Reportagem

Queimados pelo trabalho e o “direito de desligar”

Osvaldo Gonçalves

Jornalista

Abandonar a rotina desgastante para cuidar da saúde é urgente, numa altura em que, no Mundo, o “direito de desligar” ganha cada vez mais força entre as reclamações dos trabalhadores e organizações sindicais

11/04/2022  Última atualização 13H50
© Fotografia por: DR

O teletrabalho é uma das saídas encontradas para minimizar os efeitos da pandemia Covid-19 sobre a economia, sobretudo, nos países onde a cobertura de Internet permite o trabalho remoto e em áreas nas quais é possível actuar à distância.

Relatos sobre o desempenho dos funcionários e o seu impacto nas empresas que acedem a esse tipo de trabalho concordam em benefícios imediatos para ambas as partes, mas, estudos mais aprofundados, sobretudo, nas Ciências Sociais, apontam para danos a nível particular e público.

Se as empresas economizam nas despesas de manutenção dos espaços e os trabalhadores, a princípio, vêem poupanças no tempo e das deslocações de casa para o em-prego e vice-versa, chega a hora em que trabalhar em casa tem efeitos sobre a sua vida familiar e social.

Outra questão muito referida é a chamada "uberização” do trabalho. O termo advém da popularização dos serviços de transporte por aplicativo, que, em determinadas regiões, é feito por veículos de duas rodas, seja pelo acesso, seja pelos gastos menores por parte dos motoristas e o preço a pagar pelos usuários.

Hoje em dia, é usado para todo o tipo de serviço de entregas, em particular no sector de alimentos e bebidas e no e-commerce. Os serviços de correio, antes detidos, em maioria, pelo Estado, passam, cada vez mais, para os privados, em que se colocam mais dúvidas sobre o controlo dos artigos a transportar e entregar.

Em causa estão, em primeiro plano, as relações trabalhistas. Os Estados, de modo geral, estão atrasados no que respeita à legislação que arbitre as relações entre funcionários e empregadores. E pouco ou nada avançaram no tocante às novas modalidades de trabalho.

No Mundo, o "direito de desligar” ganha cada vez mais força entre as reclamações dos trabalhadores e organizações sindicais. Esse direito estabelece que o trabalhador pode "desligar todos os sistemas de comunicação de serviço com o empregador ou de atender a solicitações de contacto por parte deste”.

Por sua vez, este deve "abster-se de contactar o trabalhador no período de descanso”. Tal refere-se ao teletrabalho e ao trabalho presencial. Nalguns países, o "direito de desligar” já está previsto em lei, inclusive para os funcionários públicos.

Situação em Angola

Em Angola, a Lei Geral do Trabalho em vigor é alvo de críticas dos empregados, algumas vezes secundados pelas organizações sindicais, mas, a nota principal das reclamações é relativa aos salários imediatos e pouco com as questões inerentes ao pós-emprego.

Num País onde é grande a massa de trabalhadores informais, o "Cartão de Trabalhador” é apenas um documento para se guardar no baú, lembrança dos tempos em que a foice, o martelo e a roda dentada ainda tinham algum valor.

Basta ir a um estabelecimento do sector da restauração e questionar o tempo que cada trabalhador aí permanece para ver que a maioria nem sequer chega a aquecer o banco para ser inscrito na Segurança Social.

Também é importante referir que, em muitos casos, é o próprio trabalhador quem dá os primeiros passos no sentido da violação dos seus direitos, seja por necessidade, seja por vaidade.


Burnout à cabeça

Doenças profissionais

Os resultados são os mais variados. Alguns chamam a atenção pelos nomes pouco comuns, fora do vocabulário do dia-a-dia, antes só ouvidos em situações graves ou associados a males mais atidos a pessoas que se supõe serem mais afectadas por problemas do corpo e da alma, como as mulheres, as crianças e os homossexuais.

Embora considerada uma das principais doenças no fim do século passado e início deste, a depressão continua a ser olhada com menosprezo pela maioria das pessoas, que chegam a usar termos pejorativos para qualificar os seus sintomas.

Desde 1 de Janeiro último, a Organização Mundial da Saúde oficializou a Burnout como Síndrome crónica. A nova Classificação Internacional de Do-enças (CID-11) segue-se à inclusão, em 2019, desta na lista de doenças relacionadas ao contexto profissional.

Para a OMS, a Síndrome de Burnout é um "fenómeno ligado ao trabalho”, que pode e deve ser tratada, para o que é preciso ajuda profissional. Se, nalgumas situações, ela pode ser resolvida com sessões de psicoterapia, noutros, mais graves, é indicado o uso de medicamentos.

Distúrbio psíquico de carácter depressivo, a Síndrome de Burnout, termo que provém do inglês to burn out (queimar tudo), foi constatada em si mesmo, pela primeira vez, pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberger, em 1970.

É definida por aquele profissional como "um estado de esgotamento físico e mental, cuja causa está intimamente ligada à vida profissional”.


Sintomas

A lista de sintomas é extensa. Ela vai desde "dedicação intensificada - com predominância da necessidade de fazer tudo sozinho e a qualquer hora do dia (imediatismo)” - a "descaso com as necessidades pessoais: comer, dormir e sair com os amigos começam a perder o sentido”.

Inclui também "aversão a conflitos - o portador percebe que algo não vai bem, mas não enfrenta o problema. É quando ocorrem as manifestações físicas” e "reinterpretação dos valores - isolamento, fuga dos conflitos. O que antes tinha valor sofre desvalorização: lazer, casa, amigos, e a única medida da autoestima é o trabalho”.

A consulta que fizemos na Internet fala ainda em "negação de problemas - nessa fase, os outros são completamente desvalorizados, tidos como incapazes ou com desempenho abaixo do seu. Os contactos sociais são repelidos, cinismo e agressão são os sinais mais evidentes” e "recolhimento e aversão a reuniões (recusa à socialização; evitar o diálogo e dar prioridade aos e-mails, mensagens, recados, etc.)”.

São também mencionadas a "despersonalização" (momentos de confusão mental, onde a pessoa não sente o seu corpo como habitualmente. Pode se sentir a flutuar ao ir ao trabalho, tem a percepção de que não controla o que diz ou fala, não se reconhece). Mudanças evidentes de comportamento (dificuldade de aceitar certas brincadeiras com bom senso e bom humor) e "tristeza intensa - marcas de indiferença, desesperança, exaustão. A vida perde o sentido. Vazio interior e sensação de que tudo é complicado, difícil e desgastante”.

Tudo isso pode levar ao "colapso físico e mental”, estágio considerado de emergência, em que "a ajuda médica e psicológica se torna uma urgência”.

Motivo de maior polémica será o ponto em que alguns articulistas referem ser "preciso abandonar a rotina desgastante de trabalho e focar na melhoria da própria saúde”.

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