Opinião

Quantos debates televisivos seriam afinal necessários?

Filomeno Manaças

Cabeça de lista da UNITA às eleições gerais de 24 de Agosto próximo, Adalberto Costa Júnior dedicou o seu primeiro tempo de antena na televisão, no âmbito da campanha eleitoral, a lançar um repto ao candidato do MPLA, para um debate televisivo.

05/08/2022  Última atualização 07H05

O líder da UNITA terá pensado que assim começava bem a campanha. Mas não!

Primeiro, porque a lei não prevê a realização de debates. Segundo, porque fez mal ou, melhor, não fez as contas. A ter de haver debates televisivos, não seria apenas com o candidato João Lourenço; teria de realizar um frente-a-frente também com os restantes sete oponentes. Terceiro, é que, ao dirigir o repto apenas a João Lourenço, o cabeça de lista da UNITA dá a entender que desconsidera os outros concorrentes. Isso revela sobranceira política, o que é muito mau. Ao não desafiá-los também, podemos tomar a liberdade de pensar que, para Adalberto da Costa Júnior, os demais candidatos não contam.

No actual formato das eleições, consagrado pela Constituição aprovada em 2010, se - sublinhe-se aqui o "se” - a Lei Eleitoral previsse a realização de debates, o cabeça de lista de cada formação teria de confrontar cada um dos seus oponentes, ou seja, teria de realizar um total de sete debates. Sendo oito concorrentes vezes sete oponentes, no final, teríamos 56 debates televisivos! Estas contas Adalberto Costa Júnior não fez! Isso torna ainda mais inócuo o repto.

Se, entretanto, e ainda no âmbito das conjecturas, a opção fosse por um único debate com todos os concorrentes, o problema colocar-se-ia no tempo para a realização, com a limitação rigorosa de minutos para os candidatos responderem, de forma objectiva e concisa, às questões colocadas pelo(s) jornalista(s). Ou seja, não haveria tempo para espectáculos, que é o que muitos políticos procuram fazer nos debates, fugindo às questões essenciais sobre, por exemplo, como resolver os problemas económicos e sociais. Estariam mais preocupados em inflamar o ego com uma retórica populista.

Por isso, diz-se que "há debates e debates”. Mesmo nas democracias mais desenvolvidas, há debates em que, pela qualidade dos intervenientes, ou de apenas um deles, facilmente se chega à conclusão de que não terão contribuído para a elevação da maturidade política dos cidadãos e da sociedade. Entre os intelectuais, na hora da avaliação, instala-se a frustração, a sensação de ter havido uma regressão, particularmente em relação ao padrão ético observado - a ausência do chamado discurso polido, do decoro, a inclinação para abordagem de assuntos de plano secundário e a prevalência de acusações infundadas e o levantamento de suspeições.

Nas recentes eleições presidenciais francesas, em Abril, a maioria dos eleitores considerou que Emmanuel Macron e Marine Le Pen tiveram um debate respeitoso, apesar de pertencerem a campos políticos opostos - o primeiro, centrista, e a segunda, da extrema-direita. A democracia saiu valorizada, porque o respeito mútuo credibilizou a política e os seus actores. Já em relação ao debate entre Donald Trump e Hillary Clinton, nos Estados Unidos, para as presidenciais de 2020, o nível de violência verbal - empregue pelo então candidato republicano contra a oponente democrata - chocou uma boa parte do eleitorado.

O que se quer sempre, em democracia, é um debate centrado em propostas concretas de governação, uma discussão que, ainda que seja forte, no terreno da argumentação, eleve a qualidade da democracia e resulte, como ganho, no fortalecimento do Estado e da Nação. Mas nem sempre isso acontece, mesmo ali onde era suposto ocorrer duzentos anos depois do sistema democrático ter sido implantado.

A razão é simples: os debates passaram a ser vistos como momentos para espectáculo político; às vezes até, um espectáculo de péssima qualidade, dando lugar ao triunfo da mediocridade, muito na linha do declínio da consciência cívica e dos valores que o escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prémio Nobel da Literatura 2010, nos dá a ver em "A Civilização do Espectáculo”. O fascínio pelo ecrã, pelos holofotes, é capaz de empolgar e levar um político com uma mão cheia de nada a querer ofuscar o brilho e a eloquência de obra feita pelo seu oponente, porque se entende que o propósito da política e dos debates é negar por negar as conquistas do adversário, já que o objectivo é alcançar o poder.

Fica difícil garantir a realização de debates saudáveis, quando princípios elementares de conduta não são observados. Quando o MPLA é obrigado a vir a terreiro desmentir o cabeça de lista da UNITA em relação a uma suposta negociação da transição do poder político, que afirmou ter havido, está em causa, de forma grave, a honestidade do líder do principal partido na oposição. A verdade democrática convive muito mal com situações deste género.

Os debates não substituem nem anulam a oportunidade que as formações e respectivos candidatos têm, nos tempos de antena na rádio e na televisão, para debitar as suas ideias sobre os grandes temas nacionais e internacionais, o que permite aos eleitores acesso aos conteúdos (programas de Governo e outros documentos), sem o filtro que, por contingências inerentes à linha editorial, cada Media usa para dar tratamento à informação.

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