Reportagem

Queimadas anárquicas matam fauna e flora da província do Zaire

Jaquelino Figueiredo | Mbanza Kongo

Jornalista

Todos os anos, o cenário triste das queimadas anárquicas, em toda a extensão da província do Zaire, se repete. A reacção das autoridades competentes precisa de ser reformulada, para desincentivar tais actos de agressão deliberada à natureza, com consequências gravíssimas, tanto para a flora, como para a fauna.

25/09/2022  Última atualização 07H07
© Fotografia por: Garcia Mayatoko|Edições Novembro

Parece tornar-se cultura das comunidades desta região do país atear fogo por tudo ou por nada, colocando, inclusive, em perigo vidas humanas. As razões para as queimadas são consideradas, por ambientalistas e não só.

O fenómeno maléfico que devasta grandes hectares da flora começa a levantar questionamentos no seio da sociedade, em geral, na medida em que já constitui preocupação ver em todas as épocas secas queimadas anárquicas feitas propositadamente por cidadãos das zonas rurais da região, sob pretexto de preparação de campos agrícolas, caçar ratos e outros animais selvagens para o consumo humano, bem como por "razões culturais”.

A situação constitui um autêntico perigo aos automobilistas que circulam diariamente pelas estradas que interligam a região com a província de Luanda, passando pelo Bengo, tendo em conta a intensidade das chamas que se apoderam das vias de circulação. Os troços Nzeto-Mbanza Kongo, Nzeto-Soyo, Mbanza Kongo-Kuimba, Mbanza Kongo-Luvo e Mbanza Kongo Nóqui têm sido os mais afectados pelas queimadas.

De acordo com informações oficiais, as queimadas desordenadas causaram, no ano passado, quatro mortes, uma delas era uma pessoa invisual que teria perdido a vida muito próximo da sua residência, após ter sido surpreendida pelas chamas e não mais conseguiu livrar-se delas.

Afonso Nenganga, soba da aldeia Luena, na comuna do Nkiende II, a cerca de 65 quilómetros da cidade de Mbanza Kongo, reconheceu que as queimadas, embora permitam a  caça de ratos, imprescindíveis para a alimentação da população, também destroem a flora e fauna.

No entender da autoridade tradicional, apesar de as queimadas destruírem uma grande quantidade de plantas, não representam risco à natureza, na medida em que voltam a crescer algum tempo depois.

"A zona onde está a arder neste momento, não há lavras. As plantas que têm sido destruídas pelo fogo são plantadas pelo Deus. Já temos feito essas queimadas, logo depois da queimada, as mulheres vão caçar todos os ratos que ficam encurralados nas tocas para o consumo da tarde”, sustentou.

O soba admitiu, entretanto, que não foram cumpridas as regras com a queima. "Está errado”, disse.

 

Autoridades manifestam preocupação

O director do Gabinete Provincial do Ambiente e Saneamento Básico do Zaire, Ketuzaioko Pinda, considera, a situação das queimadas no Zaire como "preocupante e grave”.

Ketuzaioko Pinda disse que, apesar de muitos esforços para a sensibilização das populações, no sentido de evitarem tais actos, estes insistem, destruindo a natureza.

"A situação das queimadas é, deveras, preocupante e grave, pese embora o Governo provincial e as administrações municipais estejam a levar a cabo campanhas de sensibilização junto das populações, contando com o concurso das associações ambientais”, lamentou.

Ketuzaioko Pinda não soube determinar a extensão da área devastada pelas queimadas, na medida em que são feitas em diversas localidades e muitas delas de difícil acesso, situação agravada pela falta de meios de transportes que o permita desdobrar-se em toda a província.

"Mas, grosso modo, a situação é preocupante, em função daquele trabalho que nós já realizamos e, ainda assim, vemos as nossas populações a voltarem a essas práticas”, referiu.

As razões invocadas por vários cidadãos para as queimadas foram condenadas pelo director provincial do Ambiente. "Os aldeões vão dizendo que as queimadas servem para a preparação de terras, mas isso não tem nada a ver, até porque prejudicam os solos, dão cabo da flora e da fauna”, afirmou Ketuzaioko Pinda, para quem as quaimadas provocam "prejuízos incalculáveis”.

As consequências das queimadas anárquicas, de acordo com aquele responsável, incidem na morte de uma diversidade de animais selvagens, com destaque para veados, répteis, pacaças, javalis, roedores e não só.

 

Consequência vão para além da fauna e flora

O director do Gabinete Provincial do Ambiente e Saneamento Básico do Zaire disse que os prejuízos resultantes das queimadas anárquicas não se circunscrevem apenas na destruição da fauna e flora; também se estendem a diversas infra-estruturas económicas e sociais.

"Quando falamos de prejuízos, não nos resumimos apenas à flora e da fauna, mas também, essas queimadas colocam em perigo grandes infra-estruturas que o Executivo angolano coloca à disposição das nossas populações, tais como linhas de transporte de energia eléctrica, as redes de distribuição de água potável que ficam em perigo”, exemplificou.

As queimadas anárquicas, acrescentou, colocam, igualmente, em risco residências e as vidas dos seus ocupantes. A título de exemplo, Ketuzaioko Pinda citou a morte do cidadão invisual referido atrás.

 

Incidência das queimadas

Relativamente aos incêndios ao longo das estradas da província do Zaire, os troços Mbanza Kongo-Tomboco-Nzeto-Rio Loge, Mbanza Kongo-Kuimba e Mbanza Kongo-Nóqui têm sido os com maior incidência, situação que se estende para lá das estradas.

Ketuzaioko Pinda disse estar à vista de todos as consequências das queimadas na flora. Garantiu que tem estado a ser levado a cabo um trabalho de sensibilização junto das administrações municipais que, também, têm feito um grande trabalho, numa acção em que se conta com a colaboração de parceiros, como a Polícia Nacional, associações ambientais, autoridades tradicionais e eclesiásticas. "Têm estado a fazer um trabalho muito profundo nesse aspecto”, reconheceu.

O director provincial do Ambiente e Saneamento Básico no Zaire reconheceu, igualmente, que o Jornal de Angola e outros órgãos de comunicação social têm sido um grande parceiro na divulgação sobre o fenómeno das queimadas.

Apesar de haver um nível elevado das queimadas, Ketuzaioko Pinda garantiu que a província não regista desastre ecológico, fruto das campanhas de sensibilização.

"Em termos de desastre ecológico, não chegamos ainda a tanto, fruto das acções que se têm levado a cabo. Mas, se a tendência continuar, num futuro não muito distante, podemos vir a ter desastres ecológicos”, alertou.

 

Diversidade da flora

O director do Gabinete Provincial do Ambiente e Saneamento Básico também não pôde determinar as zonas afectadas pelas queimadas anárquicas.

"A flora do Zaire é muito rica, não vamos aqui distinguir esta ou aquela planta. Para quem conhece a província, sabe do manancial que temos no tocante à flora e à fauna”, referiu Ketuzaioko Pinda, indicando que, nesta época seca, a vegetação mais afectada tem sido a rasa. "Não temos ainda o histórico de atingir as grandes florestas, portanto, até aí, temos estado muito atentos”, garantiu.

Para evitar futuras queimadas que podem tornar-se bastante perigosas, aquele responsável aconselha os cidadãos da província a absterem-se de tais práticas, no sentido de se prevenir cenários como os que se verificam na Europa, Estados Unidos da América e noutros pontos do planeta.

"A nossa mensagem é que os cidadãos tenham em conta que, as queimadas anárquicas são um mal que está para colocar em perigo as nossas vidas. Para quem está hoje a acompanhar a situação na Europa, tem que tirar ilação daquilo que se passa lá e que, se não tivermos isso em conta, amanhã pode ocorrer, também, cá”, exortou.

Ketuzaioko Pinda defendeu que todos devem ser agentes de sensibilização "para inibirmos, cada vez mais, aqueles indivíduos eivados de maldade ou má fé e que vão colocando em risco a vida de pessoas e de bens que o Executivo   coloca ao serviço dos cidadãos”.

"Vamos ver outros hábitos, outras formas, mas não buscando a justificativa de que, para a preparação de terras ou a caça deste ou aquele animal, devemos fazer queimadas, para caça deste ou aquele animal”, pediu.

 

Agricultura é a solução para o combate à fome

Aos cidadãos das diversas comunidades da província do Zaire que alegam fazer queimadas para apanhar ratos selvagens, alegando fome, Ketuzaioko Pinda sugeriu a prática da agricultura.

"Fazer queimadas para apanhar ratos, por razões de fome  não justifica, em função do nível de produção de alimentos agrícolas que temos na nossa província”, afirmou aquele responsável, destacando o facto de o Zaire ser  uma das províncias com mais produção agrícola e onde todos os municípios pratica-se a agricultura.

Quanto à diversidade de produtos do campo, a província do Zaire não tem razões de queixas, na medida em que os seus habitantes produzem de tudo um pouco, em função das terras aráveis que dispõe, chuva em abundância e grandes recursos hidrográficos, acrescentou.

"Temos o feijão e os citrinos em abundância. A aquicultura hoje também faz-se em grande escala na nossa província. Recursos hídricos onde as populações possam retirar o peixe nós temos. O Zaire é uma das províncias que tem um vasto manancial de recursos hídricos a nível do nosso país, portanto é uma justificativa que não se impõe”, insistiu.

Os implicados têm sido levados às barras da justiça. Apesar de algumas medidas que se circunscrevem na detenção e julgamento de alguns cidadãos, elementos há que insistem na prática de queimadas deliberadas, a nível da província do Zaire, disse o director do Gabinete provincial do Ambiente e Saneamento Básico.

"Já têm sido levados às barras da Justiça cidadãos que insistem neste mal, muitos rogam ser uma prática cultural para fins agrícolas. Mas, do ponto de vista social e económico, têm estado a provocar grandes prejuízos económicos e sociais, além da perda de vidas humanas, como consequência das queimadas”, denunciou.

Ketuzaioko Pinda não pôde adiantar quantas pessoas foram condenadas pela prática de queimadas, mas garante que todos os processos inerentes têm sido encaminhados para os órgãos afins que dão o tratamento devido.

"Em todos os municípios, temos sido implacáveis na detenção de cidadãos que insistem na prática das queimadas e, em conjunto com os órgãos da Polícia Nacional, os mesmos são encaminhados para os órgãos afins e têm estado a ser julgados e condenados aqueles cujas acusações sobre si têm sido provadas”, garantiu.

Apesar das acções de sensibilização e de alguns processos judiciais contra supostos implicados, aquele responsável reconheceu que há, no ano em curso, um incremento de incêndios a nível da província, comparativamente aos anos anteriores.

"Nos últimos anos, os casos reduziram significativamente, mas este ano de 2022 nota-se o reacender destas práticas”, afirmou, garantindo que a nossa sensibilização tem sido permanente. "Contamos com o concurso das autoridades tradicionais que são os entes que a nível das aldeias e bairros estão junto das comunidades e que são uma voz ouvida”, frisou.

Os amigos do ambiente, as administrações municipais, como avançou, têm estado, também, a ser incansáveis em acções de sensibilização junto das populações. "Em todos os conselhos municipais de auscultação social, são abordadas essas questões das queimadas anárquicas a nível dos municípios. Portanto, o trabalho é intenso e permanente. Todas as forças estão preocupadas, o Governo provincial está engajado, temos estado a contar com o apoio de todos os nossos parceiros para acabar com este mal”, assegurou.

 

Testemunho de um automobilista

O automobilista Garcia Neves, 34 anos, foi surpreendido por uma queimada quando circulava pelo troço Tomboco-Mbanza Kongo. Reprova a prática dos aldeões, por constituir um perigo autêntico para quem transita naquela via.

"Há camiões cisternas carregados com produtos inflamáveis que circulam toda a hora nas nossas estradas. Por outro lado, uma viatura pode, por uma ou outra razão, ter o combustível a vazar. Com a queimada, pode conhecer uma realidade difícil, daí alertarmos as autoridades competentes para uma tomada de medidas sérias para diminuir ou acabar com esta tendência de fazer queimadas por tudo quanto é canto da província”, exortou.

Antes do incêndio que relatou, quando seguia para a localidade do Nzau Evua, 70 quilómetros da cidade de Mbanza Kongo, Garcia Neves disse ter visto meninos a dirigirem-se à caça de ratos. Após atearem o fogo que rapidamente se descontrolou, fugiram para o interior do matagal.

"Foi para mim uma situação difícil, porque as chamas eram tão intensas, acompanhadas por uma imensa fumaça que dificultava a visibilidade do outro lado. Caso viesse uma outra viatura do lado oposto, corria-se o risco de um choque frontal, porque tanto eu, quanto o outro automobilista que circulasse na faixa contrária, nenhum de teria visibilidade”, referiu.

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