Entrevista

“Quando sair, ponho o pé na estrada”

O ex-Presidente brasileiro Lula da Silva falou em exclusivo, na sexta-feira, 26 de Abril à Folha de São Paulo e ao jornal espanhol El País, na sua primeira entrevista desde que foi preso, há um ano (Abril de 2018). Na cadeia, o ex-Presidente diz que o Supremo já demonstrou coragem e fala em discutir a questão ética sobre o sítio. Leia a entrevista aqui, retomada do Diário de Notícias.

05/05/2019  Última atualização 10H19
DR © Fotografia por: Ex-Presidente Lula da Silva

O que passou pela sua cabeça quando estava a ser preso?

Durante todo o processo, sempre tive certeza, pelos discursos da Lava Jato, de que tinha um objectivo central, que era chegar a mim. Uma jornalista importante, amiga nossa, escreveu um artigo em que dizia: "o que eles querem é o Lula". E isso foi ficando patente em todos os depoimentos. A imprensa retratava: "prenderam fulano, vai chegar no Lula; prenderam fulano, vai chegar no Lula". Muita gente, que era presa, a primeira pergunta que faziam (para a pessoa) era: "és amigo do Lula? Conheces o Lula?".
A imprensa retratava, as pessoas contavam, advogado conversava com advogado e foi ficando patente que o objectivo era chegar até mim. Tinha companheiros no PT que não gostavam quando eu dizia isso. "Eles vão chegar a mim e depois vão caminhar para criminalizar o PT." Muita gente achava que eu deveria sair do Brasil, ir para uma embaixada, que eu deveria fugir. E eu tomei a decisão que o meu lugar é aqui, no Brasil. Tenho tanta obsessão de desmascarar o Moro, o Dallagnol, a sua turma e aqueles que me condenaram. Ficarei preso cem anos, mas não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade.
Quero provar a farsa montada aqui dentro, no Departamento de Justiça dos EUA, com depoimento de procuradores, com filme gravado e agora mais agravado com a criação da Fundação Criança Esperança do Dallagnol, a pegar 2,5 bilhões de Reais da Petrobras para criar uma fundação para ele. Eu tenho uma obsessão. Você sabe que eu não tenho ódio, não guardo mágoa, porque, na minha idade, quando a gente fica com ódio, a gente morre antes.
Então, como eu quero viver até os 120 anos, porque eu acho que sou um ser humano que nasceu para ir até 120 (anos), eu vou trabalhar muito para provar a minha inocência e a farsa que foi montada.
Por isso, eu vim para cá com muita tranquilidade. Havia uma briga no sindicato aquele dia (da prisão, em Abril de 2018), entre os que queriam que eu viesse e os que queriam que eu não viesse (para a prisão). E eu tomei a decisão. Eu falei "olha, eu vou". Eu vou lá. Eu não vou esperar que eles venham até mim. Eu vou até eles, porque eu quero ficar preso perto do Moro. O Moro saiu daqui (de Curitiba). Mas eu quero ficar preso. Porque eu tenho que provar a minha inocência.

Pode ser que fique aqui para sempre. Mesmo assim acha que tomou a decisão correcta?

Tomaria outra vez.

Já pensou que pode ficar aqui para sempre?

Não tem problema. Tenho certeza que durmo todo o dia com a minha consciência tranquila. Tenho certeza que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme. Aqueles juízes do Tribunal Regional Federal, que nem leram a sentença, fizeram um acordo entre eles? Era melhor que um só tivesse lido e falado: "olha, todo mundo aqui vota igual". Então, sinceramente, quem tem 73 anos de idade, quem construiu a vida que construí nesse país, estabeleceu as relações que estabeleci, fez o Governo que fiz, recuperou a auto-estima e o orgulho do povo brasileiro… não vou me entregar.
Eles sabem que eles têm aqui um pernambucano teimoso. É o que digo sempre. Quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os 5 anos, não se curva mais a nada. Pensa que eu não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com a minha mulher, com os meus filhos, os meus netos, os meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão. Porque quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei. Inocente. E só posso fazer isso se eu tiver coragem e lutar por isso.

Com a decisão da Justiça de devolver o dinheiro do apartamento, acredita em sua absolvição?

Por incrível que pareça, acredito. Ainda continuo com a cabeça de “Lulinha paz e amor”. Acredito na construção de um mundo melhor, de um mundo de justiça. Penso que haverá um dia que as pessoas que irão me julgar estarão preocupadas com os autos do processo, com as provas e não com a manchete do Jornal Nacional, com a capa das revistas, com fake news. As pessoas se comportarão como juízes supremos, de uma Corte que já tomou decisões muito importantes. Essa Corte, por exemplo, votou a liberação de pesquisas com células-tronco, contra uma boa parte da Igreja Católica, votou a questão da demarcação da área indígena de Raposa Serra do Sol contra os poderosos do arroz, no Estado de Roraima. Essa mesma Corte votou a união civil de homossexuais contra todo o preconceito evangélico, as cotas para que os negros pudes-sem entrar nas universida-des. Demonstrou coragem e se comportou.
No meu caso, a única coisa que quero é que votem em relação aos autos do processo. Não peço favor a ninguém, não quero favor de ninguém. Quero que as pessoas, pelo amor de Deus, julguem em função das provas. Porque tenho certeza, o Moro tem certeza. Se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema-unção vão confessar. Ele tem certeza que sou inocente. Esse Dallagnol tem certeza que ele é mentiroso e mentiu a meu respeito. Então eu estou aqui, meu caro, para procurar justiça, para provar inocência. Mas estou muito mais preocupado com o que está a acontecer com o povo brasileiro. Porque posso brigar e o povo nem sempre pode.

Durante esse um ano, passou por dois momentos de muita tristeza: a morte do seu irmão e, depois, a morte do seu neto Artur. Depois de viver isso, o que fica da vida?

Esses dois momentos foram os mais graves. Poderia incluir a perda de um companheiro, como o Sigmaringa Seixas, que era meu companheiro de dezenas e dezenas de anos. A morte do meu irmão Vavá, que era como se fosse um pai da família toda. E a morte do meu neto é uma coisa que, efectivamente não, não... às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Já vivi 73 anos, poderia morrer e deixar o meu neto viver. Mas não são apenas esses momentos que me deixam triste. Tento ser alegre e trabalhar muito a questão do ódio, da mágoa profunda.
Quando vejo essa gente que me condenou na televisão, sabendo que são mentirosos, sabendo que forjaram uma história... aquela história do power point do Dallagnol, nem o bisneto dele vai acreditar naquilo. Tenho muitos momentos de tristeza aqui. Mas o que me mantém vivo, e é isso o que eles têm que saber, tenho compromisso com esse país, com esse povo.
Estou a ver a obsessão que está a acontecer agora, de destruir a soberania nacional, destruir empregos, de juntar 1 trilhão de reais. Para quê? Às custas dos aposentados?
Se eles lessem alguma coisa, se eles conversassem, saberiam que esse cidadão aqui, analfabeto, com um curso de torneiro mecânico, juntou 370 biliões de reais de reservas, que a 4 reais o dólar dá mais de 1,2 trilião, sem causar prejuízo a nenhum brasileiro.
Se eles querem economizar 1 trilião tem uma fórmula secreta: coloque o povo no orçamento da União, gere emprego, gere crédito para as pessoas. O povo está a dever? Tire todo o penduricalho da dívida do povo e ele paga apenas o principal no banco e vai perceber que as pessoas voltam a comprar. Um país que não gera emprego, não gera salário, não gera consumo, não gera renda, quer pegar do aposentado e do velhinho 1 trilião de reais? O Guedes precisava criar vergonha. Onde é que ele fez esse curso de Economia? Se quiser me visitar aqui, eu discuto com ele esse problema dos pobres, sem causar prejuízo aos pobres. Por que não mostra os privilegiados? Eles falam que vão acabar com os privilégios. Coloca a lista no jornal de dez privilegiados. Coloca o nome e o CPF. É o coitado que vai ter que trabalhar até aos 65 anos, que vai ter de contribuir 40 anos. Ele não percebe que muita gente morre sem chegar a essa idade? Lamento profundamente o desastre que está a acontecer neste país. E é por isso que me mantenho em pé. No dia em que eu sair daqui, eles sabem, estarei com o pé na estrada, para junto com esse povo, levantar a cabeça e não deixar entregar o Brasil aos americanos. Para acabar com esse complexo de vira-lata. Nunca vi um Presidente bater continência para a bandeira americana, ficar dizendo: "eu amo os EUA". Ama a sua mãe, ama o seu país! Que ama os Estados Unidos! Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil? Americano pensa em americano em primeiro lugar, pensa em americano em segundo lugar, pensa em americano em terceiro lugar, pensa em americano em quinto e se sobrar tempo pensa em americano. E ficam os lacaios brasileiros a achar que os americanos vão fazer alguma coisa por nós. Quem tem que fazer por nós, somos nós. A solução dos problemas do Brasil está dentro do Brasil.

Como é a sua rotina na prisão? Passa muito tempo sozinho?

Passo o tempo inteiro sozinho. Leio, vejo pendrive que o pessoal me manda, assisto filmes, muitos filmes. Muita série, muito discurso, muita aula. Por exemplo, fiz, na minha cela, um curso sobre Canudos, no canal Paz e Bem, recuperando a história e mostrando as mentiras que Euclides da Cunha contou sobre Canudos. Então, fiz um curso de oito aulas. Agora, sugeri a eles que façam um curso, Retratos do Brasil, sobre todas as lutas sociais no Brasil. Toda segunda-feira tem uma aula. Quando sair daqui, sairei doutor.

O seu partido perdeu a eleição e a extrema direita chegou ao poder com muitos votos que eram do PT. Como avalia essa guinada?

Vamos só relativizar tudo isso. Uma das condições que fez com que eu viesse para cá era porque não havia nenhum advogado naquele instante que não garantisse que eu disputaria as eleições sub-judice. Mesmo condenado, eu poderia concorrer.
Estava com um orgulho muito grande de ganhar as eleições de dentro da cadeia. É importante lembrar que eu cresci 16 pontos aqui dentro, sem poder falar. Quando o ministro Luís Roberto Barroso fez aquela loucura, tive de assinar uma carta dizendo para o Haddad ser candidato. Ali senti que estaríamos correndo risco. A transferência de votos não é simples, automática. Leva tempo. Tinha certeza de que o Haddad poderia representar muito bem a candidatura, como representou.
Tivemos uma eleição atípica no Brasil. O papel do fake news na campanha, a quantidade de mentira, foi uma coisa maluca. E depois, a falta de sensibilidade dos sectores de esquerda de não se unirem. A coisa foi tão maluca que a Marina Silva (da Rede), que quase foi presidente da República em 2014, teve 1 por cento dos votos.
Eu respeito o voto do povo. O povo não é bom só quando vota em mim. Mas a verdade é que nunca tinha visto o povo com tanto ódio nas ruas.

Dá para culpar muitos pela derrota. Mas vocês ficaram muito tempo no poder. Houve corrupção de facto, comprovada. Que autocrítica faz?

Obviamente que reconhecemos que perdemos as eleições. Mas é importante lembrar a força do PT. Porque só eu, pessoalmente, tenho mais de 80 capas de revistas contra mim. Quando eu fui preso, eu tinha 80 horas de Jornal Nacional contra mim. Mais 80 horas da Record, mais 80 horas do SBT, mais 80 horas de um monte de coisas. E eles não conseguiram me destruir. Isso significa que o PT tem uma força muito grande.
O PT não foi destruído. O PT perdeu a eleição. Provou que é o único partido que existe nesse país. O resto é sigla de interesses eleitorais em momentos certos. Quem acabou foi o PSDB. Esse acabou. Esse foi dizimado. Então o PT perdeu as eleições. Deve ter cometido erros durante os nossos governos. O Ayrton Senna cometeu erros, um só, e morreu.

E a corrupção?

Pode ter havido. Agora, que se faça prova. Teve corrupção, a polícia investiga, faz acusação, prova, está condenado. Fomos nós, do PT, que criamos os melhores mecanismos para apurar a corrupção. Não foi o Moro, não foi ninguém. Combater a corrupção é uma marca do PT. Se alguém do PT cometeu um erro, tem de pagar. A única coisa que queremos é que se apure, que se investigue. Falo por mim. Eu desafio o Moro, Dallagnol, 209 milhões de pessoas (inclusive você), a provar a minha culpa.

Na questão do sítio, houve uma reforma, comprovada, e o senhor usufruiu dessa reforma. A Justiça decidirá se houve crime. Mas não houve um erro?

Poderia ter aceite e nunca ter ido naquele sítio. Então, cometi o erro de ter ido no sítio. Disse e está provado que fiquei a saber daquele maldito sítio dia 15 de Janeiro de 2011. E o sítio tinha dono, dono, pré-dono. O Jacó Bittar era meu amigo de 40 anos, comprou o sítio no nome do filho dele, com cheque dado pela Caixa Económica Federal e a polícia sabe disso, investigou. Tivemos polícias e procuradores a visitar a casa de um trabalhador rural, casa de pedreiro, casa do caseiro, perguntando até para as galinhas: “Você conhece o Lula? O Lula é o dono?”. Nem as galinhas falaram. Porque se eu quisesse, podia comprar. Então, se cometi o erro de ir a um sítio em que alguém pediu e a Odebrecht reformou, vamos discutir a ques-tão ética. Aí é outra questão. Acontece que o impeachment da Dilma, o golpe, não fecharia com o Lula em liberda-de. Qual é o meu incómodo? Acabaram agora com o aumento real do salário mínimo. Inventaram uma carteira de trabalho verde e amarela, nenhum empresário vai contratar um trabalhador que não esteja com carteira verde e amarela. Essa gente pensa que o povo é imbecil para ficar mentindo o tempo inteiro para o povo.

Sente-se injustiçado por empresários que cresceram no seu Governo fazerem delações premiadas contra o PT e o senhor?

Não fico com raiva. Tenho desafiado os empresários a dizerem quem é que me deu cinco centavos. O Léo Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS, que delatou Lula no caso do triplex, passou três anos a dizer uma coisa, depois mudou o discurso.
O meu advogado perguntou por que ele tinha mudado e ele disse que era orientação do advogado dele. Agora, o que está provado? A OAS gastou 6 milhões de reais para pagar funcionários, para uniformizar o discurso dos funcionários na delação. Como eu posso levar a sério isso? Eu não posso levar a sério. O que eu posso dizer é que haverá tempo suficiente para que a gente faça a investigação. Quem sabe um jornalista bem informado como você possa ir aos Estados Unidos saber qual é a intromissão do Departamento de Justiça americano nesse processo do Brasil. Qual é o interesse dos americanos na Petrobras. Sabe qual é, mas temos que investigar. Temos de ir atrás. Eles nunca engoliram o facto de eu dizer que a Petrobras era nossa, que o petróleo era nosso, que o petróleo seria o passaporte do futuro, que 75 por cento dos royalties da Petrobras iria para cuidar da educação, e que a Petrobras teria 30 por cento. Ou seja, quem quisesse entrar teria que pagar o que nós quiséssemos. Aí o WikiLeaks vaza aquele documento do José Serra, ligando para a Chevron, a dizer "venha para cá [Brasil] que vamos dar um jeito. E deram um jeito.
Como esse país vai para a frente se não tiver gente que se respeita, que goste do país e que entenda que um país que tenha as riquezas minerais que o Brasil tem, a floresta, o potencial de água doce, de petróleo, quase 17 mil quilómetros de fronteira seca, 8 mil quilómetros de fronteira marítima, petróleo a 200 milhas... foi a gente anunciar o pré-sal que os americanos recuperaram a quarta frota que funcionou na Segunda Guerra Mundial. Qual foi a resposta que dei para os americanos? Criei o Conselho Sul-Americano de Defesa para juntar e não ter intromissão dos Estados Unidos.
A coisa que mais acontece no Brasil é denúncia. Sou favorável que todas as denúncias feitas sejam apuradas. Investiga, investiga, apura, apura, faz o que quiser. Estou a achar estranho essa tal dessa milícia do Bolsonaro.

Supremo Tribunal nega pedido de habeas corpus

O juiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal brasileiro (STF), negou sexta-feira um pedido de habeas corpus para o ex-Presidente Lula da Silva, protocolado por advogados que não integram a defesa do antigo governante.
O pedido tinha sido efectuado na segunda-feira por Daniel Oliveira, ex-secretário de Justiça do Estado brasileiro do Piauí, e por Fellipe Roney de Carvalho, ambos advogados, mas sem nenhuma ligação com a defesa oficial de Lula da Silva.
Por essa razão, a defesa do ex-Presidente brasileiro demarcou-se da posição adoptada de forma independente pelos dois advogados e assinou uma petição contra o pedido de habeas corpus, por aquele ter sido efectuado "por pessoas estranhas à sua defesa técnica".
No documento, a que a agência Lusa teve acesso, a defesa de Lula da Silva acrescentou ainda que a acção foi efectuada "sem o conhecimento" do ex-Chefe de Estado.
"Luiz Inácio Lula da Silva, (...) actualmente custodiado na Superintendência da Polícia Federal do Paraná, vem (...) requerer o não conhecimento da ordem de habeas corpus em epígrafe. A defesa técnica (de Lula) tomou conhecimento do protocolo do presente habeas corpus através de matéria jornalística.

 

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