Opinião

Quarenta anos no deserto

José Luís Mendonça

Quando saiu do Egipto, na noite de 14 de Nisã de 1513 a.C., Moisés liderava uma população de judeus estimada em “seiscentos mil homens robustos, a pé, além dos pequeninos. E uma vasta companhia mista saiu também com eles, bem como rebanhos e manadas, uma quantidade muito grande de animais”, conforme relata a Bíblia, no Livro de Êxodo 12:37,38.

05/06/2021  Última atualização 06H05
A nossa leitura da Bíblia é essencialmente histórica, excluindo toda e qualquer interpretação mítico-religiosa. Essa leitura socorre-se da hermenêutica que nos permite concluir que Moisés foi, senão o maior, pelo menos um dos maiores políticos de todos os tempos. A religião foi o suporte temporal que lhe permitiu fazer a política. Naquele tempo (1.500 a.C.) era assim. Essa qualidade de estratega político provinha essencialmente da educação que recebera desde criança, no palácio do seu pai adoptivo, o FaraóTutmósis I. Tutmósis II eTumósis III foram os soberanos que governaram depois, durante a opressão dos judeus, e Amenotepe II, o faraó que perseguiu os judeus até ao Mar Vermelho.

Quando Moisés saiu do Egipto tinha já 80 anos. Era um "filho real” dotado de grande sabedoria, porque era assim que eram educados os filhos do Faraó, naquela que foi a maior potência mundial da época, o centro mundial da engenharia, da matemática e da astronomia. Moisés tinha conhecimentos destas três ciências, principalmente da astronomia, que lhe facultava saber quando ocorreriam certos fenómenos naturais, como invasões de gafanhotos, mudanças nas marés e outros acontecimentos cosmológicos.

Porque é que Moisés obrigou o seu povo a permanecer no deserto durante 40 anos?
Moisés assentou arraiais no deserto durante 40 anos, porque tinha aprendido toda a arte militar do Egipto e sabia que nunca iria conquistar os povos que habitavam a terra prometida com o exército de 600 mil homens. Durante quarenta anos o seu povo quadruplicou. Quando estavam prontos para a ocupação das terras onde manava o leite e o mel, os judeus teriam já um exército de mais de dois milhões de mancebos, compostos de uma geração juvenil até 20 anos e outra geração até 40 anos.
Por isso é que eu considero Moisés, independentemente das interpretações e atribuições divinas, como um dos maiores, senão o maior, político de todos os tempos, que deu leis ao seu povo e o conduziu até ao Médio Oriente, a terra de todas as makas de sempre.

E que lição podemos nós extrair do exercício político de Moisés durante os 40 anos no deserto? Muito simples. Nós, angolanos, atravessámos um período quase igual desde a nossa Independência: 46 anos. E este período também foi uma travessia no deserto. Mas, foi um período em que os angolanos passaram de 7 milhões para 30 milhões (quatro vezes mais), com uma geração de kotas de 60 anos para cima, outra de 40 e tal anos e a terceira a rondar menos de 20 anos. As estatísticas são absolutamente imprescindíveis para a esfera social da governação.

Os jovens de 20 anos rondarão 3 a 4 milhões de almas. Os de 40, provavelmente serão 4 milhões. O que faria Moisés com estes 7 ou 8 milhões de cidadãos socialmente activos, homens robustos, da geração dos 46 anos no deserto?
Deus não nos prometeu nenhuma terra, para além das fronteiras de Angola, para ocuparmos com este "exército” de homens robustos. A terra prometida é esta mesmo, Angola. O povo está aqui e agora, quadruplicado. E está ali uma criancinha de 10 meses a engatinhar no passeio defronte ao jornal onde trabalho, junto à mãe, quinguila de saldos telefónicos. Quem será essa criança daqui a mais vinte anos? Ou quarenta?

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