memorial Dr. António Agostinho Neto e o Instituto Nacional do Património Cultural (INPC), representado pela sua directora Cecília Gourgel. As duas instituições comprometem-se a conservar e a divulgar as nove pinturas que ilustram a obra "Sagrada Esperança”, além de oito esboços de gravuras, da autoria de António Pimentel Domingues. As referidas obras serão expostas no Memorial, no quadro do Centenário do Presidente António Agostinho Neto e, posteriormente, de forma permanente.

Os objectivos a que os organizadores do colóquio se propuseram alcançar foram o seguintes: reflectir e testemunhar sobre a obra literária de Agostinho Neto e projectar os seus ideais expressos na respectiva obra poética; promover junto das novas gerações o conhecimento da obra poética e reafirmar o lugar de Agostinho Neto no panteão dos pensadores da libertação de África. 


O que falaram sobre Neto

José Luís Mendonça, na comunicação "Agostinho Neto-Sagrada Esperança: Metafuncionalidade e subversão na poética de Agostinho Neto”, depois de citar Manoel de Barros - "Poesia é a ocupação da palavra pela imagem” -, colocou poeticamente a seguinte hipótese: "E se Agostinho Neto não tivesse estudado medicina, mas tivesse beneficiado de uma bolsa, a partir do exílio, para ir estudar cinema na Estónia, antiga república socialista soviética e, lá, tivesse aprendido com Bela Balázs a sua teoria formalista do cinema, lhe tivesse sido oferecida uma câmara de filmar, e pudesse, no contexto colonial, produzir a obra ‘Sagrada Esperança’ como uma longa-metragem de cinepoesia?”.

Na sua desafiante apresentação Mendonça abordou a coisificação dos signos em movimento real e a transformação dos textos poéticos em obra cinematográfica. Como disse, "aqui se projecta com luz, cor e som, a imagem móvel da colonialidade e da sua negação dialéctica, a utopia política desenhada pela intelectualidade nacionalista de então, não já na forma do discurso escrito que nos legou o Poeta. No formato de celulóide, o filme analógico está aqui acessível ao público geral, mesmo para os portadores de iliteracia substantiva”.

Para o poeta e jornalista a pretensão de deixar falar a realidade poética de Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, funda-se no mesmo princípio combinatório proposto pelo poeta português Herberto Hélder. "Este é um filme destrinçado agora, nesta Angola independente, (sem os pictogramas partidário-políticos que desmetaforizam de maneira alucinatória a obra poética de Agostinho Neto) na leve e transparente profundidade do discurso de Sagrada Esperança. O filme existe. Abram o livro Sagrada Esperança. Sangrem com este realizador os elementos intangíveis na espessura pragmática da projecção imagética”.

José Luís Mendonça foi mais além: "A poesia de Agostinho Neto e seus pares está entranhada de um pendor metafuncional, que aponta para o pós-independência. Qual o papel, a pertinência, dessa metafuncionalidade, nesta era em que Angola ostenta uma bandeira diferente da do Império Colonial Português?” 

 

António Quino, que dissertou sobre  "A Impossível Renúncia da Sagrada Esperança de Agostinho Neto”, afirmou que o autor de "Havemos de Voltar” é sempre "um nome que arrasta sentimentos múltiplos e reacções diversas e que o seu-eu ganhou a forma de uma marca patriótica, que não pode ser ignorada na conjunção de traços característicos do angolano e dos elementos definidores da história e da cultura angolanas”.

Num outro momento Quino referiu que "se Patrice Lumumba teve o mérito de trocar o conceito negritude pelo de africanidade, Agostinho Neto fez emergir, com Sagrada Esperança, a conjunção de traços característicos da Angola rural e dos elementos definidores da história e da cultura angolanas (...)”.

"Agostinho Neto faz emergir na sua poesia o trinómio da necessidade de lutar com o povo, de sonhar com o povo e de prosperar com o povo”, assegurou António Quino, para depois frisar que o poeta "se engaja na definição do homem angolano, vivendo, ele próprio, as angústias, desejos, medos e esperanças do sujeito poético perdido dentro do homem que havia nele, desenhando-o através de imagens poéticas e recorrendo ao dia-a-dia do angolano para delimitar as suas feições patrióticas (...)”.

 

A escritora e professora Domingas Monteiro ao falar sobre "Agostinho Neto, um sintomatologista de Angola”, recorreu às palavras proferidas por  Lúcio Lara diante da urna com os restos mortais do Presidente Agostinho Neto, em Luanda, no dia 17 de Setembro de 1979: "A certeza da vitória eras tu, que sabias sorrir diante do perigo, que sabias criar com os olhos secos, que não conhecias nem o medo nem a dúvida diante dos objectivos que desde cedo foram traçados”.

Na sua apresentação Domingas Monteiro sublinhou que Neto usa o texto literário como instrumento de resistência, com o objectivo de "influenciar atitudes e comportamentos, por formas a interferir na vida política e cultural dos povos, tendo em vista a construção de narrativas que vão forjar a sua identidade”. A partir daqui, posseguiu, "pode o escritor montar uma peça denunciadora dos sintomas candentes da sua sociedade, baseada numa ideologia colectiva de libertação de qualquer violência/dominação”.   

Na parte final, a escritora relacionou o poeta e o médico e recorreu a Deleuze: "A obra de arte é portadora de sintoma, tal como o corpo ou a alma, embora de uma maneira bem diferente. Nesse sentido, tanto quanto o melhor médico, o artista e o escritor podem ser grandes sintomatologistas”.

"Ele [o poeta] deve tratar o mundo como um sintoma e construir  a sua obra não como um terapeuta, mas, em todo o caso, como um clínico”.

Domingas Monteiro realçou ainda que, "com efeito, a criação poética de Agostinho Neto remete para um levantamento psico-sintomatológico de questões de ordem social, cultural e política, como alavancas para uma reivindicação que se impunha, em função dos ideais da colonização, que por décadas aprisionou e acometeu os sonhos do povo angolano, como se pode verificar nos (...) versos do poema ‘Sombras’”.

Em jeito de conclusão, a também directora do Instituto Nacional das Indústrias Criativas e Culturais disse: "O homem travestido de poeta foi capaz de radiografar as enfermidades de um povo acometido por um sistema funesto-imoral-asfixiante, transformando-as em versos que sangram-vivificam até aos nossos dias. São diagnósticos-receitas que nos chegam através da literatura, feitas por um génio-leitor de realidades”.

 

A psicóloga Fátima Fernandes na sua comunicação "Poesia de Agostinho Neto: O futuro não é para os velhos”, juntou poesia e análise psicológica para lançar luz sobre os velhos e os novos na poesia de Agostinho Neto, que, segundo disse, "é uma poesia de resistência, de revolta, e também de renovação e de esperança”. 

Para a oradora, "na poesia de Neto, os velhos são símbolo de um país vilipendiado, oprimido, humilhado, maltratado”. Os velhos na poesia de Neto, acrescentou, são "o exemplo do que a colonização pode fazer sobre a alma de um povo, reduzindo-a a farrapos escondidos, sem voz, de cabeça baixa perante os insultos”.  Para dar força à sua argumentação Fátima Fernandes revisitou os poemas "Velho Negro”, "Meia-noite na Quitanda”, "Sábado nos Musseques”, "Mãe África”, "Adeus à Hora da Largada” e "Paredes Velhas”. 

Fátima Fernandes realçou que na poesia de Neto "o filho é o jovem que se revolta contra o colono, mas que também se revolta contra a postura da ‘espera’ medrosa ensinada pela mãe, que recusa a esperança sem acção e que se assume como o novo sangue, ‘o novo homem da casa’: ‘Sou aquele por quem se espera’. Os jovens caracterizam-se pela extrema necessidade de auto-afirmação e de rebeldia. Lutam para encontrar e conquistar o seu lugar no futuro. O jovem procura modelos, num processo complexo de construção de identidade”. 

Na ponta final da sua comunicação Fátima Fernandes enfatizou: "Os velhos irão sempre apresentar resistência à mudança, com os seus dogmas, que causam confusão e dúvida; com o seu amor, que causa dependência; com a sua fragilidade, que causa pena; com a sua autoridade, que provoca o ódio. Os jovens terão de lutar contra todos os preconceitos, aparentemente esculpidos em pedra, para construírem o futuro com que sonham, na certeza – apresentada no poema "Amanhecer” de Agostinho Neto – de que "Tangem sinos na madrugada / Vai nascer o sol”.

 

Hélder Simbad, que apresentou o tema "Dimensão filosófica da poética Netiana”, começou pela seguinte afirmação: "A obra literária é melhor compreendida quando  previamente se constrói um sistema lógico e racional de ideias que servem de directrizes para a sua desmistificação”. Simbad defendeu que "toda a Poesia é filosófica; algumas, quando originais, constituem-se como  Filosofias; outras, no entanto, são apenas poemas, por força da forma; e umas, nem Poesia chegam a ser. Filosofia e Poesia são duas poderosas formas de reflexão e consequentemente questionamento”.

Depois dessas "notas introdutórias” salientou que "a ideia de relacionar a produção poética de Agostinho Neto com a Filosofia resulta do conhecimento que temos em relação ao seu envolvimento com a Filosofia Marxista e a curiosidade despertada por Jorge Macedo no seu livro ‘Poéticas na Literatura Angolana’, quando conclui que ‘Neto, na densidade do dizer poético, reúne o dizer filosófico’”.

O estudioso usou como exemplo o poema "Sombras”, que, segundo disse "se realiza numa dimensão imaginativa e noutra terrena”. A finalizar, realçou que "em vista de tudo o que foi dito, conclui-se que toda a poesia é filosófica porque, embora em escalas diferentes, o poema se constrói sempre dentro do espaço psíquico do racionalismo humano, mesmo quando os homens da palavra sugerem ser 100% intuitivos”. E acrescentou ainda que no poema "Sombras” o trânsito do Ser "consubstancia-se no estado de inquietação do sujeito poético que o obriga a se descobrir através da revisitação do seu inconsciente que o loca num espaço psicológico e num conflito dialéctico entre África e Europa. ‘Sombras’ é seguramente dos mais expressivos poemas de Agostinho Neto, não muito por sua dimensão metafórica, senão por sua carga filosófica, podendo-se concluir teoricamente que a qualidade e a beleza de um texto poético não dependem necessariamente da complexidade da sua linguagem”.

Apresentaram também comunicações o poeta e actual secretário-geral da União dos Escritores Angolanos David Capelenguela, "A poética da angolanidade na estética de Agostinho Neto”, e o professor universitário Petelo Ne-Tava, "O claro e escuro em Sagrada Esperança de Agostinho Neto”. 

 

O professor universitário Benjamim Fernando   abordou o tema "A independência como resultado da renúncia não impossível de  Agostinho Neto”. Segundo afirmou, Neto contraria a experiência humana no concernente a suicídios,  onde as razões passionais, as desilusões amorosas, lideram as estatísticas policiais. Para Neto, "não ter lugar na sua própria pátria é equivalente a um Homem Nulo, a nada, a zero, por isso, com toda a razão do mundo para renunciar à vida”.

A poesia engajada, apelando à libertação para homens brancos e negros, segundo Benjamim Fernando, pôde ser vista como profética quando, a 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto proclamou a Independência Nacional, tornando viva a "Renúncia Impossível”.

Benjamim Fernando fechou desse modo a sua apresentação: "Neto não abdicou da sua crença, da sua convicção de que a Liberdade é um direito que todos os homens devem usufruir e, por isso, a Renúncia Impossível não foi possível. Por este facto, como resultado, Angola conquistou a sua independência”.

 

Recomendações

Do 4º colóquio do MAAN "Da Sagrada Esperança à Renúncia Impossível” resultaram as seguinres recomendações: despertar nos jovens o interesse pela pesquisa e sobre os feitos do Saudoso Presidente Agostinho Neto; prestar uma atenção especial aos trabalhos de investigação sobre os conteúdos literários e políticos da obra do Dr. António Agostinho Neto, realizados pelos académicos e investigadores mais jovens, assegurando o apoio necessário para a realização dos seus projectos. Realizar programas de sensibilização para incentivar e promover o ensino da arte literária e dos vários segmentos que compõem a identidade cultural africana com as comunidades académicas, no intuito de pensarem mais sobre Agostinho Neto e propor a criação de programas curriculares sistematizados, para que a obra poética completa de Neto esteja nas escolas do I e II Ciclo do Ensino Secundário e nas Universidades. 

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