Opinião

Quo vadis Israel?

Faustino Henrique

Jornalista

Além claro, começa a tornar-se preocupante a deriva à direita que a sociedade israelita conhece ao ponto de os partidos políticos tradicionais que se posicionavam ao centro penderem para a direita e à esquerda, com o histórico Labour (partido Trabalhista) de Yitzhak Rabin, Shimon Peres, praticamente, desaparecer da cena política local.

21/05/2022  Última atualização 07H45

Há dias, o jornal, The Jerusalem Post, que se posiciona ao centro da vida política israelita, lembrou no seu editorial, com um título sugestivo, que "Israel não pode abandonar a solução de dois Estados", exemplificando inclusive com um posicionamento impressionante de um político de extrema-direita, como este segmento encara a realidade que opõe Israel aos palestinos.

Trata-se do vice-ministro para os Assuntos Religiosos, Matan Kahana - político nacionalista-religioso, que vem da extrema-direita e cujo partido é o motor da expansão dos colonatos - que escreveu na sua página no Facebook, tal como citado no Editorial do The Jerusalem Post, assim : "não acredito que haverá paz aqui, e tenho certeza de que não haverá ‘Paz Agora’”, um jogo de palavras dirigido à organização de esquerda. "Porquê? Porque Beit Gamilel, Moshav em que moro, está erguido em terras que antes da criação do Estado de Israel eram habitadas por árabes, assim como a terra de um lugar que costumava ser chamado de Sheikh Munis. O facto de você e eu acreditarmos que esta é nossa terra, que foi prometida a nossos ancestrais e a nós... não impressiona os nossos primos, os filhos de Ismael, cuja narrativa nos encara como tendo imposto a nossa presença a eles. Saímos do sei-lá-de-onde e os expulsamos das suas terras (e quem ignora o facto de que eles têm também uma narrativa não é de direita, é apenas estúpido. Nós, os judeus, sonhámos e orámos por 2.000 anos para retornar à nossa terra. Para eles, apenas 74 anos se passaram. Não os subestimemos".

Quer dizer, até entre extremistas israelitas há a consciência de que o direito dos judeus coexistirem com os outros povos, nomeadamente os palestinos, tem estado a subverter um conjunto de procedimentos legais e acertos bilaterais, entre eles Resoluções do Conselho de Segurança, vários acordos e compromissos envolvendo Israel e a Autoridade Nacional Palestiniana. 

E que com a actual deriva extremista do Governo Bennet-Lapid Israel não vai a lado nenhum, independentemente do emprego da força inútil e desnecessária contra os palestinos.

Numa altura em que os palestinos "celebram penosamente" a chamada Naqba (palavra árabe que significa catástrofe, para designar a criação e consequências da proclamação do Estado judaico no dia 14 de Maio de 1948), o jornal levanta duas questões importantes a que as elites políticas israelitas de direita e extrema-direita fazem "ouvidos de mercador", nomeadamente:"será que Israel quer manter a situação actual, em que milhões de pessoas (palestinianas) vivem sob o controle das suas estruturas militares ao mesmo tempo que lhes é negada a cidadania israelita? Ou quer tornar essas pessoas, os palestinos, cidadãs num eventual Estado bi-nacional e perder a maioria judaica?".

De facto, é incompreensível como os políticos em Israel, mesmo sabendo que no médio e longo prazos há e haverá mais perdas e desvantagens com a manutenção do actual status quo do que se enveredar pela via negocial para viabilizar a criação do Estado palestiniano, ainda assim figuras como o actual Primeiro-Ministro, Naftali Bennett, um jovem de pouco menos de 50 anos, e pela primeira vez nos últimos trinta anos, se opõem abertamente à solução dos dois Estados, uma verdadeira afronta à comunidade internacional e a todos os compromissos das últimas três décadas. E ninguém diz nada, nem a Administração Biden, nem a União Europeia, nem a ONU, ninguém é capaz de dizer à actual liderança israelita que o caminho que persegue não vai ajudar a tornar o Estado judaico mais seguro, não vai contribuir para manter a "maioria judaica" por muito tempo e não vai apadrinhar a manutenção da actual solidariedade e apoio que o mundo concede a Israel.

Mas segundo informações recentes e, dir-se-ia mesmo, que "ainda bem" que esse Governo extremista Bennett-Lapid tem os dias contados,  a julgar pelo recente desequilíbrio no Parlamento em que a anterior maioria governamental passou à minoria com a renúncia de uma deputada, israelo-árabe, Ghaida Zoabi, que diz estar no Parlamento para avançar a causa palestiniana.

Mas, o pior pode estar para vir caso o partido nacionalista Likud de Netanyahu volte ao poder, liderando uma outra coligação, tal como já avisou o "chairman" da referida formação política, Yariv Levin, advogado e político com posições igualmente extremistas.

Se há dez, vinte e trinta anos, os políticos em Israel não ousavam opor-se abertamente à criação do Estado palestino, um compromisso de dimensão internacional assumido por sucessivas administrações americanas, hoje e sem que os Estados Unidos se oponham, os políticos israelitas que chegam a liderar partidos e ao cargo de Primeiro-Ministro falam abertamente contra a criação do referido Estado.

É verdade que a paz dificilmente se imporá a partir de fora, sendo expectável que ambas as partes, os israelitas e palestinos, negoceiem bilateralmente, mas não há dúvidas de que a cada dia que passa há uma clara intenção da parte de Israel em inviabilizar irreversivelmente todas as possibilidades de uma solução a dois. 

Até quando Israel ignorará todos os apelos, alertas, conselhos e até Resoluções da ONU para que, em nome da segurança do Estado judaico a longo prazo tenha consciência da urgência e necessidade de fazer a paz com os palestinos?

Israel não poderá contar indefinidamente com o apoio da comunidade internacional, assassinando impunemente jornalistas, como a veterana Shireen Abu Akle, pivot da Aljazeera nos "territórios ocupados", demolindo casas e expulsando famílias de áreas dos seus ancestrais, sem que algum dia haja consequências, além dos actos cíclicos de vingança sangrenta, sendo caso para perguntar: para aonde vai Israel?

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