Opinião

Receios fundamentados da dança das cadeiras

As autárquicas não tarda estão aí, a servir de porta de entrada para um corredor que vai desembocar num mundo completamente estranho para a esmagadora maioria de nós, futuros eleitores e candidatos a eleitos.

14/02/2019  Última atualização 07H43

No primeiro mandato desse mundo desconhecido que nos aguarda é que uns e outros havemos de começar a aprender o que é, para todos nós, essa forma nova de governação. Com características próprias, entre as quais avulta a proximidade entre eleitores e eleitos. Com todas as vantagens e desvantagens que tal acarreta. Que somente o tempo há-de mostrar-nos.
O poder autárquico, já manifestámos essa opinião por mais de uma vez, por si só, não determina nada. Por não ser varinha mágica capaz de resolver os problemas que afectam os residentes das áreas que o circunscrevem. Em alguns casos, pode, até, ser maior, tornar-se mais apetecível. Devido a uma série de circunstâncias. Geradas, quase todas, por graus de amizade, parentesco, vizinhança entre eleitos e eleitores. Que se cruzam diariamente na rua, nos restaurantes, tascas, sedes de agremiações de toda espécie. Militam em forças políticas diferentes, mas torcem por emblema desportivo comum e vice-versa. Verdade é que, pelos mesmos motivos, podem mais facilmente ser solucionadas questões de interesse da comunidade. É, permitam-nos a imagem, pau de dois picos. Que requer cuidado de manejo.
O poder autárquico que aí vem é dado adquirido. Não há volta a dar. Apesar da maioria de nós nada saber sobre ele, incluindo os que se arvoram em entendidos na matéria. Por isso, expectativas e receios cruzam-se e avolumam-se. Principalmente, quanto a candidatos a experimentar executá-lo. Quem pode e não pode ser?
A decisão cabe às forças políticas. Qualquer uma das representadas na Assembleia Nacional dispõe de pessoas - não necessariamente com funções parlamentares - com capacidade intelectual para poderem ser autarcas. O que não invalida que a escolha obedeça a outros critérios rigorosíssimos, incluindo a nível de vida profissional e pessoal. De modo a não haver engulhos para nenhuma das partes, nem tropeções a dada altura do trajecto.
O êxito das autarquias cabe, essencialmente, aos candidatos e a quem os indicar para tal. Sem se exigir que sejam santas e santos de altar, têm de ser pessoas acima de qualquer suspeita. Sem “rabos de palha”. De preferência que não tenham tido - nem exerçam - funções que comprovadamente não desempenharam da melhor maneira, independentemente das razões. Sequer possam dar azo a dúvidas. Que “a mulher de César, não basta ser, é preciso parecer”. Sublinhe-se, para não restarem dúvidas, que quem a alertou para isso foi o próprio marido.
O MPLA, pela experiência governativa que acumula e por ser, indiscutivelmente, o partido melhor organizado em termos eleitorais, além de dispor de suficiente quantidade de quadros, parte em vantagem para esta corrida de percurso desconhecido. Mas, igualmente, o mais atingido pela luta sem tréguas que ele próprio, em boa hora, encetou contra a corrupção, nepotismo, peculato, sentimentos de impunidade, egoísmo, desvergonha. O que lhe exige cuidados redobrados na escolha de candidatos. Para não termos de assistir a outra repetição da “dança das cadeiras”. Ao som da música de disco estragado, de virar e tocar o mesmo. Nem sequer ver “pernas de pau”, que, à última hora, queiram aprender a ser bailarinos.
Quanto aos partidos da oposição, têm vantagens nas desvantagens do partido no poder e contra eles o que o MPLA tem a favor. Também podem agora demonstrar ter algo de novo a mostrar.
As eleições autárquicas, que hão-de consubstanciar nas nossas primeiras autarquias, despoletam naturais esperanças, mas igualmente fundamentados receios.

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