Entrevista

Ramiro Barreira: “As perdas no sector de hotelaria estão acima dos 10 mil milhões de kwanzas/mês”

Bernardo Capita|Cabinda

Jornalista

A Associação dos Hotéis e Resorts de Angola (AHRA) com cerca de uma centena de membros espera que passada a "tempestade", as unidades hoteleiras possam retomar o seu papel decisivo para o engrandecimento do tecido produtivo a nível nacional

07/05/2020  Última atualização 08H35
DR

A economia nacional está a viver momentos difíceis, por causa da pandemia da Covid-19. Qual é o impacto real que este fenómeno está a causar no sector turístico e hoteleiro?

É um impacto desastroso em quase toda a sua plenitude. Não há circulação de pessoas, as fronteiras estão fechadas, imperam as medidas restritivas de confinamento social, sem turismo e por conseguinte, sem clientes para os hotéis e restaurantes. As perdas são enormes. Em relação a esta crise, já estamos a caminhar para o segundo mês e não sabemos quanto mais tempo ficaremos nesta situação. O certo é que os trabalhadores estão em casa, as empresas paradas, acrescentado-se ao facto de terem de ser pagos os salários. Há outros gastos com a segurança, ma-nutenção, água, luz, limpezas, impostos, etc. sem quaisquer retorno.A Associação dos Hotéis e Resorts de Angola (AHRA) fez muito recentemente a entrega ao Governo de uma proposta.

Podes quantificar?

Em Angola temos cerca de 1.700 unidades do sector hoteleiro, estamos a falar de cerca de 38 mil camas onde estão incluídos 234 hotéis de 3 a 5 estrelas. De uma maneira geral, 80 por cento tiveram de encerrar as suas portas por força da ausência de clientes e também pelo alto risco de contágio. Não estávamos preparados para esta situação. Ninguém estava! E como medida de emergência tivemos de encerrar as unidades hoteleiras, incluindo restaurantes. Segundo alguns cálculos, que não devem fugir muito da realidade, as perdas no sector de hotelaria estão acima dos 10 mil milhões de kwanzas por mês, num cenário de contribuição do turismo ao PIB, nos últimos anos, na ordem de 0,450 contra os 0,7 por cento em 2014. Estamos a falar de uma diminuição substancial de receitas do sector, provocada pela crise do petróleo em 2014 e agravada nesta altura. É importante referenciar que houve nesse período uma retracção do turismo externo de negócios de 600 mil para 300 mil visitantes. Os números falam por si.

Qual é a actual ocupação dos hotéis?

Os hotéis, na generalidade, estão fechados. Apenas 20 por cento devem estar abertos e, estes porque já tinham clientes estrangeiros de empresas consultoras, ou porque receberam do sector petrolífero e do Ministério da Saúde, trabalhadores e cidadãos que estão a fazer quarentena obrigatória nessas unidades para evitarem algum contágio. Desde 2014, que vive uma profunda crise que simplesmente se foi agudizando. E agora só piorou!

Já podemos falar em falência de algumas empresas ligadas ao sector?

Claramente! As condições do mercado são muito más. Não é possível sobrevir com taxas de ocupação na ordem dos 5 a 20 por cento. É impossível! Os custos para manter um hotel ou resort são muito elevados, a alimentação está muito cara, tal como, as bebidas, serviços e, o pior de tudo, é que, as pessoas (e falo principalmente da classe média), não têm poder de compra para sustentar as suas casas e famílias, quanto mais dedicarem parte dos seus orçamentos para o lazer. Se olhar para a estrutura do salário, 60 por cento deveria ser para o consumo e 40 para a poupança. Hoje o salário representa 100 por cento de consumo e perdeu 300 do seu poder de compra. Por isso é que vemos os restaurantes e hotéis vazios. A actual política económica de estabilização da economia não privilegia o consumo, pois temos uma política monetária muito restritiva. Deveríamos injectar mais dinheiro na economia para estimular o consumo. Seria uma forma para reanimar a actividade empresarial e por conseguinte, o Estado passaria a receber mais receitas dos impostos. Do ponto de vista de estabilização da economia, o que me parece é que temos dado um grande passo, com o apoio do FMI, principalmente no rigor e na disciplina da execução do OGE, mas continuamos a pecar na execução de investimentos sem retorno produtivo. Temos de apostar mais nas infra-estruturas e no apoio às pequenas e médias empresas, pois são elas o suporte de qualquer economia e actualmente são as mais vulneráveis.

Dada esta situação menos boa, quer dizer que os empregos estão praticamente ameaçados...

Os despedimentos no país são inevitáveis. Já aconteceram ao longo dos últimos anos, e continuam a acontecer. Os hotéis não conseguiram poupanças nem tão pouco estabilizar as receitas e despesas, e tiveram perdas enormes. Veja por exemplo, que o rácio de garantia de rentabilidade de um hotel, ronda em média nos 60 por cento de taxa de ocupação, quando actualmente as nossas unidades no interior do país, não passam dos 5 a 20 por cento. Há algumas medidas tomadas pelo Executivo que teremos de aplaudir, se quisermos ser sinceros, mas são manifestamente insuficientes face à situação dos hotéis em Angola. Nos últimos anos, o turismo sempre foi olhado de esguelha, e quiçá mesmo, esteja na segunda divisão na economia angolana. Só assim se percebe que a sua contribuição no PIB, não chegue aos 0,5 por cento quando a média mundial, situa-se nos 10,4 por cento. O turismo é dos sectores que pela sua dinâmica, quando em crescimento, arrasta de forma transversal todos os sectores da economia, desde a agricultura, indústria, cultura, pescas, etc.

Com o alívio das medidas de segurança nesta fase, acha que o sector turístico e hoteleiro poderá ter uma nova pujança?

Embora haja circulação entre províncias, Luanda está excluída e é o grande centro emissor de turistas com os seus 10 milhões de habitantes e com o seu enorme potencial económico. O plano gizado pelo Governo para a retoma da actividade económica após a quarentena, cria muitas limitações, mas as medidas de confinamento são compreensíveis e assertivas e vão de encontro às nossas preocupações.

A Associação pediu algum apoio específico ao Governo?

A AHRA solicitou formalmente ajuda ao Governo no pagamento dos salários de dois meses, partindo do princípio que em Junho as empresas retomam a sua actividade ao mesmo tempo que propôs um período de carência de seis meses para obrigações relativas aos pagamentos do IVA, da Segurança Social e do IPU, e outros compromissos para com a Autoridade Tributária. Mesmo em relação ao IPU, os hoteleiros tinham solicitado ao Governo a sua isenção, por considerarem, ser os edifícios a sua matéria -prima. Tendo em conta que vamos entrar no período de baixa clientela por força sazonal da actividade do turismo nos meses de Junho a Setembro, propusemos também, a suspensão por um período de seis meses do pagamento dos atrasados dos Impostos a AGT e ao INSS, assim como o pagamento da dívida interna do Estado aos hoteleiros, para criar capacidade financeira face à crise. Outro apoio seria transformar a dívida da em-presas com a AGT como contribuição financeira para este período tão difícil.

O Governo aprovou um financiamento de 488 mil milhões de kwanzas para apoiar as micro, pequenas e médias empresas que eventualmente estejam a passar por períodos difíceis nesta face. Como avalia esta medida?

Saudamos a aprovação desse financiamento. No entanto, para a sua aplicabilidade faltará certamente algum pragmatismo. E o bolo reservado para o turismo e hotelaria é bastante reduzido que nem dá nem para degustar. O sector do turismo está nu-ma rubrica juntamente com outras 12 áreas de micro crédito, linha FACRA, cujo montante é de 4 mil milhões de kwanzas, que representam pouco mais de 8 milhões de dólares para jovens empre-endedores.

Os vossos associados vão concorrer?

Teremos de melhorar os mecanismos de acesso aos financiamentos que continuam ainda muito burocratizados, principalmente para as pequenas e médias em-presas, numa conjuntura económica verdadeiramente desfavorável para o sector hoteleiro. Às vezes, o problema não está em contrair empréstimos nas condições que todos sabemos. Está na viabilidade do negócio. Caso contrário, depois o empresário não consegue pagar e arruína a empresa.

Quanto é que será necessário para se financiar o sector turístico e hoteleiro?

Depende da estratégia que o Governo adoptar. O Estado tem de definir uma verba. Qualquer coisa como 20 milhões de dólares na modalidade revolving seria muito bom, numa primeira fase, dada as carências em divisas. E é um valor muito modesto face às necessidades. A ideia seria de conceder pequenos financiamentos para a recuperação do sector.

Como é que vê a actuação da banca na cedência de crédito para o vosso sector?

A banca é uma empresa. Não são entidades de caridade. Emprestam dinheiro mas querem o seu retorno nas condições estabelecidas. Mas a verdade é que o sector hoteleiro e do turismo, e falo das empresas, não conseguem responder às imposições que deveriam garantir o mínimo de rentabilidade e sustentabilidade. O que nós temos vindo a propor ao Governo é que existam medidas especiais, para um sector que tem sofrido nos últimos anos e que agravou às dificuldades com a mão pesada da Covid-19, inclusivamente, temos levantado estes assuntos nas reuniões semanais do Grupo Técnico Empresarial (GTE), onde fizemos várias propostas para que haja medidas de apoio para assegurar o sector. O Ministério da Economia e do Planeamento deveria realizar um diagnóstico profundo e realista às empresas, que têm diversos problemas, para compreender as suas angústias, dificuldades e ansieda-des, para poder-se dar a terapia adequada.

Neste aspecto o que é que vocês defendem de facto?

O que precisamos é um programa de Governo de relançamento do sector, com fundos de apoio e de garantia, gizados numa estratégia mais abrangente, que tenha em conta a entrada de milhares de turistas estrangeiros em Angola, a abertura dos céus, com a vinda de voos charter’s, e a operacionalização dos principais aeroportos do país. Foram construídas muitas infra-estruturas que não estão a ser usadas. Temos muito bons aeroportos em todas as províncias. Hotéis, resorts, pensões, albergarias, pousadas, motéis, etc. Os aeroportos têm de ser certificados face às exigências da IATA. Fizemos também uma proposta ao Executivo para que se agilizasse ao nível dos transportes aéreos, o banco de compensações, através do sistema BSP, para permitir credibilizar os pagamentos automáticos das companhias aéreas internacionais que operam em Angola.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Entrevista