Reportagem

Quando o talento ultrapassa barreiras - II

Analtino Santos

Jornalista

Tê Pascoal, Nairo Poliglota, Ísis Hembe e Waletchia Neto são os artistas que apresentamos na segunda parte desta reportagem que teve como âncora o projecto “Arte-Superação”, onde pessoas portadoras de deficiência mostraram o seu talento e falaram de temas como inclusão, acessibilidade e outros aspectos do seu percurso artístico e social. Recordamos que na primeira parte apresentamos o quarteto Eliana Caley, Yakala, Vopsi Moma e Polas

18/09/2022  Última atualização 08H51
© Fotografia por: DR
Tê Pascoal, cantora e compositora, tem na sua musicalidade influências da Soul Music, Jazz e de vários outros ritmos e sonoridades de África e de Angola. Ela considera-se eclética ouvinte de várias sonoridades,  viaja de Don Kikas a Tito Paris, de Sara Tavares a Yola Semedo, Djavan, John Legend, Kituxi, Angelique Kidjo, Youssour Ndour, Frank Sinatra e outros que fazem uma boa música e que, segundo ela, não caiem no senso comum. "Não sou muito de ouvir músicas novas porque estão a bater, a menos que seja obrigada porque alguém pôs ela a tocar alta. Nunca vou atrás das músicas, elas chegam-me ao acaso e não sei cantar as que estão na moda. Meu contacto com a música é muito espontâneo.  E quando estou nas vestes de intérprete podem sentir este ecletismo, aliás, estou quase sempre nesta posição. No bar permito-me algumas coisas, porque há aqueles momentos em que as pessoas estão eufóricas e não querem ouvir Tito Paris ou outras baladas, vão querer ouvir Matias Damásio. Sempre tive paixão pela música ao vivo e faço questão de cantar ao vivo ao invés de playbacks, é uma questão de respeito ao público”.

A nossa entrevistada fala da origem da sua relação com as harmonias e melodias. "Sempre estive ligada à música, não tinha referência de ninguém na família embora o meu irmão já fizesse Rap. Eu ouvia muita música e cantava nas actividades escolares”.

A artista que nasceu e cresceu no Cazenga, onde teve o amor e a super-protecção dos familiares, foi depois aconselhada pelas amigas para soltar-se mais e ser mais independente. Em 2011 participou do casting do   musical "Angola Encanta”, onde acabou por não ser apurada. Já partilhou palco com nomes sonantes como Jeff Brown e o cantor e produtor Livongh. Conheceu o centro de formação profissional de Viana e passou a frequentar lá o curso de canto, isto em 2014. Tê Pascoal diz que então as coisas começaram a acontecer. "Estava há um mês na escola quando surgiu um concurso de música e fizeram questão que eu participasse. Participei na categoria de música clássica do segundo grau, com uma adaptação da música popular angolana. Fiquei em segundo lugar com ‘Ressurreição’ de Elias dya Kimuezo e consegui o segundo lugar do concurso Música Clássica para Todos, realizado pelo Ministério do Trabalho. Com o incentivo do senhor Imperial Baião, dos Jovens do Prenda, e do  professor Isaú ganhei o gosto por interpretar  temas em língua Kimbundu”.

Nesta trajectória gravou "Natureza” com o produtor e cantor Dr. Smith, dono do estúdio onde fazia coros para artistas emergentes do Rap. "Foi incrível porque ele ligou o microfone e comecei a cantar e quando terminou tínhamos a música feita. Foi um freestyle”.

Quanto à questão da acessibilidade recorda que uma vez teve que descer da cadeira de rodas e ser levada escada acima por outras pessoas. "Não adianta ficar sempre a lamentar porque não puseram elevador, mais vale ir atrás dos nossos objectivos. Nos palcos também tenho me deparado com  escadas e ter de depender de quatro ou cinco pessoas para me levantarem juntamente com a cadeira de rodas”. 

"Penso que cada um de nós deve pensar que qualquer um é susceptível de ter falta de mobilidade,  em algum momento cada um de nós pode ter mobilidade reduzida. Os palcos, as salas de espectáculos, precisam ter rampas ou elevadores e quando não há possibilidades para isto pelo menos que adaptem mecanismos de madeira ou metal, pois mesmo que não tenha alguém com deficiência no cartaz haverá naturalmente pessoas na plateia com mobilidade reduzida”.

Quanto ao facto de além de artista ser activista social, Tê  Pascoal salientou: "A minha vida já é luta e resiliência, portanto, tudo que faço já deixa uma demonstração de activismo, nunca precisei levar isto para a música. Por exemplo, a minha aposta no mestrado em Comunicação Institucional é uma forma de demonstrar que afinal nós também podemos ser mestres, ou seja, o que pretendemos ser, seremos, só precisamos ir atrás”.

Formada na Universidade Independente de Angola, Tê Pascoal foi corista na mesma instituição de ensino superior, onde trabalhou igualmente na área dos arquivos. Numa actividade cultural da instituição interpretou temas nacionais que emocionaram de tal maneira os membros da direcção que lhe contemplaram com uma bolsa de estudos. 


NAIRO POLIGLOTA
"A arte me libertou das atrocidades sociais”

Nairo Poliglota canta a realidade do guetto e levanta a voz contra o preconceito. Rapper, autor do álbum  "Ritmo e Palavra” e docente do ensino primário, desenvolve um projecto comunitário no Ngonhá. Vive numa rua de escombros entre o Sambizanga e a Comarca, onde uma das poucas vantagens é a proximidade da estrada principal. Encontramos o artista diante da kitanda da sua mãe. E num jeito como se estivesse a fazer freestyle falou   do projecto "Arte-Superação”:  "A Fundação Arte e Cultura mostrou ser  inclusiva.  O projecto foi de grande valia e eles deram o máximo apoio. Passou as minhas expectativas e fiquei mesmo muito surpreendido. Até o Jornal de Angola e outros órgãos estão a dar seguimento e visibilidade ao nosso trabalho”.

Passando para a sua trajectória artística, esclareceu: "Optei pelo Rap, um estilo musical que me foi enraizado através do meu irmão mais velho, o principal mentor de tudo. Temos um histórico de Rap consciente, é assim que estamos nesta cena desde tenra idade. 2006 e 2007 foi praticamente a época da minha entrada e então já fazíamos intervenção, por intermédio do movimento cultural África Bambata cantávamos a realidade do nosso guetto”.

Relativamente à sua integração no movimento Hip Hop, acrescentou: "Os manos estão comigo, são afáveis e não me enxergam com diferença. Mas tenho uma trajectória difícil, cresci com algumas atrocidades, sofri actos de preconceito e discriminação, o que me levou a dar um input ao projecto ‘Livre dos Escombros’, onde encontramos o tema ‘Abaixo o Preconceito’, uma música autobiográfica. E estou a fazer concertos para promover esta obra, por exemplo em breve estarei no Elinga Teatro a convite dos manos da Manhã de Rap”.

O rapper assume que tem como pauta principal a inclusão. "Estamos no real guetto, onde a questão da acessibilidade é real. E a nossa sociedade no geral ainda não é inclusiva. A questão da acessibilidade chega a ser o grande problema, é muito preocupante. E por meio da arte eu friso estas questões, chamo  à atenção e à razão. As políticas de inclusão de certa forma estão no papel, mas a realidade é outra”.

Nairo realça o papel da arte na sua vida. "Foi a arte que me libertou das atrocidades sociais e é através dela que me manifesto e consigo libertar-me do que sinto. Como docente sou encarado como instrutor, um educador por excelência. Gostaria de fazer mais pela minha comunidade, arrendei um espaço onde tenho salas de aula, porque aqui existem poucas escolas públicas e tenho pedido ajuda para melhorar o projecto, mas sem sucesso”.


ÍSIS HEMBE
"Meu processo criativo vem do meu corpo” 

Fizemos esperar Ísis Hembe até perto do fim da tarde, na residência dos seus pais, num condomínio em Talatona.  A deficiência física surgiu-lhe nos anos 80, em decorrência do surto de uma doença esquisita em Luanda que deixou algumas crianças nesse estado. Ísis é autodidacta, desistente do ensino superior, onde entrou no curso de Matemática e passou pela Arte, onde frequentou Canto Lírico... mas são os livros a base do seu conhecimento e interesse pela filosofia, espiritualidade, história e outras ciências humanas e sociais.

Ísis Hembe tem o dom da palavra. Não é por acaso que muitos o conhecem tanto nos meios da Spoken Word como do Rap. A sua história artística arranca tendo como pseudónimo Jay One. Posteriormente adoptou os apelidos Gabriel O Pensador, Puto Consciente e Dupla Consciente. "À medida que fui crescendo artisticamente exercia outras vertentes e parei na literatura, onde eu era mesmo o Ísis Hembe. Depois tive a necessidade de demonstrar a nossa identidade e Ísis é como os gregos chamavam a uma deusa africana e tem muito a ver com o olhar que tenho na vida, já Hembe é o meu nome de registo e também de um vilarejo em Malanje, terra do meu pai. Achei que fazia todo o sentido usar esta combinação e não um nome complexo”. 

"Exerço a literatura na perspectiva performativa com a palavra, na verdade eu me posiciono como MC, só que dentro deste espectro a palavra é volátil. A palavra pode levar-me para o teatro, a literatura ou a música. Deste modo faço as minhas composições para que possam ser versáteis e aplicáveis em diversas formas de arte”.

Falando da inserção das pessoas com deficiência nas artes performativas, Hembe frisou: "Na verdade foi a minha própria arte que me levou aos diversos locais, eu nunca senti a necessidade de pertencer a determinada cena, o que acontece é que as pessoas reconhecem alguma qualidade no meu trabalho e a minha arte me leva aos lugares. A primeira vez que fui a um evento do Kool Klever ele nem sabia que eu era uma pessoa com deficiência. Vivemos num mundo múltiplo e isto significa que se existem pessoas na vida real com deficiência elas também podem estar nos palcos, nas telas de cinema...”

"O artista  e o palco vêm em decorrência da própria estética da existência. Na verdade eu acredito que nós, enquanto seres humanos, somos um caldeirão de possibilidades que podem ser moldadas a partir do próprio ímpeto, da própria necessidade e das nossas preferências. A arte dos palcos é consequência da arte da vida”.

Em relação às pessoas que representa, Ísis Hembe sustenta: "A minha demanda é da expressão  natural, não foi uma pauta que tive de definir e dizer que vou ter de lutar contra isto ou aquilo. Uma das minhas premissas é ser honesto e o meu processo criativo muitas vezes vem do meu corpo, da minha comunidade. Não posso falar de coisas que eu não vivo ou que não experiencio na sociedade”.

"A inclusão artística é um problema da sociedade, isto significa que ainda existem muitos filtros  e a pessoa com deficiência precisa demonstrar determinados níveis de qualidade que não são pedidos a uma outra para chegar a certos espaços. A pessoa com deficiência precisa ter uma qualidade muito vistosa e isto é discriminatório porque não dá muitas possibilidades. Temos de fazer esforços a mais”.

Ísis Hembe, referindo-se à exposição "Arte-Superação” sublinhou que ela deixou ficar muito clara  a qualidade dos trabalhos apresentados. O artista afirmou que o não aparecimento de artistas tão talentosos em determinados eventos deve ser visto  a partir das próprias políticas públicas, a começar pela questão da acessibilidade. "Para ir a um determinado local a pessoa com deficiência precisa de um transporte especial, precisa de um palco com acessibilidade. E quando não se coloca a acessibilidade como elemento central e indispensável na sociedade, tudo fica entregue a iniciativas individuais, espontâneas e voluntárias. Um produtor de eventos sabe dos custos supostamente extras que envolvem levar uma pessoa com deficiência a determinados ambientes. Aí começa a haver um espaço de selecção. Em vez de levar o Ísis que vai precisar de um carro é melhor apostar numa pessoa que tem menos dificuldades. É aí que entra a necessidade de se criarem projectos inclusivos. A  inclusão não é algo dirigido apenas para pessoas com deficiência, é um modo de encarar a sociedade que permite que qualquer pessoa, em qualquer circunstância, não precise de alguém para ter a sua autonomia e direito de participar sem dificuldades nos eventos. Uma pessoa sem deficiência, em alguma circunstância, pode precisar de uma tecnologia específica para quem tenha deficiência”. 


WALETCHIA NETO
"Motivo as pessoas com palavras” 

Foi noite adentro que chegamos aos arredores da vila residencial do Gamek, de onde de seguida Waletchia levou-nos ao Catinton, felizmente bem distante da zona considerada de risco. O artista luta para que haja mais pessoas com deficiência (artistas e não só) nos espaços culturais e faz questão de espelhar este desafio nas suas performances. Ele tem  como mantra: "Inspira vidas com palavras / Repara mentes degradadas / No lugar do vitimismo / Faz da arte a sua morada”.

O filho do senhor Manuel Francisco Neto e da dona Antónia  Joaquim tem como nome no Bilhete de Identidade José Francisco Joaquim Neto. No mundo da Spoken Word ele é o Waletchia Neto. Nascido na Maianga em 1996, ele traça assim a sua trajectória artística: "Iniciei muito cedo nas artes e foi o desenho a minha primeira aposta, mas em 2013 parei porque não consegui entrar num curso. Fiquei desmotivado e preferi parar. Deste modo surgiu a música, eu compunha para o estilo Kuduro, mas por conta dos princípios religiosos e como cristão sempre que pensasse em gravar ficava retraído e não o fazia. Depois comecei a fazer teatro na igreja e mais tarde passei a escrever obras teatrais, jograis e poesia. A partir de 2018 comecei a escrever textos literários fora da visão cristã, saí da área do Gospel com temas mais concernentes à vida em sociedade”.

"Actualmente exploro a Spoken Word mas tenho outras vertentes. Sou actor. Em tempos participei numa curta-metragem, mas considero-me apenas artista, eu sou a arte.   Com a minha arte tenho o objectivo de olhar para a inclusão de pessoas com deficiência no meio social e artístico. A arte serviu-me de ponto e pilar para a superação e autoconfiança e também pode servir para outras pessoas que ainda não se superaram e nem conseguiram compreender que não ter um braço ou uma perna não as torna inferiores. A minha luta como artista é despertar mentes, mudar consciências e trazer à razão que pessoas com deficiências são capazes de se auto-superar”.

Waletchia, tal como os demais colegas, é realista quanto à falta de condições de acessibilidade e a importância de se proporcionar condições para que as pessoas sejam independentes. "É muito raro o cartaz de um evento ter um artista com deficiência. Parece que nós temos de produzir as nossas próprias coisas e auto-convidar-nos de modo a nos promovermos. Estamos a falar de cadeirantes, mas imagine que seja um mano que tenha deficiência auditiva e vai para um evento de poesia ou uma palestra e não há um tradutor de linguagem gestual...” 

Waletchia não tem problemas de mobilidade e como actor é crítico quanto à falta de oportunidades para pessoas com deficiência. "Penso que existe um desrespeito. Por exemplo há um personagem de uma pessoa com deficiência e eles trazem ao palco pessoas sem deficiência para representar aquele papel, quando existem actores e grupos de teatro nestas condições. Isto é visível nas novelas e nos filmes angolanos. As pessoas com deficiência deviam ser chamadas porque elas representariam o que vivem no seu quotidiano. Por exemplo a curta metragem em que participei era sobre pessoas com deficiência e estive lá com o Ísis e a Evana, uma mana que anda de muletas. Conseguimos representar perfeitamente porque eram as dificuldades que nós vivíamos, encenamos as situações por que passamos. As cenas de pessoas com deficiência deviam ser representadas por elas mesmas, isso traria mais oportunidades para mostrarem o seu talento”.

Waletchia explora bastante as questões na perspectiva da auto-ajuda. "A  questão da superação fez com que olhasse para o preconceito não como pedra para derrubar, mas como pedra para construir a escada e poder subir em cada degrau para alcançar o que se quer. O preconceito é idiotice. Na verdade é a falta de conhecimento que nos torna preconceituosos. Eu mesmo já fui preconceituoso com pessoas albinas.  Mas quando frequentava a sétima classe tive a sorte de me sentar com uma colega albina na mesma carteira. Fruto da confiança pude notar que ela era uma pessoa incrível e mudei de atitude, passei a ver que o desconhecimento e a ignorância nos limitam”. 

Fruto das actuações em espaços culturais como a Fundação Arte e Cultura, União dos Escritores Angolanos, Baía Poética, e outros, Waletchia tem recebido pedidos para gravar e lançar um disco, mas ele afirma que se considera mais um homem da escrita do que da oratória.  "De momento penso lançar um livro, sou mais voltado a composições literárias como poema, romance e conto. A Spoken Word é o complemento da minha poesia, o meio artístico que uso para manifestar as minhas insatisfações, inquietações, as minhas alegrias, desejos e por aí além, sempre motivando as pessoas com palavras”.

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